Uma Essência, Três Pessoas: Constantinopla 381

Três teólogos da Capadócia fecharam o vocabulário da Trindade: uma essência, três pessoas. Veja a fórmula, o Filioque e o cisma que ela geraria.
Uma Essência, Três Pessoas: Constantinopla 381

Foto por Dimitry B no Unsplash

Niceia, em 325, resolveu a divindade do Filho — e deixou uma lacuna. O credo daquele concílio quase não menciona o Espírito Santo, e as décadas seguintes foram dominadas por uma disputa sobre o vocabulário certo para descrever três Pessoas divinas sem cair em três deuses nem em um Deus fingindo ser três. A solução viria de três amigos de uma mesma região da atual Turquia central.

Os três da Capadócia

Basílio de Cesareia, seu irmão mais novo, Gregório de Nissa, e o amigo próximo de ambos, Gregório de Nazianzo, ficaram conhecidos como os Padres Capadócios. Nenhum deles esteve em Niceia — eram crianças ou ainda não tinham nascido em 325 —, mas foram eles que, décadas depois, deram à igreja o par de palavras que faltava.

O problema era de tradução conceitual: o grego tinha uma palavra para “essência” (ousia) e outra para “existência individual concreta” (hypostasis), mas antes dos capadócios as duas eram usadas quase como sinônimos — o que tornava impossível dizer, sem soar contraditório, que o Pai, o Filho e o Espírito são um (na essência) e três (como existências distintas). Os três capadócios fixaram a distinção: uma ousia, três hypostaseis. Uma essência, três pessoas.1 Não é um jogo de palavras — é a ferramenta técnica exata que faltava para dizer, sem contradição lógica, o que os textos bíblicos já afirmavam havia três séculos.

O Concílio de Constantinopla, em 381, ratificou essa fórmula e completou o que Niceia tinha deixado em aberto: declarou explicitamente a divindade do Espírito Santo, algo que o credo de 325 mal tocava. O Credo Niceno-Constantinopolitano, resultado desse segundo concílio, é o mesmo que igrejas ao redor do mundo ainda recitam hoje.

Uma palavra que não vem de Agostinho

É comum, ao ensinar a Trindade, citar num mesmo fôlego a analogia psicológica de Agostinho (a mente que se conhece e se ama) e a ideia de que as três Pessoas “habitam umas nas outras” em comunhão constante — a chamada perichoresis. A proximidade nas explicações sugere que as duas vêm da mesma tradição. Não vêm.

A palavra grega perichoresis — “movimento circular”, “interpenetração” — tem uma origem inteiramente oriental, distinta da tradição latina de Agostinho. O verbo relacionado, perichoreo, aparece já em Gregório de Nazianzo, no século IV, descrevendo como as naturezas divina e humana de Cristo “passam uma pela outra” sem se misturar.2 O substantivo, no sentido técnico que hoje associamos à Trindade, aparece primeiro em Máximo, o Confessor, no século VII, e ganha seu uso definitivo — aplicado às três Pessoas, não só às duas naturezas de Cristo — nos escritos de João Damasceno, no século VIII.3 Agostinho, que escreveu Sobre a Trindade no início do século V, não usa o termo nem o conceito da mesma forma; sua contribuição é outra, e o próximo post desta série mostra exatamente qual.

O racha que viria séculos depois

A mesma linha que separa perichoresis de Agostinho — Oriente de um lado, Ocidente de outro — reaparece num detalhe que pareceria pequeno e se tornaria enorme. O Credo Niceno-Constantinopolitano original afirma que o Espírito Santo “procede do Pai”. Em algum momento entre os séculos VI e VIII, igrejas de língua latina no Ocidente começaram a acrescentar uma palavra: Filioque, “e do Filho” — o Espírito passaria a proceder “do Pai e do Filho”.

A igreja oriental nunca aceitou essa adição, por dois motivos: nenhum concílio ecumênico a autorizou, e ela alterava — na visão oriental — o equilíbrio entre as Pessoas. A disputa, somada a questões de autoridade papal e diferenças litúrgicas acumuladas por séculos, chegou ao ponto de ruptura em 1054, quando representantes de Roma e de Constantinopla se excomungaram mutuamente — o Grande Cisma, que ainda hoje separa a Igreja Católica Romana da Igreja Ortodoxa.4

O vocabulário técnico está fechado: uma essência, três pessoas, em comunhão constante. Falta a pergunta filosófica que os primeiros posts desta série adiaram de propósito — as analogias que todo mundo tenta usar para explicar isso, por que quase todas falham, e a única que sobrevive ao teste.


Referências

  1. Britannica. “Homoousios.” 

  2. Torrance, A. “Perichoresis in Gregory Nazianzen and Maximus the Confessor.” 

  3. Cross, F.L. (ed.) The Oxford Dictionary of the Christian Church, verbete “Perichoresis”. Ver também: CPRC. “John of Damascus and the Perichoresis.” 

  4. Nichols, S. “The Great Schism of 1054.” Ligonier Ministries 

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