Foto por Ante Hamersmit no Unsplash
Capítulo 4 de “O Impostor que Vive em Mim”, de Brennan Manning.
No aramaico do primeiro século, “Aba” era a palavra que uma criança usava para chamar o pai — o equivalente de “papai”. Nenhum judeu piedoso usaria esse termo para se dirigir a Deus. Era familiar demais, quase irreverente.
Jesus usou.
Manning dedica o quarto capítulo de O Impostor que Vive em Mim a essa palavra, porque ela carrega toda a teologia do livro condensada em uma sílaba.1 O que Jesus revela ao chamar Deus de “Aba” não é apenas informação sobre a natureza divina — é uma autorização para que os seus façam o mesmo.
A adoção que Paulo descreve
Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. O Espírito que vocês receberam não os torna escravos, para que vivam novamente em medo; ao contrário, vocês receberam o espírito de filiação. E por ele clamamos: “Aba! Pai!” O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.
Paulo usa o mesmo termo aramaico — o que indica que não é uma metáfora polida, mas um grito que ele aprendeu da própria tradição de Jesus. “Clamamos” sugere urgência, não formalidade litúrgica.
O problema que Manning identifica é que a maioria dos cristãos admite intelectualmente ser filho de Deus, mas vive como empregado — sempre tentando fazer o suficiente para não ser demitido.
O que Jesus revela sobre o Pai
Manning ancora o capítulo em Mateus 11, onde Jesus afirma algo que soa exclusivo mas é, na verdade, um convite:
Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, exceto o Pai, e ninguém conhece o Pai, exceto o Filho e aqueles a quem o Filho quiser revelá-lo.
A revelação do Pai que Jesus traz não é de um soberano que administra o universo à distância. É de um Pai que age como o do filho pródigo — correndo ao encontro antes que o filho chegue, vestindo-o antes que ele termine o discurso ensaiado.
Compaixão como marca do filho
Manning argumenta que, para quem internalizou que é filho de Aba, a compaixão pelos outros não é um dever moral — é consequência natural. Lucas 6 apresenta o raciocínio:
Ao contrário, amem os seus inimigos, façam o bem a eles e emprestem sem esperar receber nada em troca. Assim, será grande a sua recompensa, e vocês serão filhos do Altíssimo, porque ele é bondoso para com os ingratos e maus.
O verso não diz “sejam bondosos para ser filhos”. Diz “sejam bondosos porque são filhos”. A generosidade brota da identidade — não a cria.
Manning é direto: enquanto a nossa relação com Deus for baseada em medo de punição ou esperança de recompensa, ainda estamos operando como escravos. O filho de Aba age diferente — não porque precisa provar algo, mas porque sabe quem é.
A pergunta incômoda
No capítulo, Manning faz uma pergunta que vale parar para responder: A imagem de Deus que você carrega na prática — não a que você professa nos credos, mas a que aparece quando as coisas dão errado — é a de um Pai que ama, ou a de um juiz que avalia?
A resposta honesta a essa pergunta revela quanto espaço o impostor ainda ocupa.
Referências
-
Manning, B. O Impostor que Vive em Mim. Tradução de Marson Guedes. São Paulo: Mundo Cristão, 2006. ↩
Tem algo a dizer sobre este texto? Manda uma mensagem — responderei em breve.