Estátua de Henrietta Lacks por Helen Wilson-Roe, Bristol (2021). Foto: 14GTR, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Henrietta Lacks morreu de câncer em 1951, aos 31 anos, e as células do tumor dela, retiradas sem que ela soubesse, viraram a primeira linhagem humana imortal da história: as HeLa, usadas na vacina da pólio, na descoberta de que o HPV causa câncer e em mais de 75 mil estudos desde então. A família só descobriu 22 anos depois. Contei essa história no post anterior, Henrietta Lacks: a mulher por trás das células imortais; este começa onde aquele parou, numa casa de Clover, na Virgínia, com uma Bíblia aberta.
Porque a família de Henrietta não reagiu às células com um argumento jurídico. Reagiu com teologia. E o que eles disseram está errado de um jeito que vale a pena entender, e certo de um jeito que muitos cientistas que manusearam aqueles frascos nunca enxergaram.
Uma Bíblia aberta em Clover
No capítulo 36 de A Vida Imortal de Henrietta Lacks, Rebecca Skloot está em Clover com Gary, primo de Deborah, filha de Henrietta, depois de uma noite difícil em que Deborah quase desabou sob o peso de tudo o que tinha descoberto sobre a mãe.1 Gary pega a Bíblia e pede que a jornalista leia em voz alta um trecho de Paulo:
Também há corpos celestiais e corpos terrestres; e, sem dúvida, uma é a glória dos celestiais, e outra, a dos terrestres.
E mais adiante:
Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder. Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual.
Para Gary, e para boa parte da família, as células HeLa são isso: o corpo espiritual de Henrietta, escolhida por Deus para continuar fazendo o bem depois de morta.1 Não é uma ideia que eles leram em algum lugar. É o que uma família de fé, sem acesso a nenhum cientista disposto a explicar, construiu para dar sentido a uma coisa sem precedentes: a mãe deles estava morta havia décadas e, ao mesmo tempo, “viva” em milhares de laboratórios.
O que as HeLa não são
É uma leitura comovente, e eu não vou fingir que ela está certa. Paulo não está falando de células de tumor num freezer. O corpo que ressuscita, na promessa cristã, é a pessoa inteira, reconhecível, com nome e rosto: o Jesus ressurreto come peixe, mostra as mãos, chama Maria pelo nome. Não é um pedaço dele multiplicado ao infinito.
E as HeLa nem sequer são, biologicamente, “Henrietta”. São células de um câncer. O genoma delas tem o DNA do HPV encaixado ao lado de um gene que, ligado na hora errada, provoca tumores, e é um genoma embaralhado, cheio de cópias extras dos cromossomos que toda pessoa carrega aos pares.2 É justamente por serem defeituosas desse jeito que elas não param de se dividir. Elas não são a mulher. São a doença que a matou, mantida viva.
Dizer isso não é frieza; é respeito. Se as HeLa fossem Henrietta, então Henrietta estaria sendo vendida em frascos, irradiada, infectada com vírus e descartada no lixo de laboratório todos os dias. A família passou anos atormentada exatamente por essa imagem: Deborah se perguntava se a mãe sentia dor quando as células eram testadas.1 A resposta honesta, e a mais consoladora, é que não. A mulher de Clover não está nos frascos. Está onde todos os mortos em Cristo estão, esperando um corpo que nenhum laboratório sabe fabricar.
O que Gary acertou
Mas, antes de corrigir a teologia de Gary, convém ouvir o que ele está fazendo. Diante de um mundo que transformou aquela mulher numa sigla de quatro letras e num número de catálogo, ele insiste que havia uma pessoa ali, e que essa pessoa importa a Deus. Nisso ele está mais certo do que muitos dos cientistas que manusearam os frascos.
