Então, Como o Cristão Vota?

As quatro premissas de Skousen viram um teste de discernimento: não para escolher um partido, mas para notar o que qualquer proposta pressupõe.
Então, Como o Cristão Vota?

Foto por Arnaud Jaegers no Unsplash

Em poucas palavras

  • Este texto não recomenda partido nenhum. Ele devolve ao leitor um teste de discernimento, não uma lista de nomes.
  • As quatro premissas que sustentam o projeto marxista (sem Deus, sem natureza humana fixa, sem moral inata, sem lugar para a religião) servem de régua para qualquer proposta política, não só para quem se declara socialista.
  • A mesma régua também mede o lado oposto: um Estado mínimo que vira ídolo falha no mesmo teste, por outro caminho.
  • No fim, votar não é escolher uma torcida. É prestar contas a Deus pelo poder que se entrega a outro homem.

Um fiscal sanitário não decide se um alimento é seguro pela marca estampada na embalagem. Ele manda uma amostra para o laboratório e aplica o mesmo teste químico a qualquer produto que chegue à mesa (pão artesanal ou industrializado, marca querida ou desconhecida). O rótulo não importa. O que importa é o que está dentro.

Esta série passou dez textos examinando o que está dentro do projeto marxista: a antropologia, a estratégia cultural, a relação com o Estado, o resultado histórico, a melhor defesa do lado contrário. Este texto converte esse exame em um teste de discernimento: as quatro premissas que sustentam o projeto marxista, já estudadas ao longo da série, servem de régua que qualquer leitor pode aplicar sozinho a qualquer proposta política, de qualquer lado, antes de entrar na cabine de votação.

Um teste, não uma lista de partidos

Nenhum partido brasileiro vai ser nomeado neste texto; isso não é cautela editorial, é coerência com o que esta série prometeu desde o primeiro dia: um recorte teórico e universal, sobre ideias, não sobre siglas.

O apóstolo João deixou um mandamento que vale tanto para teologia quanto para qualquer outra área em que uma ideia pede para ser aceita sem exame:

Amados, não deem crédito a qualquer espírito, mas provem os espíritos para ver se procedem de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído mundo afora.

“Provar os espíritos” não é desconfiar de tudo por princípio, nem é aceitar tudo por educação. É aplicar um teste antes de dar crédito. As quatro premissas que W. Cleon Skousen atribuiu ao projeto comunista (nenhuma delas inventada por ele, cada uma delas já examinada nos textos anteriores desta série) funcionam exatamente assim: não como uma ficha de identificação partidária, mas como um teste que qualquer proposta política pode passar ou reprovar, de esquerda a direita.

A primeira premissa: nada acima do Estado

Toda proposta política responde, mesmo sem dizer isso em voz alta, a uma pergunta mais funda: existe alguma coisa acima do poder que está sendo pedido ao eleitor?

A primeira premissa do teste nega que exista. Se tudo surgiu por acaso, sem Deus, então não sobra nenhuma autoridade moral anterior ao Estado, só o próprio Estado, decidindo sozinho o que é certo.1 Abraham Kuyper chamou o contrário disso de soberania das esferas: família, igreja e Estado recebem autoridade direta de Deus, e o poder político só reconhece essa autoridade, nunca a concede.2 Aplicada como teste, a primeira premissa vira uma pergunta prática: essa proposta trata a moral pública como algo que o governo define, ou como algo que o governo apenas reconhece, sem poder revogar? Um projeto que precisa que a família, a igreja ou a consciência individual se calem para funcionar já reprovou no primeiro item.

A segunda e a terceira premissas: um homem sem natureza fixa e sem moral inata

Toda proposta política também carrega, dentro da letra miúda, uma aposta sobre o que é o ser humano, e é exatamente o ponto em que a maioria dos eleitores nunca se detém.

A segunda e a terceira premissas do teste andam juntas: o homem é só um animal mais desenvolvido, e não existe certo ou errado inato, apenas o que cada arranjo social decide chamar de moral.3 Um projeto construído sobre essa base, de esquerda ou de direita, tende a tratar qualquer resistência à sua reforma como simples resíduo de uma estrutura antiga, nunca como um limite real da natureza humana. Salomão pediu a Deus exatamente o oposto disso, ao assumir o trono:

Dá, pois, ao teu servo coração compreensivo para governar o teu povo, para que, com prudência, saiba discernir entre o bem e o mal. Pois quem seria capaz de governar este teu grande povo?

