Foto por Tasha Kostyuk no Unsplash
Toda pessoa que já discutiu fé com um cético ouviu a mesma objeção: “como pode um ser um e três ao mesmo tempo? Isso é contradição, não mistério.” A pergunta parece definitiva. E seria, se a Trindade afirmasse o que a objeção supõe que ela afirma.
Ela não afirma. A doutrina cristã nunca disse que Deus é um Ser e três Seres. Diz que Deus é um Ser em três Pessoas — Pai, Filho e Espírito Santo, cada um plenamente Deus, e ainda assim um só Deus, não três. A contradição apontada pela objeção (“1 = 3”) simplesmente não é o que está sendo proposto. O que está sendo proposto é mais estranho que isso, e também mais preciso: um único “o quê” (a essência divina) subsistindo em três “quens” distintos (as três Pessoas). Aritmética não tem categoria para essa distinção — e é aí que a maioria das objeções populares tropeça.
Este é o primeiro post de uma série sobre a Trindade. Ao longo dela, vamos abrir a base bíblica, a formação histórica do vocabulário técnico e as analogias que ajudam — e as que atrapalham. Antes de qualquer coisa, porém, vale esclarecer o que a palavra “Trindade” é e o que ela não é.
Uma palavra que a Bíblia não usa
Aqui está um dado que costuma surpreender: a palavra “Trindade” não aparece em nenhum lugar da Bíblia. Nem em português, nem no grego original do Novo Testamento, nem no hebraico do Antigo. O termo é uma invenção posterior — cunhado, ao que tudo indica, pelo teólogo cristão do norte da África Tertuliano, por volta do ano 200 d.C., que usou a palavra latina trinitas em pelo menos duas obras (Contra Práxeas e Sobre a Modéstia) para nomear tecnicamente algo que os primeiros cristãos já criam, mas ainda não tinham uma palavra específica para descrever.1
Isso não enfraquece a doutrina — descreve como doutrina normalmente funciona. “Trindade” está para o texto bíblico assim como “onipresença” e “onisciência” estão: nenhum desses três termos aparece literalmente nas Escrituras, mas os três resumem, num vocabulário técnico posterior, um conjunto de afirmações que o texto faz repetidamente. A Bíblia não usa a palavra “onisciência”, mas afirma, em dezenas de passagens diferentes, que Deus conhece todas as coisas. Da mesma forma, a Bíblia não usa a palavra “Trindade”, mas afirma, também em dezenas de passagens diferentes — que vamos percorrer nos próximos posts desta série —, que existe um só Deus, que o Pai é chamado Deus, que o Filho é chamado Deus, que o Espírito é chamado Deus, e que os três aparecem juntos, distintos entre si, na mesma cena.
Um mistério aceito em outros lugares
Ninguém exige que a onisciência de Deus seja explicada mecanicamente antes de ser aceita — como, exatamente, uma mente conhece cada pensamento de cada pessoa viva, simultaneamente, sem esforço e sem erro? Não sabemos. Aceitamos porque a Bíblia afirma repetidamente e porque a alternativa (um Deus com conhecimento limitado) é incompatível com o restante do que ela ensina sobre quem Ele é.
A Trindade pede o mesmo tipo de aceitação, pela mesma razão: não porque a lógica seja abandonada, mas porque o objeto em questão — o próprio ser de Deus — não é o tipo de coisa que se espera conseguir visualizar por completo com categorias emprestadas da experiência humana comum. Isso não é usado aqui como desculpa para evitar perguntas difíceis. É o contrário: é exatamente por isso que esta série vai gastar tempo mostrando, texto por texto, por que a igreja chegou a essa conclusão específica — e não a qualquer outra formulação mais simples que teria sido mais fácil de aceitar.
Porque houve alternativas mais simples. A história registra pelo menos três delas, e cada uma foi rejeitada — não por comitê, mas por não conseguir explicar tudo o que a Bíblia diz sobre Deus, o Filho e o Espírito ao mesmo tempo. Antes de chegar a elas, porém, o próximo post começa onde qualquer discussão sobre a Trindade deveria começar: no monoteísmo mais rígido do mundo antigo, o Shemá de Israel — e por que a Trindade nunca teve intenção de rompê-lo.
Referências
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Tertullian.org. “Theology.” Ver também: Trinities.org. “‘trinitas’ in Tertullian’s On Modesty.” ↩
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