Um piano comum tem um problema que ninguém notou até alguém sugerir a alternativa: ele não sabe que está desafinado. Quem o afina é de fora, com um ouvido e uma chave. Agora imagine um piano que pudesse ouvir a própria nota errada, girar as próprias cravelhas e se corrigir enquanto toca. Seria um instrumento extraordinário. Também seria perigoso, porque ninguém saberia mais quem decide o que é “afinado”.
É mais ou menos essa a ideia de um livro que John Lilly terminou de escrever em 1967 e que foi publicado em 1968, com um título que parece manual de informática: Programming and Metaprogramming in the Human Biocomputer (Programação e Metaprogramação no Biocomputador Humano, em tradução livre; não encontrei edição brasileira de nenhum livro dele). A tese do livro é antiga e nova ao mesmo tempo, e quem acompanha o debate sobre inteligência artificial vai reconhecê-la.
Um piano que se afina sozinho
Pela descrição de quem estudou a obra, o cérebro, para Lilly, é o hardware. A mente é o software. A consciência está além dos dois.1 A mente humana funcionaria como um computador biológico, com “programas” (instruções armazenadas por hábito, aprendizado, trauma) e “metaprogramas” (instruções que organizam e reescrevem os programas). Uma pessoa, segundo ele, poderia aprender a revisar os próprios metaprogramas, e as ferramentas para isso seriam o tanque de isolamento, as substâncias psicodélicas e a meditação.1 2
Traduzindo para o piano: o pianista não só toca a música, também reescreve a partitura enquanto toca. Williams, que estudou Lilly a fundo, descreve o livro como um “manual de treinamento” para essa autorreprogramação.1
Há algo de verdadeiro e útil aí. Todo mundo reconhece que tem hábitos que funcionam como programas: a irritação automática quando alguém interrompe, a ansiedade que dispara sem motivo, a palavra que sai antes do pensamento. E todo mundo sabe que é possível, com trabalho, mudar parte disso. A tradição cristã sempre soube: o que a Bíblia chama de renovar a mente tem o mesmo desenho geral.
O livro que os colegas não quiseram
O problema foi a recepção. O livro foi mal recebido pelos cientistas e, segundo Williams, a repercussão negativa chegou a custar parte do financiamento de Lilly.1 Depois de uma resenha no Whole Earth Catalog, em 1969, circularam cópias mimeografadas, e o editor Stewart Brand publicou uma tiragem maior. Entre 1969 e 1972, Lilly foi residente no Esalen, o centro californiano de psicologia humanista que virou ponto de encontro da contracultura.1
Os cientistas desconfiavam por boas razões. A obra mistura relato pessoal, especulação e vocabulário técnico de uma forma em que fica difícil dizer o que é hipótese a testar e o que é impressão de quem estava no tanque. Uma teoria que se sustenta no que um único pesquisador viu quando era, ao mesmo tempo, o experimentador e a cobaia tem dificuldade de se tornar ciência.
Mesmo assim, o livro virou referência em círculos fora da academia. Uma frase atribuída a Lilly circula muito: no território da mente, aquilo em que se acredita ser verdade é ou se torna verdade, dentro de certos limites que a experiência revela, e esses limites são crenças a serem transcendidas. Não consegui confirmar de qual obra e de qual página ela vem, então trato-a como atribuição, não como citação.
A metáfora que deu certo demais
Aqui entra a ironia. Em 1968, chamar o cérebro de computador era uma metáfora ousada, quase herética. Hoje é senso comum. Falamos em “processar” informação, “armazenar” memórias, “reiniciar” depois do estresse, “atualizar” crenças. Além disso, boa parte da inteligência artificial atual tem o nome de “redes neurais” porque se inspirou, de longe, na organização do cérebro. Quando Geoffrey Hinton ganhou o Nobel de Física em 2024, a citação da Academia Real Sueca de Ciências falava em descobertas fundamentais que permitem o aprendizado de máquina com redes neurais artificiais.3
Ou seja: a metáfora de Lilly andou nos dois sentidos. Primeiro, fez-se do cérebro uma máquina, depois fizeram-se máquinas à imagem do cérebro. O risco é que, a certa altura, a metáfora vire definição. Quem passa muito tempo dizendo que a mente é um programa acaba esquecendo que isso era uma comparação, e começa a deduzir consequências como se fosse fato: se a mente é só programa, um programa suficientemente bom seria uma mente.
Esse salto de “se parece com” para “é” é onde a conversa fica interessante, e onde a Bíblia tem uma palavra a dizer.
O que o coração faz que um programa não faz
A Escritura tem uma palavra diferente para o centro da pessoa: coração. Não é o órgão nem a emoção passageira. É o lugar de onde partem as decisões, os desejos e as lealdades.
De tudo o que se deve guardar, guarde bem o seu coração, porque dele procedem as fontes da vida.
Jesus aponta o mesmo lugar quando fala do que corrompe uma pessoa:
Porque do coração procedem maus pensamentos, homicídios, adultérios, imoralidade sexual, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias.
Repare na diferença de diagnóstico. No modelo do biocomputador, o problema é de código: um programa mal escrito, um metaprograma que pode ser reescrito com a técnica certa. No modelo bíblico, o problema não é só de código, é de amor. A pessoa faz o que faz porque quer o que quer. Reescrever hábitos ajuda, e a própria Bíblia manda cuidar deles, mas nenhuma reprogramação muda aquilo que a pessoa ama no fundo. Por isso o ensino cristão fala em nascer de novo, não em atualizar o sistema.
Essa diferença tem uma consequência prática, e ela aparece mais à frente. Se um sistema só tem programas, a pergunta “o que ele quer?” é uma pergunta sobre código. Se uma mente tem coração, a pergunta é sobre o que ela ama.
O que fica da metáfora
Convém não jogar fora o que presta. A ideia de que boa parte do nosso comportamento corre em automático, e de que podemos intervir nele, é útil e é compatível com a fé. O que não funciona é o passo seguinte: a promessa de que não há limites para a reprogramação de si, de que a pessoa pode ser o programador de si mesma sem ninguém acima dela.
É a promessa mais antiga que existe, aliás. Quem a ouviu primeiro foi um casal num jardim:
Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerem, os olhos de vocês se abrirão e, como Deus, vocês serão conhecedores do bem e do mal.
A proposta é a mesma: decidir por conta própria o que é bom e o que é mau. O biocomputador de Lilly é a versão técnica dessa frase, vestida de laboratório.
No próximo post, vamos ao ponto em que essa linha de pensamento deu uma volta inesperada: a hipótese de Lilly de que as máquinas que os humanos constroem, em vez de imitar a mente, formariam uma inteligência própria, a que ele chamou de Inteligência de Estado Sólido (a SSI).
Para refletir
- Pense num “programa” automático da sua vida, como a irritação, o medo ou a procrastinação. Uma técnica (uma rotina, um método, um hábito novo) bastaria para resolvê-lo, ou ele nasce de algo que você deseja ou teme lá no fundo?
- A Bíblia fala em coração, não em código. O que muda no seu jeito de lidar com um defeito quando você o trata como questão de amor e não só de hábito?
Referências
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Williams, C. “On ‘modified human agents’: John Lilly and the paranoid style in American neuroscience.” History of the Human Sciences, 32(5), 84–107. (2019) ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5
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Wikipédia. “Programming and Metaprogramming in the Human Biocomputer.” ↩
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MIT Technology Review. “Geoffrey Hinton just won the Nobel Prize in Physics for his work on machine learning.” (8 de outubro de 2024) ↩