Luz, som e cor no hebraico bíblico: o teste mais exigente

Shore testa luz, som e silêncio em duas retas com r>0,99 — e tenta encaixar quatro cores da Bíblia na ordem de suas frequências.
Luz, som e cor no hebraico bíblico: o teste mais exigente

Imagem por Lookang via Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Cinco palavras hebraicas, duas retas de regressão e uma simulação de dez mil trios aleatórios. É o segundo exemplo mais forte do livro de Shore, atrás apenas dos nove planetas — e o único que ele reforça com uma simulação computacional própria, não só com o cálculo de significância da reta. Ao lado dele, um terceiro exemplo, sobre cores, que esta série já citou de passagem, sem nunca abrir os números. Hora de abrir os dois.

Duas retas, uma palavra emprestada

Or, luz, soma 207. Kol, som, soma 136. Dmamah, quietude, soma 89. Shore converte cada palavra numa velocidade física real — a da luz,1 a do som no ar2, e uma velocidade de referência para a quietude, sem deslocamento, cujo logaritmo natural é exatamente zero — e pluga as três num gráfico de VNV (o valor numérico da palavra) contra o logaritmo natural dessa velocidade. A reta que sai daí é:

ln(velocidade) = -15,68 + 0,16762 × VNV, com r = 0,99385.

Até aqui, três pontos — a mesma fragilidade estatística que já marcamos no post sobre tempo e no post sobre calor específico da água. Mas Shore repete o exercício com um segundo trio, trocando luz e som por dois fenômenos relacionados: Keshet, arco-íris (luz refratada, mesma velocidade da luz), e Raam, trovão (som da descarga elétrica, mesma velocidade do som). Keshet soma 800; Raam, 310. A dmamah reaparece como terceiro ponto, compartilhado entre os dois trios. A segunda reta:

ln(velocidade) = -2,550 + 0,02753 × VNV, com r = 0,99992.

Gráfico de log natural da velocidade contra o valor numérico de cinco palavras hebraicas, formando duas retas que compartilham o ponto de dmamah

Gráfico: elaborado pelo autor, com dados de Haim Shore (2011).

A segunda reta, com cinco pontos somente compartilhando um, ainda é mais ajustada que a primeira — r = 0,99992 é praticamente um ajuste exato. E há um detalhe que o gráfico não mostra, mas que vale registrar: as duas palavras que ancoram a primeira reta, kol e dmamah, aparecem juntas num único versículo, na teofania do Monte Horebe: 1 Reis 19.12. A expressão “voz mansa e delicada” traduz o hebraico qol demamah daqqah — literalmente, “som de quietude fina”: um paradoxo verbal, voz dentro do silêncio, que o texto bíblico usa para descrever a presença de Deus depois do vento, do terremoto e do fogo. Não é coincidência que Shore tenha escolhido justamente essa palavra para ancorar as duas retas — demamah praticamente só ocorre nesse tipo de contexto no Antigo Testamento.

As outras três palavras também têm contexto bíblico concreto. Or aparece já no primeiro ato da criação, em Gênesis 1.3. Keshet é o arco que Deus põe nas nuvens como sinal da aliança com Noé, em Gênesis 9.13. Raam — trovão — aparece na praga de saraiva do Egito, em Êxodo 9.23.

A simulação dos dez mil trios

Os exemplos de três pontos desta série sempre vêm com o mesmo aviso: com tão poucos pontos, é relativamente fácil uma reta parecer boa por acaso. Para este exemplo específico, Shore foi além do cálculo padrão de significância — rodou uma simulação computacional dedicada. Gerou dez mil trios de palavras hebraicas aleatórias, respeitando a frequência real de cada letra no texto bíblico3, e calculou, para cada trio simulado, uma estatística-resumo que ele chama de SR — um número que cresce, em valor absoluto, quanto mais “alinhado” é o trio. Os dois trios reais, luz-som-quietude e arco-íris-trovão-quietude, produzem SR de 1,550 e 1,056, respectivamente.

Contra a distribuição dos dez mil trios aleatórios — média de -1,6725, desvio padrão de 69,16 —, a probabilidade de um trio aleatório cair na janela estreita entre 0,4 e 1,6 (cobrindo os dois valores observados) é de 0,006917 — pouco menos de 0,7%. Numa janela mais estreita ainda, entre 0,9 e 1,1, a probabilidade cai para 0,001153 — pouco mais de 0,1%. As duas estão abaixo do limiar de 1%. Shore descreve esse resultado como uma estimativa conservadora — ele próprio sinaliza que o número real de coincidências tão boas quanto essa, entre todas as palavras hebraicas possíveis, provavelmente é menor, não maior, do que a simulação sugere.

É o mesmo tipo de teste que Shore aplicou ao trio tempo (dia-mês-ano) no terceiro post desta série, só que em escala maior — dez mil simulações, não uma estimativa analítica. A objeção de “cherry picking” continua válida em principle, porque o autor escolheu quais palavras testar. Mas a simulação muda o tipo de resposta possível à objeção: não é mais “essa reta parece boa”, é “entre dez mil tentativas aleatórias, menos de setenta produziriam algo parecido”.

