Foto por Maegan Martin no Unsplash
Capítulo 9 de “O Impostor que Vive em Mim”, de Brennan Manning.
A cena mais íntima dos Evangelhos acontece numa mesa de jantar, na véspera da morte de Jesus.
Reclinado ao lado de Jesus estava um dos seus discípulos, aquele a quem Jesus amava. Simão Pedro lhe fez sinal para que perguntasse a Jesus sobre quem ele estava falando. Então aquele discípulo se inclinou para Jesus e perguntou: “Senhor, quem é?”
João não está apenas próximo. Está reclinado sobre o peito de Jesus — ouvindo o coração bater. Manning encerra O Impostor que Vive em Mim com essa cena porque ela é a imagem mais precisa do que todo o livro tenta descrever.1
O que significa pertencer
Ao longo dos nove capítulos, Manning conduziu o leitor por um diagnóstico: o impostor existe porque não acreditamos, de verdade e sem reservas, que somos amados. Cada máscara é uma defesa contra a possibilidade de que, se fôssemos vistos, seríamos rejeitados.
João não tem essa defesa na última ceia. Ele está no lugar mais exposto — encostado no ombro de quem vai morrer na manhã seguinte — e não está gerenciando imagem. Está presente.
Manning chama isso de “pertencimento íntimo”: não a relação distante e formal com um Deus que avalia, mas o contato direto com um Mestre que ama. O fecho do livro não é uma técnica espiritual. É um convite a uma postura.
A confissão como ato de confiança
Manning faz no último capítulo uma inversão que surpreende: ele descreve a confissão do pecado não como o ato mais humilhante da vida espiritual, mas como o mais confiante.
Confessar é dizer: sei que posso ser visto, e acredito que o que você vê não vai me destruir.
Paulo articula a base teológica dessa confiança:
que em Cristo Deus estava reconciliando consigo mesmo o mundo, não levando em conta os seus pecados; e nos confiou o ministério da reconciliação.
“Não levando em conta os seus pecados” não é descuido divino. É a declaração de que o coração pulsante do Mestre — que João ouvia naquela noite — não para de bater por causa do que somos capazes de fazer. A reconciliação já aconteceu em Cristo. A confissão é apenas o ato de receber o que já foi dado.
O destino da jornada
Manning termina o livro onde o começa: não com uma resolução do problema do impostor, mas com um convite a um relacionamento que torna o impostor desnecessário.
O impostor existe porque pensamos que precisamos dele. Ele protege, ele administra, ele garante que não seremos pegos desprevenidos. Mas na presença de alguém cujo amor é incondicional — cujo coração bate por nós independente do que fazemos —, o impostor perde a razão de existir.
Não de uma vez. Não sem recaídas. A jornada que Manning descreve dura a vida inteira.
Mas começa com uma escolha simples: sair da gestão da imagem e inclinar-se, como João, sobre o peito de quem já nos ama.
Referências
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Manning, B. O Impostor que Vive em Mim. Tradução de Marson Guedes. São Paulo: Mundo Cristão, 2006. ↩
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