Por Que Agimos Como Donos?

Mordomo é quem administra o que não é dele. A Bíblia aponta quatro motivos pelos quais esquecemos isso, e todos começam no coração.
Por Que Agimos Como Donos?

Foto por Jakub Żerdzicki no Unsplash

Imagine que um amigo lhe entrega as chaves da casa dele antes de uma viagem sem data certa para acabar. Nas primeiras semanas, você cuida de tudo com um zelo quase exagerado: rega as plantas no horário, não mexe nos móveis, lava a louça antes de sair. Passam-se os meses, e não chega carta, mensagem nem telefonema. Você muda uma poltrona de lugar porque fica melhor assim, convida gente para jantar, troca a lâmpada da sala por uma que combina mais com você. Passam-se os anos. Um dia, sem perceber, você diz “a minha casa”. Ninguém lhe deu a casa. A escritura continua no nome do amigo. O que mudou foi o silêncio: quanto mais longe o dono fica, mais fácil é esquecer que ele existe, e a posse nasce desse esquecimento.

Paulo descreve o ofício cristão exatamente com essa figura:

Assim, pois, importa que todos nos considerem como ministros de Cristo e encarregados dos mistérios de Deus. Ora, além disso, o que se requer destes encarregados é que cada um deles seja encontrado fiel.

A palavra que a NAA traduz por “encarregado” é oikonomos, o administrador da casa. No mundo greco-romano, era quase sempre um escravo ou liberto de confiança a quem o proprietário entregava a gestão dos bens, as receitas e as despesas, e a distribuição da porção devida a cada servo.1 É o mesmo termo que Jesus usa em Lc 12:42 para o “mordomo fiel e prudente”. O mordomo tem as chaves de tudo e não é dono de nada. E o que se exige dele não é sucesso; é fidelidade.

Se a figura é tão clara, a pergunta deste texto se impõe sozinha: por que é tão fácil agirmos como donos? A Bíblia dá pelo menos quatro respostas, e nenhuma delas é lisonjeira.

Porque a tentação é mais antiga que o dinheiro

Repare no que a serpente oferece no Éden. Não é riqueza; Adão e Eva já tinham um jardim inteiro. Não é prazer; tudo ali era bom para comer. A oferta é outra:

Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerem, os olhos de vocês se abrirão e, como Deus, vocês serão conhecedores do bem e do mal.

A serpente ofereceu autonomia. O casal morava numa casa que não era dele e podia usar tudo, menos uma árvore. Aquela árvore era a única coisa no jardim que lembrava, todo dia, que havia um Dono. Comer dela não foi um deslize de apetite; foi a decisão de deixar de ser mordomo. O primeiro pecado humano foi, literalmente, querer ser dono.

Isso explica por que agir como dono não parece esforço nenhum. Não é um hábito que adquirimos; é a inclinação de fábrica do coração depois da queda. O que exige esforço é o contrário. O Catecismo de Heidelberg, de 1563, abre perguntando qual é o único consolo do cristão na vida e na morte, e a resposta começa assim: “Que não pertenço a mim mesmo, mas pertenço de corpo e alma, tanto na vida quanto na morte, ao meu fiel Salvador Jesus Cristo.”2 É a oferta da serpente de cabeça para baixo. A serpente disse: você pode ser seu. O evangelho responde: você nunca foi, e essa é a melhor notícia que existe. Paulo diz o mesmo aos coríntios, sem rodeios, em 1Co 6:19-20: vocês não pertencem a vocês mesmos.

Porque o esforço é visível e a graça não é

Deus avisou Israel, ainda no deserto, de onde viria o perigo. Não da escassez. Da fartura:

— Portanto, não pensem: “A minha força e o poder do meu braço me conseguiram estas riquezas.” Pelo contrário, lembrem-se do Senhor, seu Deus, porque é ele quem lhes dá força para conseguir riquezas; para confirmar a sua aliança, que, sob juramento, prometeu aos pais de vocês, como hoje se vê.

O mecanismo é simples e quase inocente. Nós vemos as horas trabalhadas, o diploma na parede, o salário que cai na conta. Não vemos a saúde que permitiu trabalhar, o país e a família em que nascemos, as portas que se abriram sem mérito nosso, o fôlego de cada manhã. O esforço deixa recibo; a graça não deixa. E quando só uma das colunas aparece na planilha, a conta fecha errado: a vida inteira parece ter sido comprada com o meu suor. Por isso o aviso vem para a fartura: quanto mais as coisas dão certo, mais fácil esquecer de onde vieram.

Paulo faz a pergunta que desmonta essa contabilidade em 1Co 4:7: o que você tem que não tenha recebido? C. S. Lewis leva o argumento até o fim em Cristianismo Puro e Simples. Toda faculdade que você possui, a capacidade de pensar, de mover os braços, veio de Deus; por isso, mesmo dedicando cada minuto da vida ao serviço dele, você não conseguiria dar a Deus nada que já não fosse dele. E então vem a imagem: é como uma criança que vai ao pai e pede uma moeda para comprar um presente de aniversário para o próprio pai. O pai dá, e fica feliz com o presente. Tudo muito bonito, mas só um tolo acharia que o pai saiu lucrando uma moeda na transação.3

Isso não torna o esforço inútil nem o presente desprezível. Torna impossível a pose de dono. Quem sabe de onde veio a moeda não deixa de dar o presente; só deixa de se gabar dele.

