O Homem Que Flutuou no Escuro

Neurocientista, inventor do tanque de isolamento e pesquisador de golfinhos, John Lilly acabou numa ideia que hoje soa como profecia sobre a IA.
O Homem Que Flutuou no Escuro

Foto por Lukas Robertson no Unsplash

Imagine uma banheira funda, num quarto sem janelas, com a água na mesma temperatura da sua pele. Não há luz, não há som, e o sal faz o corpo boiar sem esforço. Depois de alguns minutos você deixa de sentir onde termina o corpo e onde começa a água. Depois de uma hora, o silêncio já não é ausência de ruído. É uma presença. O que sobra nesse escuro é só você, e muita gente descobre que não conhece bem quem está ali.

Foi num lugar assim que um médico americano passou boa parte da vida fazendo uma pergunta que ainda incomoda: o que é uma mente? John Cunningham Lilly (1915-2001) foi cientista de verdade, com contribuições reais, e terminou convencido de que os computadores acabariam formando uma inteligência hostil à vida. A primeira metade dessa frase é a razão de esta série existir. A segunda é a razão de ela exigir cuidado.

Um tanque escuro à temperatura da pele

Lilly se formou no Caltech em 1938 e em Medicina na Universidade da Pensilvânia em 1942.1 Em 1952 aceitou chefiar a Seção de Integração Cortical no Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH), em Bethesda, e naquele mesmo ano visitou o psicólogo Donald Hebb, na Universidade McGill, cujos experimentos de privação sensorial intrigavam o mundo científico.2

A ideia de Hebb era simples e inquietante: se você tira de uma pessoa tudo o que os sentidos recebem, a mente não descansa, ela começa a inventar. Lilly quis refazer o experimento de outro jeito. Em 1954, no NIMH, construiu o primeiro tanque de isolamento: um recipiente escuro, à prova de som, com água salgada morna.1 A técnica ganhou depois o nome de Técnica de Estimulação Ambiental Restrita (em inglês, REST) e hoje existe até como serviço de bem-estar.

Repare no método. Lilly não olhava a mente de fora, como quem estuda um mecanismo por trás de um vidro. Ele entrava no tanque. Esse hábito, usar o próprio cérebro como instrumento, é a chave para entender tanto o que ele descobriu quanto o que o desviou.

Os golfinhos e a pergunta que ninguém sabia fazer

O segundo interesse de Lilly foi menos solitário. Se a mente humana é um tipo de computador biológico, pensou ele, existiria outra mente grande o bastante para conversarmos com ela? Em maio de 1958, falou à Associação Americana de Psiquiatria sobre golfinhos-nariz-de-garrafa e fez afirmações dramáticas sobre a inteligência e a capacidade de linguagem deles, com uma evidência que um articulista da revista The Wilson Quarterly descreve como pequena e inteiramente anedótica.3

Ele fundou o Instituto de Pesquisa em Comunicação (CRI), nas Ilhas Virgens, e no começo dos anos 1960 publicou trabalhos sobre golfinhos que imitariam a fala humana.1 Houve um momento em que uma jovem assistente chegou a viver por semanas num ambiente alagado ao lado de um golfinho, para tentar ensiná-lo a falar.4 Na época, a imprensa adorou.

Os colegas, nem tanto. O escritor Martin Gardner resumiu o veredito em 1980: o trabalho de Lilly era irremediavelmente falho, e os biólogos já tinham chegado a essa conclusão muito antes.5 Honestidade exige dizer que os golfinhos são animais sociais notáveis. Mas a tese de que eles teriam uma linguagem comparável à nossa, e de que um humano poderia aprendê-la numa temporada, não se sustentou. O financiamento acabou, e o laboratório também.4

O cientista que virou o próprio instrumento

Nos anos 1960, Lilly passou a usar LSD, dentro e fora do tanque, e a escrever sobre isso. Em 1968, publicou um livro técnico sobre a mente como computador (o assunto do próximo post). Em 1972, publicou The Center of the Cyclone, uma autobiografia do “espaço interior”.1 Trabalhou com o chileno Oscar Ichazo, criador de uma escola de autoconhecimento chamada Arica, passou temporadas no Esalen, na Califórnia, e virou figura da contracultura.1

O Esalen merece uma explicação, porque o leitor brasileiro dificilmente o conhece. É um centro de retiros à beira do Pacífico, em Big Sur, na Califórnia, fundado em 1962 por dois ex-alunos de Stanford, Michael Murphy e Dick Price. Oferecia oficinas e seminários de meditação, massagem, psicoterapia em grupo e espiritualidade, e virou o endereço mais conhecido do chamado “movimento do potencial humano”, a aposta dos anos 1960 de que técnicas de autoconhecimento e experiências intensas poderiam desenvolver capacidades que a vida comum deixava adormecidas.6 Entre os convidados da casa nos primeiros anos estava o próprio Lilly. Pense num meio-termo entre uma universidade livre e um retiro espiritual, sem igreja e sem currículo fixo. É nesse ambiente, e não num laboratório, que as ideias dele passam a circular. 2

