Duccio di Buoninsegna (c. 1255–1319), domínio público, via Wikimedia Commons
Pedro sobe na praia puxando uma rede pesada. Dentro dela, João 21.11 conta cento e cinquenta e três peixes. Não “uma pescaria farta”. Não “mais peixes do que cabiam na rede”. Cento e cinquenta e três, contados um a um.
João quase nunca faz isso. O quarto Evangelho evita números redondos com uma disciplina rara para a época. E, ainda assim, parou para contar peixe por peixe depois da ressurreição, no último capítulo, na última cena de pesca com Jesus. Há mais de mil e seiscentos anos, leitores tentam entender por quê.
A explicação mais simples
A leitura mais antiga vem de Jerônimo, no século IV. Para ele, 153 era o número de espécies de peixes conhecidas na época — um catálogo que circulava, atribuído a tratados de zoologia grega. A rede que não se rompe, carregando todas as espécies do mar, descreve a Igreja: cabe gente de toda nação. Pedro e os outros discípulos não pescam só peixe. Pescam o mundo.
O padre Cido Pereira resume essa leitura numa coluna recente do Jornal O São Paulo, da Arquidiocese: o número sugere universalidade, porque a salvação anunciada por Jesus “era para todos os homens, para toda a humanidade”. É a explicação mais repetida em catequese hoje, e funciona bem mesmo sem nenhuma matemática.
Só que tem mais.
Agostinho fez a conta, e ela bate
A segunda leitura clássica é geométrica. Agostinho de Hipona observou algo que parece ter ficado na cabeça de todo seminarista depois dele: 153 é a soma de 1 a 17.
Some você mesmo: 1+2+3+4+5+6+7+8+9+10+11+12+13+14+15+16+17 = 153.
E por que 17? Para Agostinho, 17 reúne dois números com peso teológico: os dez mandamentos da Lei e os sete dons do Espírito Santo. Lei mais Graça. Somando cada número de 1 até essa soma, chega-se exatamente à quantidade de peixes na rede — como se a totalidade da Lei e da Graça, somada camada por camada, desembocasse num único número, e esse número fosse o da pesca.
Cirilo de Alexandria propôs outra divisão para o mesmo total: 100 (a totalidade dos povos, evocando a ovelha perdida entre cem em Lc 15.4) mais 50 (a metade disso, representando Israel) mais 3 (a Trindade que une os salvos). Outra conta, outro caminho, a mesma ideia de fundo: o número descreve a totalidade dos resgatados, reunida em torno de Deus.
Vale notar que a tradição patrística não parou nessas duas contas. Uma leitura que circula entre comentaristas ortodoxos atribui ao próprio Agostinho uma segunda aproximação, ligando os 153 peixes aos sete mil fiéis que Deus reserva para si em 1 Reis 19.18, no tempo de Elias — e atribui-se a Gregório Magno um raciocínio semelhante ao de Agostinho, multiplicando o 17 por três antes de somar. A referência exata desses dois últimos cálculos é difícil de localizar num texto patrístico específico; tratá-los como tradição oral, não como citação fechada, é o caminho mais honesto.
Um número estranho mesmo sem teologia
Tire a Bíblia da equação por um momento. 153 é, por si só, um número matematicamente incomum.
É a soma de 1 a 17, o que o torna o 17º número triangular — a mesma família de números que aparece, vejam só, em outros dois lugares do Novo Testamento. O 666 de Apocalipse 13.18 é a soma de 1 a 36. E as 276 almas a bordo do navio de Paulo, em Atos 27.37, somam a sequência de 1 a 23. Três números triangulares, três livros diferentes do Novo Testamento.
153 também é o que matemáticos chamam de número narcisista: 1³+5³+3³ = 1+125+27 = 153. Abaixo de mil, só existem mais quatro números assim — 370, 371 e 407 são os outros três de três dígitos. 153 também é a soma dos cinco primeiros fatoriais (1!+2!+3!+4!+5! = 153) e um número hexagonal (o 9º da sequência). E tem um truque curioso: comece com quase qualquer número, some os cubos dos seus algarismos, repita o processo — boa parte das vezes a sequência termina em 153 e fica ali, presa num loop de um único número. Partindo de 84, por exemplo: 84 → 576 → 684 → 792 → 1080 → 513 → 153. E para.
Nenhuma dessas propriedades prova nada sobre a intenção do autor do Evangelho. Mas ajuda a entender por que tanta gente, ao longo de dezessete séculos, não conseguiu deixar esse número quieto.
