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A física diz que não existe um “agora” universal. Dois eventos podem ser simultâneos para um observador e não simultâneos para outro — e os dois estarão certos. Se a relatividade aboliu o presente absoluto, o que sobra da ideia de que Deus está presente, ao mesmo tempo, em cada ponto do universo?
A pergunta não é retórica. Ela ocupa filósofos da religião há décadas e ainda divide quem leva a sério tanto a Bíblia quanto a física. Vale seguir o argumento até o fim, porque o caminho passa por Agostinho, por Boécio, por Tomás de Aquino e por Einstein — e termina num lugar mais interessante do que “a ciência ameaça a fé” ou “a ciência prova a fé”.
O que a Bíblia chama de onipresença
Davi escreve:
Para onde me irei do teu Espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, tu aí estás; se fizer no Seol a minha cama, eis que tu ali estás também; se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá.
Jeremias registra Deus perguntando:
Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? — diz o Senhor. Porventura, não encho eu os céus e a terra? — diz o Senhor.
No Areópago, Paulo cita um poeta grego para dizer a mesma coisa por outro caminho:
Ainda que não está longe de cada um de nós; porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como, também, alguns dos vossos poetas disseram: pois somos, também, sua geração.
Nenhum desses textos descreve Deus como um gás cósmico, espalhado uniformemente pelo espaço. Descrevem uma presença que sustenta, conhece e age — não uma substância que ocupa volume. Essa distinção vai importar.
O que a relatividade realmente diz
Em 1905, Einstein partiu de uma constatação simples: a velocidade da luz no vácuo é a mesma para qualquer observador, independente do seu movimento. Dessa premissa única nasce uma consequência que ainda incomoda quem a encontra pela primeira vez: não existe simultaneidade absoluta. Dois eventos que ocorrem em pontos diferentes do espaço podem ser simultâneos num referencial e não simultâneos em outro — e a discordância não é erro de medição. É a própria estrutura do espaço-tempo.
O exemplo mais didático vem dos múons, partículas que nascem a cerca de 10 km de altitude na atmosfera e têm meia-vida de 2,9 microssegundos viajando a 99,8% da velocidade da luz. Pela conta ingênua — distância igual a velocidade vezes tempo — deveriam decair depois de 658 metros e nunca chegar ao solo. Mas chegam. No referencial do múon, seu relógio interno passou exatamente os 2,9 microssegundos esperados. No referencial de quem o detecta na superfície, esse mesmo intervalo foi medido como muito maior. Os dois relógios estão certos. Só não concordam sobre quanto tempo passou nem sobre que distância foi percorrida.
Estenda essa lógica ao universo inteiro e a conclusão incomoda o senso comum: não há um relógio mestre, nenhum “agora” que valha igualmente para a Terra, Marte e a galáxia de Andrômeda. Cada referencial tem o seu.
Onde está o problema — e onde ele não está
Se não existe um “agora” comum a todo o universo, fica difícil sustentar que Deus está presente “em todos os lugares ao mesmo tempo” — pelo menos se a frase for lida como a maioria a lê: Deus ocupando cada ponto do espaço tridimensional num único instante newtoniano, compartilhado por toda a criação.
É exatamente essa leitura que a relatividade torna insustentável. Mas é também essa leitura que a teologia clássica nunca defendeu.
Tomás de Aquino dedica a Questão 8 da primeira parte da Suma Teológica a esse problema específico: como Deus está nas coisas. A resposta dele antecipa, no século XIII, a objeção que a física levantaria setecentos anos depois. Deus não está nas coisas como parte de sua essência, nem como um corpo que ocupa lugar excluindo outros corpos do mesmo lugar. Ele está presente como o agente está presente ao seu efeito — por essência, por potência e por presença, sustentando o ser de cada coisa enquanto ela existe. E há uma frase de Aquino que vai direto ao ponto: ao dar existência às coisas que enchem cada lugar, é o próprio Deus quem enche cada lugar, sem com isso excluir nada nem ser excluído por nada.
Em outras palavras: a onipresença bíblica nunca foi sobre Deus competir por espaço físico, ocupando posições num referencial qualquer. Era sobre Deus sustentar a existência de cada coisa, em cada lugar, sem precisar estar “dentro” do mesmo sistema de coordenadas que essas coisas. A relatividade da simultaneidade derruba a onipresença como substância espalhada. Não toca a onipresença como sustento do ser.