As quatro cores, e a quinta que falta

O segundo post desta série mencionou, de passagem, que “apenas quatro das sete cores primárias aparecem na Bíblia” e que a ordem de seus valores numéricos coincide com a ordem de suas frequências de onda, com uma chance de 1 em 120 de ocorrer ao acaso. Hora de mostrar os números por trás dessa frase — e de marcar onde ela é mais frágil do que parece.

As quatro cores, com gematria e frequência aproximada da luz visível correspondente: Adom (vermelho) soma 45, com frequência de cerca de 470 terahertz, e aparece em Gênesis 25.30. Tzahov (amarelo) soma 97, frequência de cerca de 510 terahertz, e aparece em Levítico 13.30. Yerakon soma 366, frequência de cerca de 565 terahertz.

Esse terceiro caso merece uma pausa. A fonte usada aqui para os números — o blog do rabino Daniel Lapin4 — cita Jeremias 30:8 para yerakon, traduzindo o termo por “verde”: rostos que “ficaram verdes”. Mas a ACF, a tradução usada neste blog, verte a mesma raiz hebraica por “pálidos”, não por “verde”, e o versículo correto na ACF é o 30.6, não o 30.8: Jeremias 30.6. As duas diferenças — número do versículo e palavra de tradução — vêm da mesma raiz hebraica (yerakon), que descreve uma palidez doentia, mais amarelo-esverdeada que verde puro; versões em inglês e a ACF apenas escolheram ênfases diferentes para a mesma cor. Vale registrar a correção e seguir.

A quarta cor, Techelet (azul), soma 850, frequência de cerca de 650 terahertz, e aparece entre os materiais do tabernáculo em Êxodo 25.4.

Gráfico do valor numérico de quatro cores bíblicas contra a frequência aproximada da luz correspondente, mostrando ordem crescente preservada

Gráfico: elaborado pelo autor, com dados do blog de Daniel Lapin (2013), atribuídos por ele a Haim Shore.

45, 97, 366, 850 — nessa ordem. 470, 510, 565, 650 terahertz — na mesma ordem. Para quatro pontos, a ordem se mantém perfeitamente. Mas é só ordem: ninguém aqui calculou uma reta de regressão com r e significância para esse exemplo, como se fez para luz e som. É comparação ordinal, não ajuste numérico.

E há uma conta que não fecha: 1 em 120 é exatamente 1 dividido por 5 fatorial (5! = 120) — a chance de cinco itens caírem, ao acaso, na ordem certa. Quatro cores dariam 1 em 24 (4!), não 1 em 120. O próprio artigo de Shore resolve a aparente contradição, embora sem detalhar a quinta cor: ele escreve que, “das sete cores primárias, apenas quatro são mencionadas na Bíblia, e todas foram incluídas na amostra… com uma única exceção, apenas cores primárias foram selecionadas para a amostra” — ou seja, a amostra real tem cinco cores, não quatro: as quatro do espectro (provavelmente as mesmas citadas acima) mais uma quinta, fora do espectro de cores primárias, que ele chama de “exceção”. Nenhuma fonte consultada para este post nomeia essa quinta cor.

Um palpite, marcado aqui como palpite e não como dado: a púrpura (argaman) é uma candidata plausível. Aparece com destaque na Bíblia — inclusive ao lado do próprio techelet, no mesmo versículo de Êxodo 25.4 — mas não é uma cor do espectro visível primário, o que combinaria com a descrição de Shore de uma “exceção”. É uma hipótese deste blog, não uma alegação do livro. Sem o número de gematria de argaman confirmado na fonte original, não dá para verificar se a ordem se mantém com cinco pontos — e por isso não inventamos esse número aqui.

Vale uma segunda ressalva, maior: os números das quatro cores citadas acima não vêm da tabela acadêmica de Shore, a mesma usada para luz, som e os nove planetas. Vêm de um texto de divulgação do rabino Daniel Lapin, publicado em 2013, que atribui a ideia a Shore (com o nome levemente diferente, “Chayim Shorr”) mas não reproduz a tabela original do artigo de 2011. É uma fonte secundária, e mais frágil por isso — soma-se à fragilidade de uma amostra pequena, ordinal, sem regressão calculada.

O que esse par de exemplos prova, e o que não prova

Luz, som e quietude formam o exemplo mais sólido deste post: duas retas com r acima de 0,99, mais uma simulação de dez mil trios que dá menos de 1% de chance ao resultado observado. É inferior apenas aos nove planetas em robustez, entre todos os exemplos desta série. Cores, ao lado, é o exemplo mais frágil: quatro pontos, sem regressão, fonte secundária, e uma quinta cor que nenhuma fonte disponível identifica. Os dois aparecem juntos no mesmo capítulo do livro de Shore. Cabe ao leitor pesar cada um pelo que vale — não pela proximidade um do outro no texto.

No último post desta série, paramos para perguntar o que esse conjunto inteiro de coincidências sustenta sob crítica estatística mais rigorosa — e o que, depois de sete posts, ainda não sustenta.


Referências

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