Foto por Mike Labrum no Unsplash
Capítulo 3 de “O Impostor que Vive em Mim”, de Brennan Manning.
John Eagan era professor jesuíta, nunca publicou um livro importante e passou a maior parte da vida em salas de aula de colégio. Manning o apresenta no terceiro capítulo de O Impostor que Vive em Mim como o cristão mais completo que conheceu.1
Não porque Eagan era extraordinário. Porque era ordinário com uma diferença: ele sabia que era amado.
A pergunta que organiza tudo
Manning inicia o capítulo com o que chama de a pergunta mais importante da vida espiritual: Quem sou eu? Não no sentido filosófico abstrato, mas no sentido prático — o que dita minhas decisões quando ninguém está olhando, o que acontece dentro de mim quando recebo crítica, o que busco quando me sinto vazio.
A resposta que o mundo oferece é sempre condicional: você vale o que produz, o que aparenta, o que os outros acham de você. A resposta que o Evangelho oferece é anterior a qualquer condição:
Não tema, pois eu o remi; eu o chamei pelo nome, você é meu.
O nome que Deus usa não é “servo eficiente” ou “fiel cumpridor de deveres”. É o nome próprio. Chamar alguém pelo nome é reconhecer uma identidade que existe antes de qualquer função.
A pedra branca
Manning passa pelo texto de Apocalipse 2 com lentidão incomum para um versículo que a maioria lê depressa:
Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao vencedor darei maná escondido e uma pedrinha branca, na qual está escrito um nome novo que só o beneficiário conhece.
Na cultura greco-romana, uma pedra branca era usada como bilhete de entrada para um banquete ou como voto de absolvição num julgamento. O nome novo gravado nela é o nome que Deus usa para o seu amado — não o nome público, o nome íntimo, o que só existe entre os dois.
Manning sugere que toda vida espiritual autêntica é uma tentativa de descobrir esse nome. E que o impostor é o que atrapalha essa descoberta: ele nos convence de que o único nome que importa é o que o mundo grava em nós.
O silêncio como lugar de identidade
O caminho que Manning propõe para ouvir esse nome é o silêncio e a solidão. Não como práticas ascéticas de autodisciplina, mas como o único lugar onde as vozes competidoras param de falar.
John Eagan praticava longos períodos de oração contemplativa. Manning não o apresenta como modelo a ser imitado, mas como prova de que é possível viver ancorado numa identidade que não oscila com o humor dos outros, com os resultados do trabalho, com a saúde do corpo.
A segurança que Isaías 54 descreve é exatamente essa:
“Ainda que os montes se afastem e os outeiros sejam removidos, o meu amor leal não se afastará de você nem o meu pacto de paz será removido”, diz o SENHOR, que tem compaixão de você.
O amor de Deus não oscila. A questão é se internalizamos isso o suficiente para viver com base nisso — ou se continuamos buscando no desempenho uma estabilidade que só o amor incondicional pode dar.
Referências
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Manning, B. O Impostor que Vive em Mim. Tradução de Marson Guedes. São Paulo: Mundo Cristão, 2006. ↩
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