Por Que Seguimos Olhando Para Trás?

Quem não tem um alvo vive de retrovisor. Paulo, preso em Roma, mostra como esquecer o que ficou para trás e correr para o que está à frente.
Por Que Seguimos Olhando Para Trás?

Foto por lucas Favre no Unsplash

O retrovisor é uma peça excelente. Custa pouco, salva vidas e ocupa um cantinho do para-brisa. Agora imagine um motorista que faz da viagem inteira uma conversa com o retrovisor: vê a rua que passou, confere se ninguém o segue, lamenta a curva que errou três quilômetros atrás. O carro anda, mas ele não está indo a lugar nenhum. Está só se afastando.

Muita gente vive assim, e quase ninguém percebe. Medimos o presente pelo que já fomos: “no meu tempo era melhor”, “se eu não tivesse errado naquela época”, “olha tudo o que eu já fiz”. O passado vira régua, álibi e consolo ao mesmo tempo. A tese deste texto é que isso raramente é saudade pura. Quem consulta o retrovisor o tempo todo costuma estar sem destino no para-brisa. O passado ocupa o lugar que um propósito sólido deixou vago.

Paulo, que tinha um passado de sobra para exibir e outro de sobra para esconder, escreveu uma das frases mais objetivas da Bíblia sobre o assunto:

Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficam para trás e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.

Repare no número: “uma coisa faço”, não dez. Só quem tem um alvo único consegue dizer isso. O resto do texto mostra como Paulo chegou lá.

A memória edita o que quer

A saudade é uma péssima historiadora, porque guarda o pão e joga fora a escravidão. O povo de Israel, poucas semanas depois de sair do Egito, já estava reclamando:

Quem nos dera tivéssemos morrido pela mão do Senhor na terra do Egito, quando estávamos sentados junto às panelas de carne e comíamos pão à vontade!

Depois, na mesma toada:

Lembramos dos peixes que comíamos de graça no Egito. Que saudade dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos!

Repare no que a lembrança deixou de fora. O próprio livro de Êxodo já tinha contado como era a vida naquela terra: servidão dura, barro e tijolos, trabalho imposto com tirania (Ex 1:14). Os “peixes de graça” saíam do preço de uma vida inteira sem dono. A memória fez o que memórias fazem sob pressão: ficou com os pepinos e esqueceu os tijolos.

E há um segundo detalhe, mais incômodo. Eles estavam no deserto, sem comida nem destino visível, e foi aí que o Egito ficou bonito. Enquanto a terra prometida era só uma promessa, o passado era o único lugar com paisagem.

Quem não tem destino usa o passado como régua

Quando falta um ponto de chegada, o passado ocupa o espaço disponível. Pode ocupá-lo de dois jeitos: como troféu (“já fui alguém”) ou como tribunal (“nunca vou me perdoar”). São faces da mesma moeda, porque nos dois casos o presente é avaliado por algo que já terminou.

A pesquisa em psicologia aponta na mesma direção, ainda que sem pretensão teológica. Os psicólogos Patrick Hill e Nicholas Turiano acompanharam mais de seis mil adultos americanos durante 14 anos e observaram que quem declarava mais propósito na vida teve menor risco de morrer no período, em todas as faixas de idade, mesmo descontados outros indicadores de bem-estar.1 Isso mostra uma associação, não prova de causa. Mas sugere que ter uma direção faz diferença real, mensurável, para além do “sentir-se bem”.2

Jesus foi ainda mais direto, e com uma imagem de trabalho braçal:

Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus.

Quem já viu alguém arar sabe do que se trata. Sulco reto exige olho fixo num ponto adiante; quem vira o pescoço para conferir o serviço feito entorta o que ainda falta fazer. Não é uma ameaça. É uma observação de ofício.

Em outra ocasião, Jesus resumiu o aviso em cinco palavras:

Lembrem-se da mulher de Ló.

O que ela fez, segundo o relato, foi só isto:

E a mulher de Ló olhou para trás e virou uma estátua de sal.

Ela já tinha saído da cidade condenada, mas o coração ficou lá. Quem vive virado para trás acaba, de algum modo, paralisado.

O currículo que Paulo deixou de usar

Paulo não tinha pouco passado para esquecer. Poucos homens carregavam tanto do que se orgulhar e tanto do que se envergonhar. Antes do versículo central, ele faz o inventário:

fui circuncidado no oitavo dia, sou da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, eu era fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível.

