Foto por Pawel Czerwinski no Unsplash
No post anterior desta série, o Shemá de Israel — “o Senhor nosso Deus é o único Senhor” — ficou estabelecido como o chão inegociável de qualquer leitura cristã da Trindade. A promessa era mostrar que o Novo Testamento não ignora esse texto nem o contorna. Ele o reabre por dentro. E o lugar onde isso acontece de forma mais explícita é uma frase de Paulo que a maioria dos leitores passa direto sem perceber o que está ali.
Uma frase, dois nomes, um só Deus
Escrevendo aos coríntios sobre comida sacrificada a ídolos, Paulo interrompe o argumento prático para lembrar aos leitores o que já sabiam de cor:
Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e em quem estamos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele.
À primeira vista, parece uma frase de transição. Não é. Paulo está citando o Shemá de propósito — e qualquer leitor judeu do primeiro século reconheceria isso imediatamente, do mesmo jeito que um cristão brasileiro reconhece “Ouve, Israel” como o início de uma oração específica. A estrutura de Deuteronômio 6.4 (“o Senhor nosso Deus, o Senhor é um”) é reaproveitada quase palavra por palavra — só que agora dividida em duas metades, uma para “o Pai” e outra para “o Senhor Jesus Cristo”.
Isso é o que o teólogo britânico Richard Bauckham chamou de identidade divina reaberta por dentro: Paulo não está colocando Jesus ao lado do Deus único, como se fossem dois seres separados dividindo o mesmo território. Está incluindo Jesus dentro da identidade única do Deus de Israel — no mesmo movimento de fôlego em que reafirma que esse Deus é um só.1 N.T. Wright, trabalhando com o mesmo texto, descreveu o gesto de Paulo como uma divisão do próprio Shemá entre o Pai e o Filho — algo sem precedente direto na literatura judaica anterior, mas construído com o vocabulário exato dessa literatura, não contra ele.2 O nome técnico que essa leitura acadêmica ganhou é “monoteísmo cristológico”: Cristo entra dentro da identidade do único Deus, em vez de ser posicionado como um segundo deus subordinado, ao estilo dos intermediários semidivinos que o judaísmo do primeiro século conhecia e rejeitava.
O Pai, primeira Pessoa, plenamente Deus
Antes de seguir para o Filho e o Espírito nos próximos posts, vale fixar o que 1 Coríntios 8.6 já deixa claro sobre a primeira Pessoa da Trindade: o Pai é chamado, sem qualificação, “um só Deus” — a fonte (“de quem é tudo”) e o destino (“em quem estamos”) de toda a existência. Nenhuma outra passagem do Novo Testamento precisa ser convocada para provar a divindade do Pai; ela nunca foi o ponto em disputa. O ponto em disputa sempre foi o segundo nome da mesma frase — “um só Senhor, Jesus Cristo” — e é exatamente aí que a estrutura do texto se torna decisiva. Paulo não escreveu “um só Deus, o Pai, e um Senhor menor, Jesus Cristo”. Escreveu os dois títulos — Deus e Senhor — dentro da mesma confissão de unicidade que o Shemá exige.
Esse é o ponto de partida do próximo post: se o Pai é chamado Deus sem qualificação e o Filho recebe o título “Senhor” dentro da mesma estrutura do Shemá, que evidência direta o Novo Testamento oferece de que o próprio Filho é chamado Deus — não por inferência, mas de frente? A resposta começa em uma das primeiras frases do quarto evangelho.
Referências
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Bauckham, R. Jesus and the God of Israel: God Crucified and Other Studies on the New Testament’s Christology of Divine Identity. Eerdmans (2008) ↩
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Wright, N.T. The Climax of the Covenant: Christ and the Law in Pauline Theology. T&T Clark (1991) ↩
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