Um Deus fora do relógio
Agostinho, no livro XI das Confissões, já tinha chegado a essa distinção por outro caminho. Para ele, o tempo é uma distensão da alma — algo que vivemos por dentro, sucessivamente — enquanto Deus, Criador do próprio tempo, está fora dele. Não é que Deus tenha um relógio mais rápido ou mais lento que o nosso. Ele simplesmente não está sujeito a relógio nenhum.
Um século depois, Boécio formalizou essa intuição numa frase que se tornou clássica: a eternidade é “a posse inteiramente simultânea e completa de uma vida sem fim” — tota simul, diz o latim. Deus não vê o futuro como nós vemos o presente, antecipando-o aos poucos. Para Ele não há antes nem depois. Há um único presente que abrange tudo.
Essa ideia, que parecia abstração filosófica antes de 1905, ganhou um paralelo físico inesperado. Uma das leituras filosóficas da relatividade — o chamado universo-bloco — sustenta que passado, presente e futuro coexistem igualmente reais numa estrutura quadridimensional única, sem instante privilegiado que separe um do outro. É só uma interpretação possível das equações, não uma exigência delas; físicos sérios discordam sobre se a relatividade obriga a aceitá-la. Mas, se essa leitura estiver no caminho certo, o tota simul de Boécio descreve, com mil e quinhentos anos de antecedência, o tipo de relação que um Deus eterno teria com um universo assim: não mais um observador dentro do bloco, disputando lugar na fila dos referenciais, mas Aquele cuja vida abrange o bloco inteiro de uma só vez.
Nem todo filósofo cristão concorda com essa rota. William Lane Craig, por exemplo, prefere o caminho inverso: defende que Deus existe dentro do tempo e, por isso, revive uma leitura lorentziana da relatividade — aceita os dados experimentais, mas rejeita a tese de que não existe tempo absoluto, reservando esse posto para o “agora” de Deus. É uma posição respeitável e tecnicamente sofisticada. Também é uma entre outras, dentro de um debate que continua aberto entre os próprios filósofos cristãos da religião.
A ironia de Einstein
Há uma ironia nessa história. Einstein, num telegrama de 1929 a um rabino que lhe perguntou se ele crê em Deus, respondeu: “Acredito no Deus de Spinoza, que se revela na harmonia de tudo o que existe, não num Deus que se preocupa com o destino e os feitos da humanidade.” Mais tarde descreveria sua própria posição como agnóstica — fascinado pela ordem lógica do cosmos, não convertido a um Criador transcendente.
Mas a própria física que ele descobriu exige, na sua estrutura, algo parecido com o que a teologia clássica sempre afirmou sobre Deus: uma referência que não está presa a nenhum referencial particular, porque está fora de todos eles igualmente. Einstein encontrou essa estrutura na malha do espaço-tempo e parou no panteísmo cósmico. Agostinho, Boécio e Aquino tinham descrito, séculos antes, alguém que ocupa essa posição sem se confundir com o universo que sustenta — pessoal, segundo Efésios 4:6, e ainda assim presente em cada ponto sem precisar disputar espaço com nada que criou.
O que sobra, no fim
A relatividade não desmonta a onipresença de Deus. Desmonta uma versão dela que talvez nunca devesse ter sido sustentada: a ideia de um Deus espalhado pelo espaço como um campo físico, presente porque ocupa lugar do mesmo jeito que a matéria ocupa lugar. Tirada essa muleta, sobra a doutrina mais antiga e mais exigente — a que o Salmo 139 já cantava sem precisar de Einstein para confirmar nada: Deus presente em cada ponto do espaço-tempo, em cada referencial, não como mais um corpo na fila, mas como Aquele que sustenta a fila inteira.
Referências
- Tomás de Aquino, Summa Theologiae I, Questão 8 — “The existence of God in things” (New Advent)
- A eternidade e o tempo em Santo Agostinho: uma análise do Livro XI das Confissões
- Sobre a definição de eternidade em Boécio (“tota simul”)
- Relatividade da simultaneidade — Wikipédia
- Relatividade: tempo e espaço nas mãos de Deus — exemplo do múon (Hora de Berear)
- Relatividade Geral Explicada — Espaço-tempo, Gravidade e Cosmos
- The Block Universe: Physics Meets Philosophy
- Does Relativity imply block universe? (discussão filosófica)
- William Lane Craig, “The Special Theory of Relativity and Theories of Divine Eternity” — PhilPapers
- Visões religiosas e filosóficas de Albert Einstein — Wikipédia
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