Henrietta Lacks: a mulher por trás das células imortais

As células HeLa ajudaram a vencer a pólio e a mapear o HPV. Henrietta Lacks nunca soube. A família dela demorou 22 anos para descobrir.
Henrietta Lacks: a mulher por trás das células imortais

Células HeLa em microscopia de fluorescência multifóton, National Institutes of Health (NIH), domínio público, via Wikimedia Commons

Se você tomou a vacina contra a pólio, ou contra o HPV, ou se alguém que você ama fez tratamento para leucemia, hemofilia ou Parkinson, há uma boa chance de que, em algum ponto da cadeia, esse remédio tenha sido testado em células de uma mulher negra de 31 anos que morreu em Baltimore em 1951. O nome dela era Henrietta Lacks. Ela nunca soube de nada disso. A família dela também não, por mais de vinte anos.

A jornalista Rebecca Skloot passou uma década atrás dessa história e a contou em A Vida Imortal de Henrietta Lacks (Companhia das Letras, 2011, tradução de Ivo Korytowski).1 O que sai do livro não é um conto de vilões. É algo mais incômodo: um dos maiores avanços da medicina moderna construído, com a melhor das intenções, sobre uma pessoa que ninguém se deu ao trabalho de enxergar. Este post conta a história; o que a família dela fez com uma Bíblia aberta diante dessa história fica para o próximo, Corpos celestiais.

A amostra que não morreu

Quase toda célula humana posta numa placa de laboratório se comporta como uma vela: queima por um tempo, se divide algumas dezenas de vezes, e apaga. Antes de 1951, era assim com todas. George Gey, chefe do laboratório de cultura de tecidos do hospital Johns Hopkins, tinha passado décadas tentando manter células humanas vivas fora do corpo, e colecionava fracassos.2

Henrietta Lacks em pé, com as mãos na cintura, sorrindo, numa fotografia em preto e branco de cerca de 1945
Henrietta Lacks por volta de 1945, seis anos antes do diagnóstico. Foto: Oregon State University, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.

Henrietta Lacks nasceu Loretta Pleasant em 1920, em Roanoke, na Virgínia, e cresceu numa família de plantadores de tabaco em Clover, numa casa que tinha sido senzala dos antepassados.2 Casou-se com David Lacks em 1941, mudou-se para Baltimore na época da guerra e teve cinco filhos. No início de 1951 ela sentiu o que chamava de um “nó” no ventre e procurou o Johns Hopkins, o único grande hospital da região que atendia pacientes negros.1 O diagnóstico foi câncer de colo do útero.

Durante o tratamento com rádio, o cirurgião retirou dois pedaços do tumor, do tamanho de uma moeda, e os mandou para o laboratório de Gey. Ninguém pediu permissão a ela; era prática corrente e legal na época, e o próprio Johns Hopkins reconhece isso sem rodeios, ao mesmo tempo que afirma que o mesmo não aconteceria hoje sem consentimento.3 As células receberam a etiqueta de sempre, as duas primeiras letras do nome e do sobrenome: HeLa. E então fizeram o que nenhuma outra tinha feito. Dobravam de número a cada 24 horas, e não paravam.2

Henrietta morreu em 4 de outubro de 1951, aos 31 anos, oito meses depois do diagnóstico.4 Foi enterrada em Clover, numa cova sem lápide. Enquanto isso, no laboratório, as células dela já começavam a viajar.

Vinte mil tubos por semana

Gey não vendeu as células. Deu de presente a qualquer colega que pedisse, e muita gente pediu.3 Em 1953, quando a vacina de Jonas Salk contra a pólio precisou ser testada em escala gigantesca, foi montada a primeira “fábrica de células” da história, no Instituto Tuskegee, no Alabama.5

Fotografia em preto e branco: um homem com pólio deitado dentro de um pulmão de aço, só com a cabeça para fora, recebe a visita de uma mulher com um bebê no colo, ao lado de uma enfermeira
Um paciente de pólio, dentro de um pulmão de aço, recebe a visita da família. Foto: National Museum of Health and Medicine, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

A escolha do lugar não foi por acaso: Tuskegee era uma instituição negra, e a fundação que financiava a vacina queria envolver cientistas negros no esforço. Uma equipe de 35 pesquisadores e técnicos produzia cerca de 20 mil tubos de HeLa por semana, algo como 6 trilhões de células, enviados de avião para os laboratórios que verificavam se a vacina funcionava.5 Funcionava. A pólio, que naquela década fechava piscinas no verão e enchia enfermarias de pulmões de aço, começou a recuar a partir dali. Nenhum dos tubos levava o nome de Henrietta.

