A Vida Incorruptível: o espírito do crente não pode morrer

O Novo Nascimento gera uma vida imperecível. A semente do crente é incorruptível — e o espírito recriado não pode morrer.
A Vida Incorruptível: o espírito do crente não pode morrer

Foto por Hannes Knutsson no Unsplash

C.S. Lewis descreveu os perigos da letargia — “o caminho mais seguro para o Inferno é o gradual”.1 G.K. Chesterton traçou o retrato do cristão que perde a capacidade de se maravilhar e cai num coma de tédio.2 Os dois descreveram algo real na batalha espiritual. Mas quando a linguagem chega à sua definição estrita, uma distinção se impõe: morte é morte — e o espírito de um filho de Deus não pode morrer.

A semente que não apodrece

Há uma diferença essencial entre a poesia da experiência humana e a ontologia da salvação. O Novo Nascimento não descreve um remendo. Descreve uma recriação absoluta. Pedro é direto:

sendo regenerados, não de semente corruptível, mas incorruptível, pela palavra de Deus, que vive e permanece para sempre.

Se a semente que nos gerou é incorruptível, o espírito recriado participa dessa mesma imortalidade. A natureza da semente determina a natureza do fruto. Uma semente que não apodrece não pode gerar uma vida que morre.

A impossibilidade da separação

Sou filho de Deus e o Espírito Santo habita em mim. Para que meu espírito morresse, a própria vida de Deus teria que falhar. Jesus prometeu que o Consolador estaria conosco para sempre (Jo 14.16). Paulo é mais explícito ainda: quem se une ao Senhor é um só espírito com ele (1 Co 6.17). A separação entre o meu espírito e o Espírito de Cristo exigiria que o próprio Cristo fosse desfeito.

Espírito, alma e carne: três planos distintos

A confusão que assola muitos cristãos surge quando não distinguimos o espírito da alma — e da carne. Paulo trabalha com três planos precisos. Nosso espírito foi vivificado e está assentado nas regiões celestiais (Ef 2.6). Nossa mente está sendo transformada (Rm 12.2). E a carne — a velha natureza — ainda luta, ainda grita (Rm 7.24).

Quando Lewis falava da rotina que embota a sensibilidade cristã, descrevia a batalha da alma — a mente, as emoções, a vontade.1 Quando Chesterton falava de almas que precisam ressuscitar do cinismo, apontava para a experiência consciente da psique, não para o estado ontológico do pneuma.3 Quando um crente peca, o que acontece não é morte espiritual: é a alma experimentando aridez, o Espírito Santo sendo entristecido (Ef 4.30), e a comunhão diária ficando comprometida. A frieza na superfície não anula a filiação estabelecida no fundo.

A promessa que não comporta exceção

Jesus é inequívoco:

E todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá. Crês tu isto?

O advérbio nunca não comporta exceção. O crente não caminha com o medo de que seu espírito possa desfalecer a qualquer momento. Caminha com a certeza de que a vida dentro de si — a própria Zoe de Deus4 — é definitiva, irrevogável, eterna. A comunhão pode precisar de restauração diária. A vida do espírito é obra consumada.


Referências

  1. Lewis, C.S. Cartas de um Diabo a seu Aprendiz (1942). A carta XII descreve como a letargia e a rotina são mais eficazes do que os grandes pecados para afastar o crente de Deus.  2

  2. Chesterton, G.K. Ortodoxia (1908). A recuperação do assombro como antídoto ao niilismo moderno e ao tédio espiritual perpassa toda a obra. 

  3. Chesterton, G.K. O Homem Eterno (1925). Na conclusão, Chesterton observa que o Cristianismo “morreu muitas vezes e ressuscitou; pois tinha um Deus que sabia o caminho para fora do túmulo.” 

  4. Lewis, C.S. Puro Cristianismo (1952). No livro 4, capítulo 1, Lewis distingue Bios (a vida biológica natural) de Zoe (a vida do próprio Deus injetada no homem pelo Novo Nascimento). 

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