Uma Letra de Diferença: Niceia e o Homoousios

Em 325 d.C., um concílio decidiu se o Filho é da mesma essência do Pai ou só parecida. A diferença entre as duas palavras gregas era uma letra.
Uma Letra de Diferença: Niceia e o Homoousios

Foto por Constantinos Kollias no Unsplash

Os posts anteriores desta série mostraram o material bíblico bruto: Pai, Filho e Espírito, cada um chamado Deus, distintos e simultâneos na mesma cena. O que faltava era um vocabulário técnico capaz de dizer isso sem ambiguidade — e foi exatamente a falta desse vocabulário que provocou a primeira grande crise doutrinária do cristianismo.

Um presbítero com uma pergunta incômoda

Por volta do ano 318, em Alexandria, um presbítero chamado Ário começou a ensinar algo que soava razoável à primeira vista: se o Filho é gerado pelo Pai, deve ter havido um momento antes do qual o Filho não existia. “Houve quando não existia”, dizia Ário — o Filho seria a primeira e mais excelente criatura de Deus, semelhante ao Pai, mas não da mesma substância eterna. Divino num sentido honorífico, não no sentido pleno que os textos do Novo Testamento pareciam exigir.

A controvérsia cresceu rápido demais para ficar contida numa cidade. O imperador Constantino, mais interessado na unidade do império do que em detalhes de doutrina, convocou bispos de todo o mundo cristão para um concílio na cidade de Niceia, no ano 325 — a primeira reunião desse tipo e escala na história da igreja.

Uma letra decide o vocabulário

O concílio precisava de uma palavra que descrevesse a relação entre o Pai e o Filho de um jeito que a Bíblia não fornecia diretamente. Duas opções gregas disputavam esse papel:

  • Homoousios — “de mesma essência” — o Filho compartilha a substância exata do Pai, sem grau nem hierarquia.
  • Homoiousios — “de essência semelhante” — o Filho é parecido com o Pai, mas não idêntico.

A diferença entre as duas palavras é a letra grega iota — um único “i”. Essa proximidade visual rendeu, séculos depois, um comentário afiado do historiador iluminista Edward Gibbon, em sua Decline and Fall of the Roman Empire: ele descreveu, com ironia deliberada, um império inteiro dividido “por um único iota”.1

A frase pegou porque é ótima — engraçada, precisa na letra, memorável. Mas vale uma ressalva histórica antes de repeti-la como se fosse um relato fiel: Gibbon escrevia no século XVIII, com pouca simpatia por debates teológicos que considerava estéreis, e a frase captura bem a intensidade do conflito, não a mecânica real dele. Por trás daquela letra estava uma pergunta que não tinha nada de superficial: se o Filho é ou não plenamente Deus, e se a salvação anunciada pelo Novo Testamento depende de um Salvador que seja, ele mesmo, totalmente divino — não uma criatura por mais exaltada que fosse. O concílio não gastou meses debatendo ortografia. Gastou meses debatendo se o cristianismo tinha, ou não, um Salvador que fosse Deus de verdade.

O que o concílio decidiu

Niceia optou por homoousios. O credo resultante — base do que hoje conhecemos como Credo Niceno — declarou o Filho “gerado, não feito, de uma só substância (homoousios) com o Pai”. Ário foi condenado e exilado; a controvérsia, porém, estava longe de ser resolvida. Bispos arianos e semiarianos continuariam disputando espaço por décadas, e levaria mais um concílio — em Constantinopla, 56 anos depois — para a igreja fechar não só a divindade do Filho, mas também a do Espírito Santo, com uma fórmula ainda mais precisa. É esse segundo concílio, e os três teólogos que o moldaram, que o próximo post desta série examina.


Referências

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