Cromossomos, sangue, ossos: o corpo no hebraico bíblico

Adam, Gamal e Choled: três palavras hebraicas cujo valor numérico quase bate com a contagem real de cromossomos de três espécies.
Cromossomos, sangue, ossos: o corpo no hebraico bíblico

Diagrama via Wikimedia Commons (National Human Genome Research Institute, domínio público)

Adam, hebraico para “ser humano”, soma 45. Não é a contagem total de cromossomos de uma pessoa — é a contagem comum a qualquer ser humano, descontada a única diferença entre os sexos. E a mesma lógica se repete, com números diferentes, em duas outras palavras hebraicas: uma para camelo, outra para rato.

Três espécies, um padrão

Cada ser humano tem 46 cromossomos: 22 pares iguais para os dois sexos1 (os autossomos) e um par que difere — XX nas mulheres, XY nos homens. Some os 44 autossomos a um único X, compartilhado pelos dois sexos, e chega-se a 45: o número comum a toda a espécie, antes da diferença sexual entrar em cena. É exatamente o valor de adam.

Shore repete o exercício para outras duas espécies. Gamal, camelo, soma 73. Camelos têm 74 cromossomos — 37 pares —, e a mesma subtração de um cromossomo sexual leva a 73.2 Choled, rato, soma 42. Ratos têm 42 cromossomos — 21 pares3 —, sem precisar de ajuste nenhum: aqui a palavra bate com a contagem bruta, sem subtrair nada.

Gráfico comparando o número real de cromossomos de ser humano, camelo e rato com o valor numérico das palavras hebraicas correspondentes

Gráfico: elaborado pelo autor, com dados de Haim Shore (2011) e fontes genéticas (ver Referências).

Três espécies, números bem distantes entre si — 42, 45, 73 —, e em nenhuma o erro passa de um cromossomo. Vale registrar uma fragilidade que o próprio gráfico não mostra: para adam, Shore aponta apenas “conhecimento comum” como fonte; para gamal e choled, aponta diretamente para Answer.com e Wikipedia, sem citar literatura revisada por pares. É uma fragilidade que se soma à fragilidade maior, descrita mais abaixo.

De volta à mão, com mais precisão

O primeiro post desta série citou yad, mão, que soma 14, e disse que esse é “o número de ossos numa mão humana”. A frase é imprecisa. Uma mão humana tem 27 ossos — 8 no carpo (pulso), 5 no metacarpo (palma) e 14 nas falanges (dedos). O número que bate com yad não é o total da mão: é especificamente a contagem de falanges, os ossos dos dedos — três em cada um dos quatro dedos, mais dois no polegar, que não tem falange intermediária.

A correção importa porque é o tipo de imprecisão que, se não for marcada, mina a credibilidade do resto da lista. Com a ressalva feita, o número de falanges está correto e a coincidência continua de pé.4

Gravidez, um palpite antigo e um verso

Heraion, gravidez, soma 271. A duração média da gestação humana, contada a partir da concepção, gira entre 266 e 270 dias, segundo registros clínicos modernos5 — 271 cai dentro dessa faixa, quase no centro. A mesma palavra aparece em Oséias 9.11.

Há também harbeh, “grandemente”, a palavra que Deus usa ao anunciar multiplicação da dor do parto em Gênesis 3.16. Harbeh soma 212. O Midrash Bereshit Rabbá 20 registra que Rabi Shmuel leu esse número como um palpite obstétrico6: um embrião que completa 212 dias de gestação provavelmente sobrevive até o parto. É uma leitura rabínica antiga, não uma estatística clínica — vale não confundir as duas coisas —, mas é notável que o mesmo capítulo do Midrash produza dois números (212 e 271) que caem dentro da faixa real de gestação humana, e não fora dela.

Vale colocar ao lado desses dois números um versículo que não trata de contagem nenhuma, só de fato teológico: Salmos 139.13, seguido de Salmos 139.14. Shore não cita esse texto — é uma ponte que este blog faz, não o livro. A diferença entre os dois movimentos é importante: um mede; o outro celebra. Nenhum prova o outro.

E o sangue, de novo

O primeiro post desta série também citou dam, sangue, que soma 44, ao lado do hematócrito — a fração celular do sangue. Vale precisar a faixa real: em adultos, o hematócrito normal varia de 41% a 50% em homens e de 36% a 44% em mulheres.7 44 cai dentro da faixa masculina e logo abaixo do limite superior da feminina — não é um “centro” exato como em heraion, mas está dentro do intervalo clinicamente normal para boa parte da população adulta.

A tabela mais frágil do livro inteiro

Todos os exemplos deste post — cromossomos, mão, gravidez, sangue — vêm da mesma tabela do artigo de Shore, a que ele chama de exemplos “com dados de contagem”. É uma categoria diferente, e mais fraca, do que os exemplos de regressão que abrimos nos dois posts anteriores: tempo (três pontos, uma reta) e calor específico da água (três pontos, outra reta). Regressão tem grau de liberdade — dá para calcular a chance de três pontos se alinharem por acaso. Um único par de números — uma palavra, uma medida — não tem grau de liberdade nenhum. É comparação direta, sem teste estatístico por trás.

O próprio Shore não escapa dessa fragilidade: ele descreve essa tabela como algo que “pode ser percebido como uma coleção de anedotas — ‘cherry picking’, em linguagem estatística” — antes de passar para os exemplos de regressão, que ocupam o resto do artigo e sustentam o argumento mais forte do livro. Vale repetir aqui o que os dois posts anteriores já disseram: a objeção é real, e o próprio autor não a esconde. O que muda, exemplo a exemplo, é o quanto cada um resiste a ela. Cromossomos com fonte em Wikipedia e Answer.com resistem menos do que uma reta de regressão com p<0,021.

Nenhum desses números, isolado, prova nada sobre a origem do hebraico bíblico. Curiosos, talvez. Prova, não.

No próximo post, voltamos à régua mais ambiciosa do livro: nove palavras, nove “planetas”, e a correlação mais forte que Shore registra em todo o artigo.


Referências

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