A fé cristã afirma que o ser humano foi criado à imagem de Deus (Gn 1:27), e que essa imagem não está no que a pessoa produz, nem no que o corpo dela pode render, mas no simples fato de ela ser quem é. Uma lavradora de tabaco com cinco filhos e um tumor tem exatamente a mesma imagem que o cientista que ganha o Nobel estudando as células dela. O salmista diz isso de um modo que soa quase como uma descrição de laboratório, com um detalhe a mais:
Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no ventre de minha mãe. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra.
O detalhe é o “tu”. Antes de George Gey ver as células de Henrietta pela primeira vez, alguém já as tinha visto, e sabia a quem elas pertenciam, pelo nome. E, se Paulo tem razão, o “semeia-se em desonra” descreve com exatidão uma cova sem lápide em Clover; o “ressuscita em glória” não descreve um frasco, mas descreve uma esperança concreta para a mulher enterrada ali. Gary leu o versículo certo. Só apontou para o lugar errado.
Os pardais e os formulários
Jesus disse que Deus não se esquece de um único pardal, e que até os fios de cabelo da nossa cabeça estão contados:
Não se vendem cinco pardais por duas moedinhas? Entretanto, Deus não se esquece de nenhum deles. Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados. Não temam! Vocês valem bem mais do que muitos pardais.
Repare que a frase não diz que Deus conta as coisas grandes. Diz que ele conta as pequenas, as que não valem duas moedinhas, as que ninguém mais anota. Por 22 anos, nenhum formulário do Johns Hopkins registrou que a família de Henrietta existia. Por décadas, os artigos científicos não registraram nem o nome certo dela. O que a história das HeLa revela não é que a ciência é má; vacinas são um bem, e eu tomaria todas de novo. Revela que uma pessoa pode ser reduzida a matéria-prima sem que ninguém envolvido se sinta um vilão, apenas por ninguém ter parado para perguntar quem ela era.
Consentimento informado, essa expressão fria de formulário, é no fundo uma tradução jurídica de um mandamento antigo: tratar o outro como alguém, não como algo. Para o cristão que trabalha com ciência, medicina ou dados (e hoje quase todo mundo trabalha com dados de alguém), a lição de Clover é prática. Antes de perguntar o que uma amostra pode render, pergunte de quem ela é. Antes de celebrar o avanço, confira se a pessoa que o tornou possível foi tratada como pessoa.
Um livro de granito
Em 2010, Henrietta Lacks finalmente ganhou uma lápide, em formato de livro aberto, paga por um médico que passou anos insistindo para que a história dela não fosse esquecida.3 A inscrição fala das células imortais que continuarão ajudando a humanidade. É verdade, e é pouco.
Em 4 de outubro de 2021, setenta anos exatos depois da morte dela, a Universidade de Bristol inaugurou uma estátua de bronze de Henrietta, de corpo inteiro, com as mãos na cintura, na pose da foto mais conhecida dela.4 A escultora, Helen Wilson-Roe, trabalhou com a família por anos antes de fundir o bronze. Dessa vez, perguntaram.
Uma estátua também não é ressurreição. Mas ela faz uma coisa que cinquenta milhões de toneladas de células nunca fizeram: devolve a Henrietta um rosto, um nome inteiro e um lugar onde as pessoas param para olhar. É o mínimo que a imagem de Deus numa pessoa pede. A imortalidade que vale a pena esperar não é a de uma linhagem celular num congelador, mas a de uma mulher de Clover que Deus conhece pelo nome, e não pela sigla.
Referências
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Skloot, R. A Vida Imortal de Henrietta Lacks. Companhia das Letras, tradução de Ivo Korytowski. (2011) ↩ ↩2 ↩3
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Gelling, C. “HeLa genome offers clues to cells’ cancerous nature.” Science News. (2013) ↩
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Watson, W. R. “Roland Pattillo helped keep Henrietta Lacks’ story alive. It’s key to his legacy.” NPR. (2023) ↩
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University of Bristol. “Statue of Henrietta Lacks unveiled at University of Bristol.” (2021) ↩

