Deus no Caos: Uma Oração pelo Nepal

Enchentes matam centenas no Nepal e deixam quase mil desaparecidos. Uma reflexão bíblica sobre a presença de Deus no caos — e uma oração pelo país.
Deus no Caos: Uma Oração pelo Nepal

Foto por mo jiaming no Unsplash

Até as cinco da tarde desta quinta-feira, a polícia do Nepal contava 359 mortos. Oitocentas e vinte e seis pessoas seguiam sem contato — entre elas, 590 turistas, sendo 476 estrangeiros de mais de trinta países.1 As próprias autoridades avisam que o número ainda deve subir.

Não é uma enchente comum. Na manhã de quarta-feira, um pedaço de geleira se soltou perto da fronteira entre o Nepal e o Tibete, arrastando gelo, rocha e sedimento encharcado morro abaixo. O impacto foi forte o bastante para ser registrado por sismógrafos do mundo inteiro — magnitude 5.2.2 A massa desceu pelo rio Bhote Koshi, ganhou o Trishuli, e varreu pontes, estradas e vilarejos inteiros nos distritos de Rasuwa, Nuwakot, Dhading, Chitwan, Gorkha, Tanahun e nas duas Nawalparasi.

Diante de um número desses, a pergunta de quem tem fé não é abstrata: onde está Deus quando uma montanha desaba de verdade?

“Ainda que os montes se transportem para o meio dos mares”

O Salmo 46 não é poesia genérica sobre superar dificuldades. Foi escrito para gente que já tinha visto a terra debaixo dos pés se mover:

Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia. Portanto não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares.

O verso seguinte descreve exatamente o tipo de evento que aconteceu no Nepal esta semana — não como metáfora emprestada, mas como a mesma imagem física:

Ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela sua braveza.

O salmista não promete que a montanha vai ficar parada. Promete um refúgio para quando ela não fica. A diferença entre as duas coisas é o ponto inteiro do texto: fé bíblica nunca foi a garantia de que o chão não vai tremer, e sim a certeza de que existe alguém presente quando ele tremer.

“Mestre, não se te dá que pereçamos?”

Os discípulos conheciam bem essa distinção. Numa travessia de barco, o vento virou tempestade e as ondas começaram a encher a embarcação:

E ele estava na popa, dormindo sobre uma almofada, e despertaram-no, dizendo-lhe: Mestre, não se te dá que pereçamos?

A pergunta não é retórica — é pânico genuíno, de gente que sabia nadar e mesmo assim tinha certeza de que ia morrer ali. A resposta de Jesus não foi uma explicação teológica sobre por que a tempestade existia:

E ele, despertando, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E o vento se aquietou, e houve grande bonança.

Nem toda tempestade se aquieta assim, e seria desonesto prometer isso a quem está lendo esta semana com um parente desaparecido em Rasuwa ou em Chitwan. O que o episódio garante não é que o barco nunca vai balançar — é que a pessoa de Cristo estava dentro dele o tempo todo, inclusive dormindo, inclusive antes de qualquer milagre.

Uma torre também caiu em Jerusalém

Existe uma tentação antiga diante de uma tragédia dessas: procurar uma razão moral para explicar por que aconteceu com aquelas pessoas específicas. Jesus enfrentou essa mesma pergunta depois do desabamento de uma estrutura real, com mortos reais:

Ou aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém?

A resposta dele fecha a porta para qualquer teologia que trate desastre como veredicto:

Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis.

Jesus não usa a tragédia para apontar culpados — usa para lembrar que ninguém está numa categoria moral diferente de quem morreu. Isso vale para qualquer estrutura de pensamento que tente explicar sofrimento como punição proporcional, seja ela qual for. A pergunta certa diante do desabamento de uma torre — ou de uma geleira — nunca foi “o que essas pessoas fizeram para merecer isso”, porque essa pergunta não tem resposta boa em lugar nenhum da Bíblia.

Chorar com os que choram

Se a fé não explica o desastre nem promete que ele não vai acontecer de novo, o que ela pede é mais simples e mais concreto:

Alegrem-se com os que se alegram e chorem com os que choram.

Não é uma instrução vaga. É uma ordem de entrar na dor de quem está procurando um parente num hospital de Kathmandu ou num acampamento do Exército,3 antes de qualquer tentativa de explicar o que aconteceu. Já escrevi sobre isso num contexto bem diferente, mas o princípio é o mesmo: simpatia vem antes de qualquer outra coisa.

O Nepal é um país majoritariamente hindu — mais de 81% da população, segundo o censo de 2021, contra menos de 2% de cristãos.4 Isso não muda em nada a validade de uma oração cristã por ele. A dor de uma mãe que não encontra o filho não seleciona religião, e a compaixão pedida em Romanos 12 também não.


Que Deus conforte, de um jeito concreto e presente, o coração de cada família nepalesa que ainda espera notícia de alguém. Que dê força e clareza a quem está nas buscas — no Exército, na polícia, nos hospitais lotados. Que os quase mil ainda sem contato sejam encontrados com vida. E que, para quem já recebeu a pior notícia possível, haja um consolo que nenhuma palavra deste texto seria capaz de produzir sozinha.


Referências

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