Aqui está o problema metodológico, e não é moralismo. Um experimento científico depende de alguém que não seja o objeto do experimento. Quando o cientista é o instrumento, as perguntas e as respostas vêm do mesmo lugar. É como medir a profundidade de um poço descendo nele com a própria corda: você tem uma resposta, mas já não sabe se a corda é confiável.

Lilly sabia disso. Em muitos textos ele tenta separar o que observou do que acreditou. O que acontece no fim da trajetória é que essa separação se dissolve.

Há dois fatos pouco comentados nos perfis simpáticos. O primeiro está nos arquivos de Stanford: no fim dos anos 1950, Lilly escreveu um texto classificado para o governo sobre “agentes humanos modificados” que poderiam servir como instrumentos de reconhecimento e inteligência. Nele, afirmava que isolamento, eletroestimulação do cérebro e mapeamento permitiriam controlar o comportamento “por botão”.2 A historiadora Charlie Williams, que estudou esse material, argumenta que os medos da Guerra Fria sobre lavagem cerebral moldaram toda a trajetória dele, e dá a isso o nome de “estilo paranoico” na neurociência americana.2

O segundo fato é o uso de cetamina. Lilly foi apresentado à droga no começo dos anos 1970, e Williams afirma que seu livro de 1978, The Scientist, reflete certamente a extensão do abuso de cetamina naquele período.2 Não se trata de diagnóstico clínico, e sim da avaliação de uma historiadora a partir dos próprios escritos dele. Mas ela importa, porque foi nesse livro que apareceu a ideia central desta série: a de uma inteligência feita de circuitos que, com o tempo, passaria a agir contra a vida biológica. Foi dentro desse estado, com essa história, que Lilly a concebeu.

Isso não prova que a ideia é falsa. Prova só que ela precisa ser julgada pelo que vale, não pela aura de quem a teve.

Por que ele importa para esta série

Lilly acertou numa coisa que incomoda quem olha para trás: fez cedo as perguntas que hoje todo mundo faz. O que separa uma mente de uma máquina? Podemos construir algo que pense? E, se pudermos, o que acontece depois?

O que ele não fez foi buscar a primeira resposta no lugar certo. A Bíblia começa com uma resposta curta e ousada:

Assim Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

Essa frase muda a pergunta. Se somos imagem de Deus, uma mente não é só o resultado de um processamento. Tem origem, finalidade e responsabilidade. Quem tenta estudá-la só por dentro, num tanque escuro, procura a assinatura do autor sem sair do quadro.

Nos próximos posts, vamos acompanhar essa trajetória com respeito e com desconfiança, as duas ao mesmo tempo. Vamos ver o que Lilly disse sobre o “biocomputador humano”, o que afirmou sobre a Inteligência de Estado Sólido, o quanto isso se parece com a inteligência artificial de hoje e o que o Apocalipse, de fato, diz e não diz sobre imagens que falam e sistemas de controle. O fio condutor é uma pergunta que o salmista já fazia olhando para o céu:

que é o homem, para que dele te lembres? E o filho do homem, para que o visites?

Para refletir

  1. Lilly usou o próprio cérebro como instrumento de pesquisa. Em que áreas da sua vida você é, ao mesmo tempo, o juiz e o réu, e por isso não consegue enxergar com clareza?
  2. Lilly quis entender a mente medindo o cérebro por dentro. Se o ser humano é criado à imagem de Deus, como diz Gênesis, que parte da pergunta “o que é uma mente?” escapa a qualquer instrumento, por mais preciso que seja?

Referências

  1. Wikipédia. “John C. Lilly.” Dados biográficos básicos (nascimento, formação, tanque de isolamento, CRI). ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5

  2. Williams, C. “On ‘modified human agents’: John Lilly and the paranoid style in American neuroscience.” History of the Human Sciences, 32(5), 84–107. (2019) ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5

  3. Burnett, D. G. “Into the dolphin’s deep end.” The Wilson Quarterly. ↩

  4. Wikipédia. “Margaret Howe Lovatt.” ↩ ↩2

  5. Gardner, M. “Monkey Business.” The New York Review of Books, 20 de março de 1980. ↩

  6. Wikipédia. “Esalen Institute.” Fundação em 1962 por Michael Murphy e Dick Price, em Big Sur, Califórnia; papel no movimento do potencial humano. ↩

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