Em todos os lugares ao mesmo tempo

Micrografia eletrônica colorida: partículas esféricas alaranjadas do SARS-CoV-2 sobre um fundo cinza-azulado
Partículas do SARS-CoV-2, o vírus da Covid-19, isoladas de um paciente. Micrografia eletrônica colorida: NIAID, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

Depois da pólio vieram as outras. As HeLa serviram para estudar como a salmonela invade células humanas, para que um virologista alemão, Harald zur Hausen, provasse que o HPV causa câncer de colo do útero (trabalho que lhe rendeu o Nobel de 2008 e abriu caminho para a vacina), para observar como o HIV entra na célula, para pesquisar tuberculose, radiação, fertilização in vitro e, mais recentemente, a Covid-19.46 A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 50 milhões de toneladas de células HeLa já foram distribuídas pelo mundo, usadas em mais de 75 mil estudos.6 Cinquenta milhões de toneladas, a partir de dois pedaços de tumor do tamanho de uma moeda.

Elas eram tão vigorosas que viraram um problema. Em 1966, o geneticista Stanley Gartler mostrou a uma plateia de pesquisadores que 18 linhagens de células supostamente distintas, usadas em laboratórios do país inteiro, eram todas HeLa: bastava uma gota num frasco vizinho para que as células de Henrietta tomassem conta.7 Anos de pesquisa feitos “em células de próstata” ou “em células de rim” tinham sido feitos, sem ninguém saber, em células dela. Skloot chama o episódio de “a bomba HeLa”.1 Henrietta Lacks, que em vida mal saiu da Virgínia e de Baltimore, estava agora em todos os lugares ao mesmo tempo, inclusive onde não tinha sido convidada.

A família que soube por acaso

Em 1973, 22 anos depois da morte de Henrietta, a família Lacks descobriu que as células existiam, quando pesquisadores ligaram pedindo amostras de sangue dos filhos.1 O objetivo era mapear marcadores genéticos para resolver o problema da contaminação. Ninguém explicou direito; a família entendeu que estava sendo testada para câncer e passou anos esperando um resultado que nunca veio.1 Durante décadas, a imprensa científica chamou a doadora de “Helen Lane”, um nome inventado para caber nas quatro letras da sigla.

É aqui que a história costuma virar panfleto, e é aqui que o livro de Skloot se recusa a virar. Gey não enriqueceu. O Johns Hopkins afirma que nunca patenteou nem lucrou com a linhagem, e era, afinal, o hospital que atendia de graça quem nenhum outro atendia.3 Mas o resto do mundo lucrou, e muito: empresas de biotecnologia vendem frascos de HeLa até hoje. Enquanto isso, os filhos de Henrietta cresceram sem plano de saúde. A pergunta que a filha dela, Deborah, faz logo no prólogo do livro é a mais simples e a mais difícil de responder: se as células da mãe fizeram tanto pela medicina, por que a família não consegue pagar um médico?1

Setenta e dois anos depois

O desfecho ainda está sendo escrito. Em março de 2013, um laboratório europeu publicou o genoma completo das células HeLa sem consultar a família, o que expunha informação genética dos descendentes; depois dos protestos, retirou os dados do ar, e em agosto daquele ano o NIH fechou um acordo que dá a dois membros da família Lacks assento no comitê que autoriza o acesso aos dados.89

Em 2021, a OMS entregou a Lawrence Lacks, filho de Henrietta, então com 87 anos, um prêmio póstumo à mãe, falando em “reparar uma injustiça histórica”.6 Em 2023, no dia em que ela faria 103 anos, a família chegou a um acordo, de termos confidenciais, com a Thermo Fisher Scientific, acusada de enriquecer com a venda das células.10 Setenta e dois anos depois, alguém finalmente perguntou à família o que ela achava.

Mas a parte mais surpreendente dessa história não está nos tribunais nem nos laboratórios. Está numa casa de Clover, numa noite em que um primo de Deborah, filha de Henrietta, pegou a Bíblia, pediu que a jornalista lesse um trecho de Paulo em voz alta e explicou o que, para a família, aquelas células eram. É por aí que continua o próximo post, Corpos celestiais.


Referências

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