A hipótese mais ousada: um eco de Ezequiel 47
A leitura mais sofisticada não vem de um Padre da Igreja, mas de pesquisa acadêmica recente — em especial de um artigo do biblista britânico Richard Bauckham, publicado em 2002 na revista Neotestamentica, construído sobre uma observação do hebraísta John Emerton em 1958.
O ponto de partida é outro texto profético sobre pesca: Ezequiel 47.10. O profeta descreve pescadores estendendo redes entre dois pontos na margem do Mar Morto: En-Gedi e En-Eglaim.
Em hebraico, esses nomes têm valor numérico — a gematria, sistema em que cada letra vale um número e uma palavra pode ser “somada”. Gedi soma 17. Eglaim soma 153. Os mesmos dois números do cálculo de Agostinho, escondidos num texto profético sobre pesca abundante. Emerton notou a coincidência; Bauckham acrescentou outra: na sequência do texto hebraico de Ezequiel 47, Gedi é literalmente a 153ª palavra do capítulo.
Bauckham vai um passo além e observa que a expressão hebraica para “filhos de Deus” — בני האלהים, bnei ha’elohim — também soma exatamente 153. A peça encaixa: se Eglaim e “filhos de Deus” compartilham o mesmo valor, o número da pesca pode estar apontando, por meio do eco profético, para os que se tornam filhos de Deus através da pregação dos apóstolos.
Isso não é numerologia de internet. Bauckham sustenta o argumento mostrando que o quarto Evangelho usa composição numérica em outros pontos — o prólogo (João 1.1-18) tem exatamente 496 sílabas, que é ao mesmo tempo um número triangular, um número perfeito e o valor em gematria grega da palavra monogenés (“unigênito”, usada no próprio prólogo). A oração de Jesus no capítulo 17 tem 486 palavras, valor de pater (“pai”) em grego. Para Bauckham, contar sílabas e palavras com essa precisão fazia parte do ofício de escrever na Antiguidade — o equivalente, mil e novecentos anos antes da internet, de um acróstico bem construído.
Nem todo exegeta compra essa leitura
A cautela aqui é saudável, e a maioria dos comentaristas críticos não está convencida. Raymond Brown, um dos maiores especialistas em João do século XX, observou que não há evidência de que os primeiros leitores do Evangelho tivessem ferramentas ou hábito para decifrar gematria tão elaborada. George Beasley-Murray foi mais direto ainda, chamando esse tipo de leitura de exagerada. D.A. Carson resume o ceticismo de forma simples: se o evangelista realmente escondeu um simbolismo no número, escondeu bem demais para ser recuperado com confiança.
O teólogo anglicano Ian Paul propõe um teste de bom senso para esse tipo de leitura: a explicação precisa usar dados que o texto realmente fornece (não inventados), precisa ser simples o bastante para alguém da época reconhecer, e precisa se conectar com o resto do que o autor está dizendo — não ser um truque numérico isolado. A teoria de Agostinho passa nesse teste com facilidade. A de Bauckham passa com mais esforço, e o próprio Bauckham reconhece a fragilidade de alguns elos da cadeia.
O que sobra depois da conta
Nenhuma dessas leituras se cancela. Jerônimo vê universalidade. Agostinho vê Lei e Graça somadas. Cirilo vê judeus e gentios reunidos pela Trindade. Bauckham vê um eco profético sobre filhos de Deus. Todas chegam a uma variação do mesmo lugar: a rede do Evangelho é grande o bastante para caber qualquer um, e ainda assim não se rompe.
Essa, no fim, é a única afirmação que o texto faz sem precisar de gematria nenhuma. Pedro obedeceu, jogou a rede do lado certo, e ela voltou cheia demais para um homem só carregar. Calcular o 153 é exercício de quem já confia que a pesca foi real antes de virar símbolo. Vale lembrar de relance, antes de fechar: até o epíteto grego de Maria Madalena, hē Magdalēnē, soma 153 em gematria — e a escola fundada em Londres em 1512 por John Colet, a St Paul’s School, reservou desde o início exatamente 153 vagas para meninos pobres, em referência direta a esta pesca. O número saiu do texto e foi morar no mundo.
Referências
- Padre Cido Pereira, “Qual o significado dos 153 peixes no Evangelho segundo João?”, Jornal O São Paulo
- Ian Paul, “Do the 153 fish in John 21 count for anything?”, Psephizo
- [Richard Bauckham, “The 153 Fish and the Unity of the Fourth Gospel”, Neotestamentica 36 (2002)]
- “153 (number)”, Wikipédia em inglês
- “Cento e cinquenta e três”, Wikipédia em português
- Bíblia Online — Almeida Corrigida Fiel
Tem algo a dizer sobre este texto? Manda uma mensagem — responderei em breve.