Repare no que Salomão não pediu. Não pediu poder para definir o que é bem e mal para o seu povo. Pediu discernimento para reconhecer uma distinção que já existia antes de ele subir ao trono. Viradas em teste, a segunda e a terceira premissas fazem uma só pergunta: a proposta política pressupõe um homem com natureza fixa, capaz de dignidade e de corrupção ao mesmo tempo, ou um homem infinitamente moldável, matéria-prima à espera de uma reforma de estruturas?3 E a mesma régua vale para o lado oposto do espectro: um discurso que trata o mercado livre como se bastasse, por si só, para endireitar qualquer coração humano, sem nenhuma conversão de verdade, está cometendo o erro gêmeo, só que do lado oposto.

A quarta premissa: nenhum lugar para a fé, a família e a igreja

A quarta premissa fecha o círculo: toda religião, mais cedo ou mais tarde, precisa cair.1 Um projeto que parte daí não precisa perseguir igrejas abertamente para reprovar no teste. Basta que ele precise, para funcionar, que a fé encolha; que a escola, a cultura e a lei tratem a crença religiosa como gosto pessoal, nunca como visão de mundo com direito à praça pública.4

Como teste, a quarta premissa é a mais fácil de aplicar e a mais fácil de esquecer: esta proposta precisa que a igreja e a família fiquem menores para que ela cresça? Ou ela reconhece que essas duas esferas respondem a um Soberano que nenhum partido pode substituir?2 Um projeto que só funciona esvaziando essas duas trincheiras já mostrou, antes de qualquer discurso de campanha, que lugar reserva para Deus no seu mapa do poder.

O voto como prestação de contas

Dez textos atrás, esta série abriu com uma frase: votar é entregar a alguém o poder de mandar na vida do próximo, e isso é um ato moral. Vale a pena revisitar, num só fôlego, o caminho percorrido. A Bíblia trata o homem como mordomo, não dono absoluto, e o Estado como ministro de Deus, não substituto da família ou da igreja. Os primeiros cristãos partilhavam bens por devoção, nunca por lei. O projeto de fabricar um homem novo por decreto esbarra sempre na mesma natureza humana que a Bíblia já descrevia há milênios.3 A arma mais eficaz não é um exército, é uma sala de aula que ensina o acaso como se fosse neutro.1 A verdadeira batalha, Gramsci já sabia, se trava na cultura antes de se travar na urna.4 Um poder que tenta ser tudo piora tudo o que tentava fazer bem.2 A história do século vinte já aplicou essas premissas em escala real, e o resultado está documentado.5 A melhor defesa do outro lado mostrou que dá para levar o pobre a sério sem precisar de nenhuma das quatro premissas.6 E o texto anterior a este lembrou que a mesma idolatria política pode vestir, com a mesma facilidade, um uniforme de direita.

Nenhuma dessas quatro premissas decide sozinha em quem você deve votar. Elas decidem se você está votando de olhos abertos ou de olhos fechados. E o voto, no fim, não presta contas ao partido nem ao candidato:

Assim, pois, cada um de nós prestará contas de si mesmo diante de Deus.

Isso inclui a cabine de votação. O cristão que aplicou o teste, examinou as quatro premissas e ainda assim escolheu um caminho diferente daquele que este texto sugere não cometeu, só por isso, um pecado; esta série recusou, desde o primeiro texto, virar panfleto para um lado só. Mas o cristão que nunca aplicou teste nenhum, que votou pela cor da camisa ou pelo carisma do candidato, não vai poder alegar inocência diante de Deus por ignorância que ele mesmo escolheu manter. A pergunta final não é em quem você vota, mas que visão do homem, de Deus e do bem você está ajudando a colocar no poder.

O texto final desta série volta a cada uma das perguntas de “Para refletir” destes onze textos, não como um questionário para corrigir, mas como um ensaio para pensar em voz alta sobre as respostas.

Para refletir

  1. Das quatro premissas deste texto, qual você nunca tinha testado numa proposta antes de votar?
  2. Você consegue pensar numa proposta política, de qualquer lado, que reprove no teste da segunda e da terceira premissas, que trate o homem como infinitamente moldável?
  3. O que muda, na hora de analisar um candidato, saber que a régua vale igualmente para a esquerda e para a direita?
  4. Se alguém pedisse para resumir, numa frase, por que votar é um ato espiritual e não só político, o que você diria depois de ler esta série?

Referências

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