Cópia de retrato de John Newton, atribuída a William Samuel Wright a partir de obra original de John Russell, via Wikimedia Commons — domínio público
Amazing Grace é, segundo os próprios pesquisadores que catalogam essas coisas, o hino mais gravado da história. Milhares de versões, de coral de igreja a gaita de fole em funeral militar. Quase ninguém, porém, escuta a primeira estrofe sabendo quem a escreveu: um homem que passou anos comandando navios negreiros.
Essa tensão não é detalhe de rodapé. É o ponto do hino.
Um traficante quase escravizado
John Newton nasceu em Londres em 1725. A mãe morreu de tuberculose antes dele completar sete anos. Aos onze já acompanhava o pai em viagens marítimas, e aos dezoito foi recrutado à força pela Marinha Real britânica, servindo no HMS Harwich. Tentou desertar, foi açoitado publicamente e, rebaixado, transferido para um navio mercante que passava — um navio envolvido no tráfico de escravos.
O comércio de pessoas escravizadas lhe pareceu, nas próprias palavras dele anos depois, “um modo de vida fácil e respeitável”. Foi trabalhar nele.
Em 1745, abandonado na costa oeste africana, Newton ficou sob os cuidados de Amos Clow, um comerciante de escravos com um entreposto nas ilhas Plantane, perto de Serra Leoa. Clow o entregou à própria esposa, conhecida como Princesa Peye, que o tratou como tratava os próprios escravizados: dois anos de fome, doença, exposição e humilhação. O futuro autor de um hino sobre ser resgatado já tinha sido, ele mesmo, propriedade de alguém.
No início de 1748, um navio enviado pelo pai o encontrou e o resgatou. Na viagem de volta, a bordo do Greyhound, uma tempestade quase afundou o navio na costa da Irlanda. Em 10 de março de 1748, em meio à água que invadia o porão, Newton orou — a primeira oração sincera, segundo ele, em anos. O navio sobreviveu. Newton chamaria aquele dia, depois, de o começo de tudo.
Litografia (1837–1842) do acervo da New York Public Library, via NYPL no Unsplash
A conversão que não mudou tudo de uma vez
Aqui o relato costuma pular direto para o hino. A história real é mais incômoda: a tempestade de 1748 marcou o início de uma transformação espiritual, não o fim do envolvimento de Newton com o tráfico. Ele continuou navegando — e por anos, comandando — navios negreiros depois daquele dia. A graça que ele descreveria mais tarde não operou como um interruptor.
Só em 1764, já casado e afastado do mar, Newton foi ordenado pastor anglicano em Olney, pequena cidade inglesa. Lá formou parceria com o poeta William Cowper, e juntos escreveram hinos para os cultos e reuniões de oração da paróquia. “Amazing Grace” nasceu nesse contexto prático: Newton o escreveu para ilustrar um sermão de Ano Novo, em 1º de janeiro de 1773. Seis anos depois, em 1779, entrou na coletânea publicada com Cowper, os Olney Hymns.
O texto resume, em poucas estrofes, a própria biografia de quem o escreveu: perdido e agora achado, cego e agora vendo, em perigo e agora salvo. A estrutura é quase idêntica à parábola que Jesus contou sobre um filho que se afasta e é recebido de volta: Lucas 15:24. Newton não inventou essa gramática espiritual. Ele a viveu, e depois a versificou.
Do navio negreiro ao gabinete de Wilberforce
Newton levou décadas para transformar remorso em ação pública. Em 1788 publicou Thoughts upon the African Slave Trade, confissão detalhada e brutal da própria participação no comércio de pessoas. Tornou-se, a partir de 1785, conselheiro espiritual de William Wilberforce, o parlamentar que dedicaria a vida à abolição — e ajudou, em 1787, a fundar a sociedade que coordenou essa campanha.
Newton morreu em 21 de dezembro de 1807, quase cego, nove meses depois do Parlamento britânico aprovar a lei que proibia o tráfico de escravos no império. Disseram que ele recebeu a notícia da aprovação, semanas antes de morrer, com alegria.
Como “Preciosa a Graça de Jesus” chegou ao Brasil
A tradução mais documentada do hino para o português é “Preciosa a Graça de Jesus”, hino 314 do Hinário para o Culto Cristão, usado por igrejas presbiterianas brasileiras. A primeira estrofe foi traduzida pela comissão responsável pelo hinário em 1990; as estrofes seguintes, por João Wilson Faustini já em 1969. A melodia que se canta hoje não é a original do século XVIII — é o arranjo que o compositor americano Edwin Othello Excell fez em 1900, e que se tornou padrão.
Vale uma ressalva, porque a confusão é comum: existe também, em hinários pentecostais, um hino chamado “Maravilhosa Graça” — mas é uma composição totalmente diferente, escrita por Haldor Lillenas em 1918 e sem relação musical ou autoral com o texto de Newton. O nome parecido é coincidência de tradução, não parentesco.
Foto por Kelly Sikkema no Unsplash
A gravação que quase não levou esse nome
A primeira gravação conhecida do hino saiu em 1922, pela gravadora Brunswick, cantada pelo Original Sacred Harp Choir — um grupo de cantores do estilo Sacred Harp, vindos da Geórgia e do Texas até Nova York só para essa sessão. No disco, porém, a faixa não se chama “Amazing Grace”. Chama-se “New Britain”, o nome da melodia, não da letra.
A versão que projetou o hino para o público em geral veio quase trinta anos depois: a gravação de Mahalia Jackson, em 1947, com tanto sucesso nas rádios que ajudou a definir o que ficaria conhecido como a Era de Ouro do Gospel. Jackson voltaria a cantá-lo publicamente durante a luta pelos direitos civis — disse, mais tarde, que usava o hino quase como proteção, um apelo aos céus em meio ao perigo real que aquelas marchas representavam.
Disco de 78 rpm original (Apollo Records, 1947), digitalizado pelo Internet Archive
O que sobra, ao final
Newton só conseguiu escrever sobre graça depois de passar pelos dois lados dela: o lado de quem foi tratado como propriedade descartável em Serra Leoa, e o lado, mais difícil de admitir, de quem tratou outros seres humanos do mesmo jeito por anos depois de “convertido”. Um hino sobre graça irrestrita escrito por alguém assim não é ironia. É a prova do que ele estava dizendo.
Referências
- Texto bíblico: versão Almeida Revista e Atualizada (ARA), via bibliaonline.com.br
- John Newton — Britannica
- John Newton — Wikipedia
- Amazing Grace — Wikipedia
- Early Sound Recordings of “Amazing Grace” — Library of Congress
- Cowper & Newton Museum — biografia de John Newton
- HCC 314 — Preciosa a graça de Jesus — Hinologia Cristã
- HCC 193 — Maravilhosa Graça (hino distinto, sem relação com Amazing Grace) — Hinologia Cristã
- Mahalia Jackson — Wikipedia
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