Observe que a lista traz as duas coisas: o orgulho e a vergonha. “Hebreu de hebreus” é currículo; “perseguidor da igreja” é culpa. Paulo coloca as duas na mesma coluna e diz o que faz com elas:

Mas o que para mim era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo.

O comentarista A. T. Robertson observa que Paulo pode estar falando da vida anterior à conversão, do progresso cristão posterior, ou de ambos.3 A leitura que cabe nas duas hipóteses é a mais simples: “esquecer”, aqui, não é perder a memória. Paulo continua sabendo muito bem que perseguiu a igreja; acabou de escrever isso. Esquecer é deixar de usar o passado como fundamento, seja para se gabar, seja para se condenar.

A outra metade dessa libertação, ele a escreve aos romanos:

Agora, pois, já não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus.

Quem está nessa situação pode recordar o erro sem que o erro mande nele. A cruz não apaga a história; muda quem tem autoridade sobre ela. Vale a pena ler junto o post sobre o Homem Novo e o velho Adão, que trata da mesma troca de identidade por outro caminho.

Esticado para a frente, de dentro de uma prisão

A carta aos Filipenses foi escrita por um homem preso. Paulo conta que sua prisão virou assunto até entre os guardas do palácio (Fp 1:13). Se alguém tinha motivo concreto para viver olhando para trás, era ele: liberdade perdida, planos interrompidos, o futuro nas mãos de um tribunal romano. E é desse lugar que escreve “prossigo”.

O verbo que ele usa para “avançando” é composto, e Robertson traduz a imagem como a de um corredor inclinado para a frente, em plena corrida.3 A palavra grega traduzida por “alvo” (skopos) designa o ponto distante em que o olho se fixa, e a do “prêmio” (brabeion) vem do árbitro que entrega a premiação no fim da prova. Paulo usa o mesmo cenário em outra carta:

Vocês não sabem que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Corram de tal maneira que ganhem o prêmio.

Uma observação importante: o propósito de Paulo não é inventado por ele. Antes de falar do alvo, ele admite que ainda não chegou e que corre “para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp 3:12). Primeiro ele foi alcançado; só depois passou a correr. A corrida não nasce de autoestima, ambição ou plano de carreira. Nasce de ter sido chamado.

É isso que dá a um propósito a solidez que falta aos projetos pessoais: ele não depende de eu estar bem, de o ano ter sido bom, nem de a sentença sair a meu favor. A carta aos Hebreus resume a fórmula:

olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, sem se importar com a vergonha, e agora está sentado à direita do trono de Deus.

Quem olha para Jesus tem o que olhar. Isso muda a postura do pescoço.

Esquecer não é perder a memória

Há uma objeção honesta a tudo isso, e ela merece resposta. A própria Bíblia manda lembrar. Moisés diz ao povo:

Lembrem-se de todo o caminho pelo qual o Senhor, seu Deus, os guiou no deserto durante estes quarenta anos, para humilhar vocês, para pôr vocês à prova, para saber o que estava no coração de vocês, se guardariam ou não os seus mandamentos.

E Isaías, falando em nome de Deus, parece dizer o contrário:

Não fiquem lembrando das coisas passadas, nem pensem nas coisas antigas.

A contradição some quando se pergunta a que serve cada lembrança. Moisés manda lembrar o que Deus fez, como quem confere o mapa: foi por aqui que ele nos trouxe, então é por aqui que podemos confiar. Isaías, e Paulo, mandam largar o passado que serve de âncora: o que fomos, o que perdemos, o que já ganhamos. Uma lembrança aponta para a fidelidade de Deus e empurra para a frente. A outra aponta para mim e me prende onde estou.

A mesma passagem de Isaías explica o motivo:

Eis que faço uma coisa nova. Agora mesmo ela está saindo à luz. Será que vocês não o percebem?

Quem está de costas não percebe. Não é castigo; é geometria.

Na prática, vale fazer ao fim do dia três perguntas, nessa ordem:

  1. Para onde estou indo? Se a resposta é vaga, o retrovisor vai ocupar o espaço.
  2. Do passado que visito, o que serve de mapa e o que serve de âncora?
  3. O que Cristo já resolveu e eu insisto em reabrir como se fosse meu caso?

O livro de Provérbios põe o conselho em forma de postura:

Que os seus olhos olhem direito, e que as suas vistas se fixem no que está diante de você.

O retrovisor continua no carro, e que bom que continua. Ele só precisa ser olhado de relance, enquanto a atenção inteira fica onde a estrada vai dar. Para isso, é preciso saber para onde ela vai.

Referências

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