Coincidências na Bíblia: o método de Haim Shore

Um engenheiro israelense viu o ano hebraico (355) e a gravidez (271) baterem com seus valores reais. O que isso prova — e o que ainda não prova.
Coincidências na Bíblia: o método de Haim Shore

Foto por Bejinhan via Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Em hebraico, a palavra para “ano” — shanah — soma 355. Não é uma soma qualquer: 355 é exatamente a duração de um ano comum completo (shlemah) no calendário hebraico, antes de qualquer ajuste de ano bissexto.

A palavra para “gravidez” — heraion — soma 271. A gestação humana dura, em média, entre 266 e 280 dias. 271 cai bem no meio.

Coincidência? Provavelmente. Mas um professor de engenharia israelense passou anos catalogando casos como esse, aplicando estatística de verdade a eles, e publicou os resultados num livro de 326 páginas.1 Esta é a abertura de uma série sobre o que ele encontrou.

A pergunta que motivou um engenheiro

Haim Shore lecionou engenharia industrial na Universidade Ben-Gurion do Negev, em Israel, por 37 anos, até se aposentar como professor emérito em 2015. Ele se descreve como judeu não praticante.

O gatilho da pesquisa foi uma frase repetida há séculos em círculos de estudo judaico, registrada no Midrash: “Deus observou a Torá e criou o mundo” (Bereshit Rabbá 1).2 A ideia é que a Torá funcionou como planta de um arquiteto — Deus a consultou antes de desenhar o universo. O mesmo círculo de tradição afirma, no Talmude, que “Bezalel sabia combinar as letras com que o céu e a terra foram criados” (Berachot 55a).

Shore leu essas frases com a cabeça de quem passou a carreira fazendo análise de dados. Se a Torá precedeu e moldou o mundo físico, ele se perguntou, isso deveria deixar vestígio em algum lugar verificável. Não em sermão. Em número.

O que isso não é

Vale separar duas coisas antes de seguir, porque os nomes se confundem na cabeça de quem já leu sobre o assunto.

Isso não é a gematria clássica — aquela que liga duas palavras porque somam o mesmo valor, buscando um significado simbólico comum entre elas. Foi esse tipo de gematria que tratamos aqui, a propósito dos 153 peixes de João 21. O próprio Shore evita essa prática deliberadamente: “A gematria tenta achar um significado comum entre palavras de mesmo valor numérico. Eu não me engajei nessa prática na minha pesquisa”, disse ele ao Jerusalem Post.

Também não é a “Bíblia em código” — o método de sequências equidistantes de letras popularizado nos anos 1990, nem a numerologia de Ivan Panin sobre múltiplos de sete no texto grego do Novo Testamento. É outro campo de estudo, com metodologia própria e sua própria história de controvérsia acadêmica. Vale não confundir os dois, e vamos voltar a essa distinção no próximo post da série.

O que Shore faz é mais restrito e, por isso, mais verificável: ele reúne um conjunto de palavras hebraicas relacionadas — três, ou nove, palavras que compartilham uma propriedade física mensurável — e testa, com regressão estatística, se o valor numérico de cada palavra se correlaciona com o valor real dessa propriedade.

O método, numa metáfora

No artigo em que formaliza a abordagem, Shore conta uma parábola. Uma expedição arqueológica encontra dois papiros com listas de vinte números cada. O primeiro não tem legenda — só os números. O segundo diz: “temperaturas medidas neste local, ano 150 a.C.” Um jovem arqueólogo sugere testar se as duas listas medem a mesma coisa, só que em escalas diferentes.

Funciona. Plotados um contra o outro, os dois conjuntos formam uma linha quase perfeitamente reta. A equação que sai do gráfico é F = 32 + 1,8 × C — a fórmula de conversão entre Fahrenheit e Celsius. As duas listas mediam a mesma temperatura, só que com instrumentos diferentes.

É essa lógica que Shore aplica ao hebraico bíblico. Se o valor numérico de um conjunto de palavras relacionadas se alinha numa reta com a propriedade física real dos objetos que elas nomeiam — com significância estatística calculada, não estimada no olho —, isso sugere que as duas listas guardam a mesma informação, só que em escalas diferentes. Não prova nada sobre origem divina. Prova correlação, e deixa a pergunta sobre a causa em aberto.

Gráfico da parábola dos dois papiros: pontos de Fahrenheit contra Celsius alinhados numa reta

Gráfico: elaborado pelo autor.

Esse é o gráfico que a parábola descreve — duas escalas, um ajuste perfeito. É essa mesma lógica visual, ponto contra ponto numa reta, que reaparece nos posts seguintes desta série, agora com hebraico de um lado e medidas reais do outro.

Mais alguns números, antes da estatística pesada

Os exemplos mais simples do livro não pedem regressão — só pedem que se conheça a palavra. Yad, mão, soma 14. É o número de falanges — os ossos dos dedos — numa mão humana; o total de ossos da mão, somando pulso e palma, é 27.

Há também uma leitura rabínica antiga, registrada no Midrash Bereshit Rabbá 20: depois da expulsão do Éden, Deus diz à mulher, em Gênesis 3.16, que multiplicará “grandemente” (harbeh) sua dor e sua gestação. Harbeh soma 212. Rabi Shmuel concluiu, a partir disso, que um embrião que sobrevive 212 dias provavelmente sobrevive à gestação inteira — um palpite obstétrico antigo, escondido dentro de um advérbio. É o mesmo Bereshit Rabbá 20 que registra os 271 dias de heraion como leitura do valor numérico da palavra.

A própria palavra heraion aparece em Oséias 9.11, num oráculo de juízo. E há um terceiro número, mais recente: dam, sangue, soma 44. Um obstetra anônimo escreveu a Shore depois da publicação do livro chamando atenção para o hematócrito — a fração celular do sangue humano, que em exames de laboratório gira, para homens e mulheres, em torno de 42 a 45%. A média histórica do exame bate com a soma da palavra.

Nenhum desses três exemplos, isolado, prova qualquer coisa. Juntos, começam a formar um padrão — e é esse padrão que Shore tenta testar com rigor estatístico nos capítulos centrais do livro, que abrimos nos próximos posts: o tempo, o corpo, os céus, a matéria.

Por que isso quase não circula

Vale adiantar uma informação que vai pesar no julgamento de tudo o que vier depois nesta série: nenhum periódico científico aceitou revisar esse trabalho. Shore tentou. Editores recusaram olhar o manuscrito só de ouvir o assunto.

A reação dele, registrada no próprio livro, é sincera: “Quando obtive os novos resultados na tela do computador, não conseguia crer no que viam meus olhos — foi avassalador. Corri de um lado para o outro como um leão na jaula.” Sem canal acadêmico, ele autopublicou. O livro circulou por e-mail, por entrevista de jornal e, por fim, pelo documentário Math Unveils the Truth — Torah is of Divine Origin, do cineasta Oren Evron, que leva a pesquisa de Shore ao público e já passa de 1,3 milhão de visualizações.3

Isso não invalida a estatística. Mas é a primeira pista de que esta série vai precisar, em algum momento, parar para perguntar o que essa estatística realmente sustenta — e o que não sustenta. Chegamos lá no último post.

O que vem a seguir

Esta é a primeira de sete partes. As próximas tratam do método com mais detalhe — e da diferença com a Bíblia em código —, do tempo no hebraico bíblico, do corpo humano, dos nove “planetas” da Bíblia e do seu encaixe estatístico mais forte, da luz, do som e da cor, e, por fim, de quanto desse edifício resiste a uma análise crítica séria.


Referências

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