Foto por Fer Troulik no Unsplash
Capítulo 2 de “O Impostor que Vive em Mim”, de Brennan Manning.
Woody Allen dirigiu em 1983 um filme sobre um homem que literalmente se transforma para se encaixar em qualquer ambiente. Leonard Zelig vira médico perto de médicos, gordo perto de gordos, intelectual perto de intelectuais. Ele não faz isso conscientemente — é um mecanismo de sobrevivência. A identidade é o que for necessário para não ser rejeitado.
Manning usa Zelig para abrir o segundo capítulo de O Impostor que Vive em Mim.1 O paralelo é desconfortável porque todos reconhecemos o padrão. Não na forma extrema do personagem, mas nos pequenos ajustes diários: o tom de voz que muda dependendo de com quem se fala, as opiniões que se dobram na presença de certas pessoas, a versão de si mesmo que só aparece quando parece segura.
Esse mecanismo tem um nome no livro: o impostor.
A anatomia do falso eu
O impostor não é vilão de filme. Não acorda cedo para planejar sua destruição. Ele é uma estrutura de proteção erguida ao longo de anos, tijolos por tijolo, para sobreviver a ambientes que pareciam exigir perfeição.
Manning identifica as matérias-primas do falso eu:
- Aprovação dos outros como medida de valor. O impostor precisa de audiência.
- Desempenho como prova de identidade. Valho o que produzo.
- Controle como segurança. Se eu dominar as variáveis, não serei pego de surpresa.
- Imagem como substituto de caráter. O que pareço importa mais do que quem sou.
John Bradshaw, psicólogo americano cujo trabalho Manning cita extensamente, descreve esse processo como “codependência espiritual”: viver em função do olhar alheio ao ponto de perder contato com o próprio eu.2
O eu escondido com Cristo
A alternativa que Manning propõe não é autoestima ao estilo de autoajuda — aprender a se amar mais. É teologia: a identidade verdadeira não é construída, é recebida.
pois vocês morreram, e a vida de vocês está escondida com Cristo em Deus.
A palavra “escondida” aqui não é de fuga — é de proteção. O eu verdadeiro, o eu que Deus conhece e ama, não está à mercê da aprovação ou da rejeição humana. Ele está guardado num lugar onde o impostor não chega.
Mas há uma condição implícita: para encontrar esse eu escondido, é preciso parar de construir o outro.
A honestidade que desafia
Manning cita Thomas Merton ao definir o pecado não como um ato isolado, mas como uma “opção fundamental” — uma orientação básica da vida em direção a si mesmo, em vez de em direção a Deus.3 O impostor é essa opção tornado hábito, vestido de religiosidade.
O capítulo encerra com uma pergunta que não tem resposta fácil:
Se afirmarmos que não temos pecado, estamos nos enganando, e a verdade não está em nós.
A honestidade que João pede não é autocondenação. É a abertura que permite que a graça entre. Enquanto o impostor fingir que está tudo bem, não há espaço para o que de fato cura.
Referências
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Manning, B. O Impostor que Vive em Mim. Tradução de Marson Guedes. São Paulo: Mundo Cristão, 2006. ↩
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Bradshaw, J. Healing the Shame that Binds You. Deerfield Beach: Health Communications, 1988. ↩
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Merton, T. New Seeds of Contemplation. Nova York: New Directions, 1961. ↩
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