Porque o Dono parece demorar

Na mesma parábola em que fala do mordomo fiel, Jesus descreve o outro servo:

Mas o que acontecerá se aquele servo disser consigo mesmo: “Meu senhor demora para vir”, e começar a espancar os empregados e as empregadas, a comer, a beber e a embriagar-se?

Repare que o servo não deixou de ser servo. Ninguém lhe deu a casa. Ele passou a agir como dono por um motivo só: o Dono não estava à vista. E os sintomas são dois, bem concretos: começou a mandar nos outros e começou a consumir o que deveria distribuir. Não há nada de teórico nisso. Toda vez que uso a autoridade que recebi para me servir em vez de servir, e toda vez que gasto comigo o que me foi entregue para repartir, estou repetindo o raciocínio daquele servo.

A raiz é uma percepção falsa de tempo. Como não vemos Deus pedindo contas hoje, administramos a vida como se ninguém fosse pedir nunca. Mas a parábola não diz que o Dono está ausente. Diz que ele está voltando, e que a cobrança será proporcional ao que foi confiado: Lc 12:48. A igreja canta isso há gerações em “Vencendo vem Jesus”, e talvez cante com tanta familiaridade que já não ouve a implicação: se ele vem, cada chave que tenho na mão vai ser devolvida.

Porque segurar parece seguro

A quarta razão é a menos óbvia, porque não se parece com orgulho. Parece prudência.

— Chegando, por fim, o que tinha recebido um talento, disse: “Sabendo que o senhor é um homem severo, que colhe onde não plantou e ajunta onde não espalhou, fiquei com medo e escondi o seu talento na terra; aqui está o que é seu.”

O servo de um talento não roubou nada. Devolveu exatamente o que recebeu, e justificou a inércia com a imagem que tinha do senhor: um homem duro, de quem é melhor não esperar nada. O rico insensato de Lucas 12 faz o movimento oposto na aparência e idêntico no fundo: em vez de enterrar, acumula. Constrói celeiros maiores e diz à própria alma, em Lc 12:19, que agora pode descansar. Um esconde por medo, o outro estoca por medo. Os dois agem como donos porque nenhum dos dois confia no Dono.

É por isso que Jesus junta, no Sermão do Monte, dois assuntos que costumamos tratar separados. Primeiro, em Mt 6:24, ninguém pode servir a Deus e às riquezas. Logo em seguida, em Mt 6:25, não se preocupem com a sua vida. Ganância e ansiedade saem da mesma raiz. Acumular, controlar e não abrir mão são, muitas vezes, menos sintoma de cobiça do que de medo; e o medo, por sua vez, é sintoma de uma imagem distorcida de Deus. A forma como enxergamos o Dono define a forma como administramos o que ele nos deu.

O problema não é ter

Convém dizer o que a mordomia não é, porque a palavra já foi usada para fazer gente se sentir culpada por ter geladeira. Diante das pessoas, somos donos de fato. A escritura da casa está no nosso nome, e o mandamento de Êx 20:15 existe justamente para proteger essa propriedade; a Bíblia leva a posse legítima tão a sério que fez dela uma das dez palavras do Sinai, como já tratei em outro texto. A mordomia não anula nada disso. Ela só acrescenta uma camada: diante de Deus, tudo o que é “meu” diante dos homens continua sendo dele. Sl 24:1 não é figura de linguagem.

O problema, portanto, não é ter. É esquecer de quem é aquilo que temos. E as quatro razões deste texto são quatro formas de esquecer: a vontade antiga de ser dono de si, a contabilidade que só registra o esforço, a sensação de que o Dono não volta e o medo de que ele não proveja. Juntas, elas explicam por que a casa do amigo vai virando “minha casa” sem que ninguém mude a escritura.

Paulo resume o antídoto numa frase que serve para o escritório, a cozinha e a conta bancária: Cl 3:23. “Como para o Senhor” é a frase de um mordomo. Ele trabalha com empenho, porque o que tem na mão é valioso; e trabalha sem angústia, porque o que tem na mão não é dele.

Fica, então, a pergunta que um grupo pequeno levou para casa numa noite de domingo, e que serve para qualquer leitor: se o Dono pedisse contas destes últimos sete dias, do seu tempo, do seu dinheiro e dos seus talentos, que área você gostaria de ter administrado diferente? Não é uma pergunta para responder depressa. É a pergunta que o telefone faz quando toca avisando que o amigo volta na sexta.

Referências

  1. THAYER, J. H. Verbete oikonomos (G3623), Thayer’s Greek Lexicon. Blue Letter Bible. ↩

  2. O Catecismo de Heidelberg, Dia do Senhor 1, Pergunta 1. (1563). Tradução em português publicada em heidelberg-catechism.com. ↩

  3. LEWIS, C. S. Mere Christianity, livro III, capítulo 11, “Faith”. HarperOne (2001). Paráfrase e tradução livre do original; edição brasileira: Cristianismo Puro e Simples, Thomas Nelson Brasil (2017). ↩

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