Eu estava errado sobre Deus e a velocidade da luz

Por anos eu disse que Deus alcançou a velocidade da luz para estar em todo lugar. Onde errei, e o que a física e Tomás de Aquino dizem.
Eu estava errado sobre Deus e a velocidade da luz

Foto por Evie S. no Unsplash

Por anos, repeti uma frase que parecia profunda e era só errada: Deus foi o único a atingir a velocidade da luz, e é assim que Ele está em todo lugar ao mesmo tempo. Falei isso em conversas, em comentários, talvez até aqui. A frase tinha dois problemas — um físico, outro teológico — e eu não via nenhum dos dois.

Vale desmontar o erro em público. Esse blog existe para colocar fé e razão lado a lado, e isso inclui admitir quando o lado da razão estava mal calculado.

Como eu montava o argumento

A lógica parecia fechar sozinha. A luz é o limite de velocidade do universo. Se Deus quisesse estar em todo canto ao mesmo tempo, bastava Ele se mover nesse limite. Bonito, redondo, com gosto de apologética científica pronta para impressionar numa conversa.

O problema é que ela quebra já na primeira premissa — e quebra de novo na segunda, mesmo se eu fingisse que a primeira estava certa.

Onde a física já fecha a porta

Nada que tenha massa pode atingir a velocidade da luz. A energia necessária para acelerar um corpo cresce junto com sua velocidade, segundo a equação E = γmc², em que γ aumenta sem limite à medida que a velocidade se aproxima de c. Chegar a c exigiria energia infinita — não “muita energia”, infinita. A física não abre exceção para nenhum corpo com massa, divino ou não.

Diante disso, dizer que “Deus atingiu a velocidade da luz” cria um problema antes mesmo de chegar à teologia: ou Deus tem massa zero, como um fóton, ou a frase não tem sentido físico nenhum. Nenhuma das duas opções ajuda quem quer defender a doutrina cristã de Deus.

Onde a física fecha a porta de novo

Mesmo que eu ignorasse esse primeiro problema e imaginasse Deus viajando à velocidade da luz, a conclusão que eu queria — onipresença — não viria de brinde.

Um fóton emitido por uma estrela ainda percorre uma trajetória, ponto a ponto, até ser absorvido aqui. Ele não está nos dois lugares ao mesmo tempo. O que a relatividade mostra é que o tempo próprio entre a emissão e a absorção é zero: do “ponto de vista” do fóton, não passou tempo nenhum entre sair da estrela e chegar à Terra, mesmo que, para nós, isso tenha levado milhões de anos.

Tempo próprio igual a zero não é a mesma coisa que estar em todo lugar. É uma afirmação sobre duração ao longo de uma trajetória, não sobre presença simultânea fora dela. Eu estava confundindo duas perguntas da física que nem sequer se respondem da mesma forma.

O erro teológico por baixo do erro físico

Mesmo corrigida a física, a frase continuaria errada — porque o problema de fundo nunca foi o número certo de quilômetros por segundo.

Tomás de Aquino, na Suma Teológica (I, Q.8), já tinha resolvido essa questão sem precisar de velocidade nenhuma. Deus está presente nas coisas por essência, por potência e por presença — sustentando o ser de cada coisa enquanto ela existe, não ocupando um lugar físico do jeito que um corpo ocupa lugar excluindo outros corpos. Escrevi sobre isso com mais espaço neste post.

Ao dizer que Deus “atingiu” a velocidade da luz para estar em todo lugar, eu estava fazendo exatamente o que a doutrina clássica nunca fez: tratar a onipresença como um problema de deslocamento físico, resolvido por um corpo — ainda que extraordinário — se movendo dentro do espaço-tempo. Um Deus que precisa de velocidade, mesmo a velocidade máxima do universo, para estar em todo lugar já não é o Deus de Salmos 139:7-10. É uma versão menor dele, encaixada à força dentro das mesmas regras que valem para tudo o mais que existe.

Por que a ideia errada era tão sedutora

Entendo por que a frase me convenceu por tanto tempo. Ela tinha aparência de ponte entre ciência e fé, e eu gostava de construir pontes assim — pareciam provar que a Bíblia “já sabia” o que a física descobriria depois. Mas a pressa de costurar um versículo a uma equação, sem checar se os dois lados da costura realmente se encontram, é como nascem a maioria dos erros desse tipo. A intenção era boa. A execução, não.

A correção não diminui a fé. Troca uma analogia frágil por uma doutrina que sustenta peso há quase oitocentos anos, sem precisar de Einstein para se manter em pé.

O que fica

Deus não precisou viajar até lugar nenhum para estar em todo lugar. Essa frase, que antes eu via como limitação, hoje leio como a parte mais forte do argumento.

Referências

Tem algo a dizer sobre este texto? Manda uma mensagem — responderei em breve.