A Presença do Ressuscitado

A ressurreição não é só um evento no passado. Manning argumenta que Cristo presente, não Cristo lembrado, é o que transforma o cotidiano.
A Presença do Ressuscitado

Foto por Cemrecan Yurtman no Unsplash

Capítulo 6 de “O Impostor que Vive em Mim”, de Brennan Manning.

Na noite de Páscoa, os discípulos estão trancados. João registra o detalhe com uma economia de palavras que diz mais do que parece: as portas estão fechadas por medo. Eles viram o que aconteceu com Jesus. Sabem o que pode acontecer com eles.

Na tarde daquele primeiro dia da semana, estando os discípulos reunidos com medo dos judeus e com as portas trancadas, Jesus entrou e, ficando no meio deles, disse: “Paz com vocês!” Depois disso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram alegres ao ver o Senhor. Então Jesus disse novamente: “Paz com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu também os envio.”

Portas trancadas não são obstáculo para o Ressuscitado. Esse é o ponto com o qual Manning abre o sexto capítulo de O Impostor que Vive em Mim.1

Uma ressurreição presente, não apenas passada

A fé cristã celebra a ressurreição como evento histórico. Manning não questiona isso — mas insiste numa distinção que ele considera fundamental: a maioria dos cristãos acredita na ressurreição de Jesus como fato do passado; poucos vivem conscientes da presença atual do Ressuscitado.

Há uma diferença entre admirar o registro de um acontecimento e relacionar-se com quem aconteceu.

A pneumatologia — a doutrina do Espírito Santo — é a linguagem que a teologia usa para articular essa presença contínua. Paulo resume em uma frase:

Para esses Deus quis tornar conhecidas as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vocês, a esperança da glória.

“Cristo em vocês” não é uma metáfora motivacional. É a afirmação de que a presença que entrou pelos quartos trancados em Jerusalém ainda entra em quartos trancados hoje.

Como reconhecer os sinais

Manning propõe uma prática: desenvolver o que os místicos chamavam de “atenção contemplativa” — a capacidade de reconhecer a presença de Deus nos eventos comuns da vida.

Não é misticismo esotérico. É a postura de quem acredita que o Ressuscitado está ativo no mundo e que, portanto, há sinais de sua presença nos lugares onde não se espera: numa conversa que aconteceu na hora certa, numa interrupção que mudou um caminho, num encontro que parecia acidental.

O impostor atrapalha essa atenção porque ele está sempre ocupado administrando a imagem. Não sobra tempo para ver o que está acontecendo de verdade.

Medo e paz

A cena de João 20 tem uma progressão: os discípulos estão com medo. Jesus chega. A primeira palavra é “paz”. Os discípulos ficam alegres. Depois Jesus os envia.

Manning nota que Jesus não primeiro convence os discípulos de que não há motivo para temer. Ele simplesmente traz paz. A paz do Ressuscitado precede a análise das circunstâncias — não é consequência dela.

Isso importa para a vida prática: a fé que Manning descreve não é uma fé que primeiro resolve os problemas e depois descansa. É uma fé que descansa antes dos problemas serem resolvidos, porque a presença que traz paz não depende das circunstâncias externas mudarem primeiro.

O impostor, que vive de controlar resultados, não consegue habitar esse tipo de paz. Ela exige uma identidade que não oscila com os ventos.


Referências

  1. Manning, B. O Impostor que Vive em Mim. Tradução de Marson Guedes. São Paulo: Mundo Cristão, 2006. 

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