Foto por Dimitry B no Unsplash
Niceia, em 325, resolveu a divindade do Filho — e deixou uma lacuna. O credo daquele concílio quase não menciona o Espírito Santo, e as décadas seguintes foram dominadas por uma disputa sobre o vocabulário certo para descrever três Pessoas divinas sem cair em três deuses nem em um Deus fingindo ser três. A solução viria de três amigos de uma mesma região da atual Turquia central.
Os três da Capadócia
Basílio de Cesareia, seu irmão mais novo, Gregório de Nissa, e o amigo próximo de ambos, Gregório de Nazianzo, ficaram conhecidos como os Padres Capadócios. Nenhum deles esteve em Niceia — eram crianças ou ainda não tinham nascido em 325 —, mas foram eles que, décadas depois, deram à igreja o par de palavras que faltava.
O problema era de tradução conceitual: o grego tinha uma palavra para “essência” (ousia) e outra para “existência individual concreta” (hypostasis), mas antes dos capadócios as duas eram usadas quase como sinônimos — o que tornava impossível dizer, sem soar contraditório, que o Pai, o Filho e o Espírito são um (na essência) e três (como existências distintas). Os três capadócios fixaram a distinção: uma ousia, três hypostaseis. Uma essência, três pessoas.1 Não é um jogo de palavras — é a ferramenta técnica exata que faltava para dizer, sem contradição lógica, o que os textos bíblicos já afirmavam havia três séculos.
O Concílio de Constantinopla, em 381, ratificou essa fórmula e completou o que Niceia tinha deixado em aberto: declarou explicitamente a divindade do Espírito Santo, algo que o credo de 325 mal tocava. O Credo Niceno-Constantinopolitano, resultado desse segundo concílio, é o mesmo que igrejas ao redor do mundo ainda recitam hoje.
Uma palavra que não vem de Agostinho
É comum, ao ensinar a Trindade, citar num mesmo fôlego a analogia psicológica de Agostinho (a mente que se conhece e se ama) e a ideia de que as três Pessoas “habitam umas nas outras” em comunhão constante — a chamada perichoresis. A proximidade nas explicações sugere que as duas vêm da mesma tradição. Não vêm.
A palavra grega perichoresis — “movimento circular”, “interpenetração” — tem uma origem inteiramente oriental, distinta da tradição latina de Agostinho. O verbo relacionado, perichoreo, aparece já em Gregório de Nazianzo, no século IV, descrevendo como as naturezas divina e humana de Cristo “passam uma pela outra” sem se misturar.2 O substantivo, no sentido técnico que hoje associamos à Trindade, aparece primeiro em Máximo, o Confessor, no século VII, e ganha seu uso definitivo — aplicado às três Pessoas, não só às duas naturezas de Cristo — nos escritos de João Damasceno, no século VIII.3 Agostinho, que escreveu Sobre a Trindade no início do século V, não usa o termo nem o conceito da mesma forma; sua contribuição é outra, e o próximo post desta série mostra exatamente qual.
O racha que viria séculos depois
A mesma linha que separa perichoresis de Agostinho — Oriente de um lado, Ocidente de outro — reaparece num detalhe que pareceria pequeno e se tornaria enorme. O Credo Niceno-Constantinopolitano original afirma que o Espírito Santo “procede do Pai”. Em algum momento entre os séculos VI e VIII, igrejas de língua latina no Ocidente começaram a acrescentar uma palavra: Filioque, “e do Filho” — o Espírito passaria a proceder “do Pai e do Filho”.
A igreja oriental nunca aceitou essa adição, por dois motivos: nenhum concílio ecumênico a autorizou, e ela alterava — na visão oriental — o equilíbrio entre as Pessoas. A disputa, somada a questões de autoridade papal e diferenças litúrgicas acumuladas por séculos, chegou ao ponto de ruptura em 1054, quando representantes de Roma e de Constantinopla se excomungaram mutuamente — o Grande Cisma, que ainda hoje separa a Igreja Católica Romana da Igreja Ortodoxa.4
O vocabulário técnico está fechado: uma essência, três pessoas, em comunhão constante. Falta a pergunta filosófica que os primeiros posts desta série adiaram de propósito — as analogias que todo mundo tenta usar para explicar isso, por que quase todas falham, e a única que sobrevive ao teste.
Referências
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Britannica. “Homoousios.” ↩
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Torrance, A. “Perichoresis in Gregory Nazianzen and Maximus the Confessor.” ↩
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Cross, F.L. (ed.) The Oxford Dictionary of the Christian Church, verbete “Perichoresis”. Ver também: CPRC. “John of Damascus and the Perichoresis.” ↩
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Nichols, S. “The Great Schism of 1054.” Ligonier Ministries ↩
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