Foto por Pascal Bullan no Unsplash
Capítulo 8 de “O Impostor que Vive em Mim”, de Brennan Manning.
Pedro desce do barco. As ondas estão altas e o vento está forte — o texto de Mateus 14 não ameniza as condições. Pedro anda sobre as águas enquanto olha para Jesus. Quando olha para o vento, afunda.
Senhor, se é você, manda-me ir ter com você sobre as águas.” Jesus disse: “Venha.” Então Pedro desceu do barco e andou sobre as águas em direção a Jesus. Mas, quando viu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: “Senhor, salva-me!” Jesus imediatamente estendeu a mão e o segurou, e disse: “Homem de pequena fé, por que você duvidou?”
Manning não usa essa cena para repreender Pedro pela falta de fé. Ele a usa para perguntar: quem teve coragem suficiente para sair do barco?1
A pobreza da singularidade
O oitavo capítulo de O Impostor que Vive em Mim gira em torno de um conceito que Manning toma emprestado do teólogo Johannes Metz: a “pobreza de espírito” como disposição de viver como se é, sem máscaras, sem garantias adicionais.2
Metz não usa “pobreza” como elogio à miséria. Usa como descrição de quem não tem recursos adicionais além do que recebeu — quem não acumulou proteções extras contra a vulnerabilidade. Manning chama isso de “pobreza da singularidade”: a coragem de ser apenas o que se é, sem a armadura que o impostor fornece.
Essa pobreza custa. O impostor existe exatamente para que esse custo não seja pago.
A fantasia que evita o custo
Manning define “fantasia” de forma precisa: não é imaginação ou criatividade, mas a negação ativa da realidade. A fantasia mais universal que os seres humanos constroem é a da imortalidade — a sensação de que a morte é algo que acontece com os outros, não comigo, não agora.
A fé cristã não elimina a morte. Ela muda a relação com ela. Paulo escreve de dentro de uma prisão, com probabilidade real de execução:
Pois para mim, viver é Cristo e morrer é lucro.
Manning analisa essa frase como a declaração de alguém que deixou a fantasia de lado. Paulo não deseja morrer — o contexto mostra que preferiria ficar para continuar o trabalho. Mas a morte não tem poder de ameaça sobre quem não construiu a identidade sobre a própria continuidade.
Coragem como ato espiritual
Manning argumenta que a coragem mais difícil não é a de Pedro descendo do barco. É a coragem de continuar sendo quem se é quando o vento levanta — quando as circunstâncias conspiraram para que o impostor assuma o controle porque assim parece mais seguro.
A fé de Pedro não falhou quando ele saiu do barco. Falhou quando o vento virou o centro da atenção. O foco define a estabilidade.
Manning escreve com particular honestidade sobre si mesmo neste capítulo: descreve suas recaídas no alcoolismo como momentos em que o vento — o medo de não ser suficiente, o peso do próprio passado — tomou o lugar de Jesus no centro do olhar. Não para se autoflagelar, mas para mostrar que o caminho de volta é sempre o mesmo: o grito de Pedro.
Senhor, salva-me.
Não é discurso elaborado. É o suficiente.
Referências
-
Manning, B. O Impostor que Vive em Mim. Tradução de Marson Guedes. São Paulo: Mundo Cristão, 2006. ↩
-
Metz, J. B. Poverty of Spirit. Nova York: Paulist Press, 1968. ↩
Tem algo a dizer sobre este texto? Manda uma mensagem — responderei em breve.