Saia do Esconderijo

Desde o jardim do Éden, a resposta humana ao pecado é se esconder. Manning chama isso de a maior armadilha da vida espiritual.
Saia do Esconderijo

Foto por Ebru Doğan no Unsplash

Capítulo 1 de “O Impostor que Vive em Mim”, de Brennan Manning.

A cena mais honesta da Bíblia não é uma batalha ou um milagre. É um homem e uma mulher se enfiando entre as árvores.

Então o homem e sua mulher ouviram o SENHOR Deus andando no jardim com a brisa da tarde, e se esconderam do SENHOR Deus entre as árvores do jardim. Mas o SENHOR Deus chamou o homem: “Onde você está?” Ele respondeu: “Ouvi você no jardim, e fiquei com medo, pois estava nu; por isso me escondi.”

O que Adão faz depois de pecar não é pedir perdão. É sumir. E esse padrão atravessa milênios: quando nos sentimos expostos — quando erramos, quando nos descobrimos insuficientes —, a primeira reação não é correr para Deus, mas fugir dele.

Manning chama isso de “esconderijo emocional” e lhe dedica o primeiro capítulo de O Impostor que Vive em Mim.1

O que sustenta o esconderijo

O esconderijo não é construído de madeira e folhas. É construído de personas, realizações e comportamentos aprovados. Trabalhamos mais do que precisamos para parecer indispensáveis. Enchemos a agenda para não ter tempo de ouvir o que incomoda. Usamos vocabulário religioso correto para soar espirituais antes de sermos honestos.

Manning usa um conto de Flannery O’Connor para descrever o mecanismo: o personagem projeta em Deus a imagem que tem de si mesmo. Se me vejo como insuficiente, imagino um Deus exigente. Se me vejo como fracassado, imagino um Deus decepcionado. A imagem que construímos de Deus revela mais sobre nossa autopercepção do que sobre quem ele é de fato.

O problema é que adoramos essa imagem projetada — e nos escondemos do Deus real.

A maior armadilha

Henri Nouwen, que foi amigo de Manning e influenciou profundamente sua teologia, escreveu que a auto-rejeição é a maior armadilha da vida espiritual.2 Mais do que o orgulho ou a arrogância. Quando não me aceito como amado, o esconderijo se torna o único lugar seguro.

A auto-rejeição tem muitas máscaras: o perfeccionismo que nunca permite descanso, o humor autodepreciativo que antecipa a crítica alheia, a hiperatividade religiosa que substitui a intimidade com Deus por atividades para Deus. Todas são formas de dizer: “Sei que, se você me ver de verdade, vai me rejeitar.”

A pergunta que desfaz o esconderijo

Quando Deus pergunta “onde você está?”, não é porque não sabe. É porque quer que Adão nomeie o que está acontecendo. A pergunta não é de localização — é de convite.

É a mesma pergunta que atravessa toda a Bíblia e que Manning diz ser o fio condutor do livro:

Não tema, pois eu o remi; eu o chamei pelo nome, você é meu.

Sair do esconderijo não é um ato de coragem moral. É um ato de confiança: acreditar que quem chama pelo nome não vai usar o que vê para destruir.

uma vez que você é precioso aos meus olhos, e honrado, e eu o amo, darei povos em troca de você e nações em troca da sua vida.

O primeiro passo não é mudar o comportamento. É parar de correr.


Referências

  1. Manning, B. O Impostor que Vive em Mim. Tradução de Marson Guedes. São Paulo: Mundo Cristão, 2006. 

  2. Nouwen, H. Life of the Beloved: Spiritual Living in a Secular World. Nova York: Crossroad, 1992. 

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