Foto por Brooke Balentine no Unsplash
Capítulo 7 de “O Impostor que Vive em Mim”, de Brennan Manning.
O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. Quando um homem o encontrou, tornou a escondê-lo; e, em sua alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo.
A parábola mais curta de Mateus 13 tem uma palavra que não aparece nas versões mais devocionais de sua interpretação: alegria. O homem não vende tudo por dever. Não por culpa. Não por medo de perder algo ainda maior. Ele vende com alegria porque encontrou algo que faz o resto perder a conta.
Manning usa essa parábola como ponto de partida para o sétimo capítulo de O Impostor que Vive em Mim e faz uma pergunta incômoda: quando foi a última vez que a sua fé pareceu com isso?1
A apatia espiritual e suas causas
A maioria dos cristãos praticantes consegue listar os benefícios do Evangelho. Sabe onde o tesouro está enterrado. Mas vender tudo — não no sentido literal, mas no sentido de reorganizar as prioridades do coração em torno desse tesouro — parece um passo para o qual nunca há o momento certo.
Manning identifica o problema: o impostor não permite esse tipo de entrega porque entrega plena exige abrir mão do controle. E o impostor, construído sobre o controle de imagem e resultado, prefere uma fé administrável — uma fé que cabe nos domingos, que não complica a carreira, que não embaraça nas conversas com quem não crê.
Essa fé administrável é compatível com o impostor. A alegria que o homem do campo tinha não é.
O discípulo que Jesus amava
Manning conecta a parábola do tesouro a uma cena no Evangelho de João que aparece repetidamente no livro:
Reclinado ao lado de Jesus estava um dos seus discípulos, aquele a quem Jesus amava.
João não se apresenta pelo nome. Apresenta-se pela relação: o discípulo que Jesus amava. Manning argumenta que essa autocompreensão é o oposto do impostor — não é humildade falsa, nem afirmação arrogante de favoritismo. É a identidade mais simples e mais radical que um ser humano pode ter: ser amado por Jesus.
Quando essa identidade está firme, a alegria do homem do campo se torna possível. Porque você não está trocando uma coisa valiosa por outra — está trocando o que tem pela única coisa que já o tinha antes de ele saber disso.
O resgate que Manning propõe
O título do capítulo fala em “resgate da paixão” porque a proposta de Manning não é fabricar entusiasmo espiritual. Entusiasmo fabricado é mais produto do impostor. A paixão que ele descreve é consequência: quando a presença do Ressuscitado se torna real, quando a identidade como filho amado deixa de ser doutrina e vira experiência, a alegria do homem do campo aparece naturalmente.
O caminho não é tentar sentir mais. É remover o que impede de sentir o que já está lá.
Referências
-
Manning, B. O Impostor que Vive em Mim. Tradução de Marson Guedes. São Paulo: Mundo Cristão, 2006. ↩
Tem algo a dizer sobre este texto? Manda uma mensagem — responderei em breve.