O Verbo Era Deus: o Que Diz João 1.1

João 1.1 chama Jesus de Deus na gramática grega original. Entenda a regra de Colwell e por que a tradução 'um deus' das Testemunhas de Jeová não se sustenta.
O Verbo Era Deus: o Que Diz João 1.1

Foto por Nick Fewings no Unsplash

No post anterior, 1 Coríntios 8.6 mostrou Paulo inserindo Jesus dentro da identidade única do Deus de Israel, sem quebrar o Shemá. Mas Paulo escreve por inferência teológica — reorganiza uma confissão existente. João faz algo mais direto: abre seu evangelho chamando Jesus de Deus, sem rodeios, na primeira frase.

A frase mais debatida do Novo Testamento

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

Três afirmações numa frase só: o Verbo (Jesus, como o texto deixa claro alguns versículos depois) existia desde o princípio; o Verbo estava com Deus, ou seja, era distinto do Pai; e o Verbo era Deus. As três juntas são a semente de tudo o que a Trindade vai formalizar séculos depois: distinção de pessoa, unidade de essência.

A terceira afirmação é a mais contestada. No grego original, a frase é kai theos ēn ho logos — literalmente “e deus era o Verbo”. A ordem das palavras chama atenção: “deus” (theos) vem sem o artigo definido grego (que apareceria como ho theos, “o Deus”), enquanto duas palavras antes, na mesma frase, “Deus” aparece com o artigo, referindo-se ao Pai. É essa ausência de artigo que a Tradução do Novo Mundo, publicada pelas Testemunhas de Jeová, usa para traduzir a frase como “o Verbo era um deus” — implicando uma divindade de segunda categoria, distinta da divindade plena do Pai.

Por que a ausência do artigo não significa “um deus”

O grego koiné tinha uma razão gramatical comum para omitir o artigo nesse tipo de construção, e ela não tem relação com o grau de divindade sendo descrito. Em 1933, o biblista americano E. C. Colwell publicou um estudo influente na Journal of Biblical Literature mostrando que um substantivo predicativo definido, quando vem antes do verbo (como “deus” vem antes de “era” em grego, embora depois em português), costuma perder o artigo mesmo sendo definido — é uma regra de posição na frase, não de significado.1 Colwell examinou construções desse tipo no Novo Testamento e encontrou o artigo ausente na grande maioria dos casos em que o substantivo era claramente definido pelo contexto.

Isso não decide sozinho que “Deus”, em João 1.1c, é definido — depende do contexto, como o próprio Colwell reconheceu. Mas decide contra a leitura oposta: a ausência do artigo, por si só, não é evidência de que o texto quer dizer “um deus” entre outros. Se fosse, a mesma lógica gramatical aplicada de forma consistente exigiria traduzir dezenas de outras frases do Novo Testamento — onde a mesma construção aparece com sujeitos inequivocamente definidos — como “um” impessoal também, o que nenhuma tradução, nem a Novo Mundo, faz.2 A tradução “um deus” aplica a regra só neste versículo específico, não como princípio gramatical geral — e é exatamente essa inconsistência que torna a escolha teologicamente motivada, não gramaticalmente exigida.

Tomé não teve dúvida

Se a gramática de João 1.1 permite alguma discussão técnica, o restante do mesmo evangelho não deixa margem. Depois da ressurreição, diante das marcas dos cravos, um dos discípulos mais céticos do grupo se ajoelha diante de Jesus e diz:

Senhor meu, e Deus meu!

Tomé não estava fazendo uma exclamação de surpresa dirigida ao ar, como quem hoje diria “meu Deus!” sem se referir a ninguém em particular. O texto grego é inequívoco: ele fala dirigindo-se a Jesus (a construção original registra a fala “a ele”). E Jesus, no versículo seguinte, não corrige a afirmação nem a suaviza — a aceita. Se houvesse um momento no evangelho para Jesus dizer “não sou Deus, só um representante dele”, seria este. Ele não diz.

Entre a gramática técnica de João 1.1 e a confissão direta de João 20.28, o quarto evangelho fecha os dois extremos do argumento: no início do livro, uma afirmação que exige análise linguística cuidadosa para ser mal-entendida; no fim, uma afirmação que nenhuma análise consegue reinterpretar. O próximo post desta série muda de sujeito — do Filho para o Espírito — e mostra que a mesma lógica, a mesma recusa em tratar a terceira Pessoa como força impessoal, aparece de forma ainda mais direta em um episódio no livro de Atos.


Referências

  1. Colwell, E.C. “A Definite Rule for the Use of the Article in the Greek New Testament.” Journal of Biblical Literature, 52(1) (1933) 

  2. Journal of Theology. “Colwell’s Rule and John 1:1.” 

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