Em poucas palavras
- A “arma secreta” que Skousen descreve não é um exército nem uma bomba; é ensinar, como se fosse neutro, que o universo é só matéria e acaso (a primeira das quatro premissas que ele atribui ao comunismo).
- A história tem exemplos de gente bem formada, inclusive cientistas, que serviu a essa ideologia convencida de estar servindo à humanidade.
- A tese de que o marxismo tem raiz satânica precisa ser lida como juízo teológico, não como fato histórico provado; não existe prova de que Marx participou de qualquer culto.
- A citação mais repetida contra o Manifesto Comunista está fora de contexto. A evidência mais forte do que o materialismo faz quando chega ao poder não é uma frase isolada; é um documento de arquivo.
Peça a um professor de física do ensino médio que diga, em sala de aula, se Deus existe. A resposta correta, do ponto de vista pedagógico, é não responder: física explica movimento, energia e matéria, não a existência de um Criador. Até aqui, nenhum problema. O problema começa quando essa ausência de resposta é ensinada, nos bastidores, como se fosse a resposta, quando “a ciência não fala de Deus” vira, sem ninguém dizer em voz alta, “não existe Deus”. A disciplina que deveria ficar calada sobre a questão passa a presumir, sem provar, que a questão já foi resolvida.
É essa confusão, em escala de civilização, que W. Cleon Skousen tinha em mente ao chamar a educação ocidental de “arma secreta” do comunismo. Skousen foi agente do FBI antes de escrever O Comunista Exposto (1958, lançado no Brasil pela Vide Editorial em 2018) e também foi uma figura de destaque na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, os mórmons1 (vale ter isso em mente nos trechos mais confessionais do livro, mesmo quando o argumento específico aqui discutido não depende disso).
Uma arma que não precisa de fuzil
Na quinta de suas “perguntas vitais”, Skousen argumenta que o Ocidente nunca seria vencido por exércitos, porque tinha exércitos fortes demais para isso.2 A vitória, segundo ele, viria de dentro: formando, nas próprias escolas e universidades ocidentais, gerações que aceitassem como óbvias quatro premissas que sustentam o projeto marxista: que tudo surgiu por acaso, sem Deus; que o homem é só um animal mais desenvolvido; que não existe certo ou errado por natureza; e que toda religião, mais cedo ou mais tarde, precisa cair.
As duas premissas do meio, sobre a natureza humana, já apareceram no texto anterior desta série, e não vou repetir o argumento aqui. O que interessa agora é a primeira premissa (e, no fim deste texto, a quarta). Porque a primeira não chega à sala de aula como uma tese filosófica, de capa e assinatura. Chega como pano de fundo, como aquilo que “todo mundo sabe” antes mesmo de abrir o livro:
Diz o insensato no seu coração: “Não há Deus.” São corruptos e praticam abominação; já não há quem faça o bem.
O salmista não está descrevendo um debate acadêmico. Está descrevendo uma disposição do coração que se traveste de conclusão racional. E é exatamente essa disposição (travestida, dessa vez, de neutralidade científica) que, segundo Skousen, vira currículo sem que ninguém precise assinar embaixo.
O cientista que achava que estava ajudando a humanidade
Em setembro de 1945, um funcionário da embaixada soviética em Ottawa chamado Igor Gouzenko desertou levando uma pasta de documentos. O escândalo que se seguiu revelou uma rede de espionagem soviética dentro do governo e da comunidade científica canadenses.3 O nome mais notório era o do físico britânico Alan Nunn May, que trabalhava no programa conjunto britânico-canadense ligado ao Projeto Manhattan e passou segredos sobre a bomba atômica para Moscou. May foi preso e condenado. Décadas depois, já um homem idoso, continuava convencido de que tinha feito a coisa certa.3
Isso não é um caso isolado de traição por dinheiro. É o retrato de uma mente formada para acreditar que servir a um projeto histórico maior (mesmo que isso significasse trair o próprio país) era, no fundo, servir à humanidade. Ninguém ensina alguém a pensar assim com um panfleto de recrutamento. Ensina-se, ano após ano, com uma visão de mundo que já veio embutida antes que a primeira pergunta fosse feita: não existe Deus, não existe uma ordem moral dada, só existe a história e o lado certo dela. A “arma secreta” de Skousen não dispara uma vez. Ela se instala devagar, e funciona melhor quando quem a carrega acha que está fazendo o bem.
Existe mesmo uma raiz satânica nisso?
Alguns autores foram além do argumento educacional e levantaram uma tese mais pesada: que o próprio Marx teria uma ligação espiritual com o mal. O pastor Tassos Lycurgo, em As Bases Satânicas do Comunismo, lançado recentemente no Brasil, examina as origens filosóficas e espirituais do marxismo e argumenta que elas colidem de frente com a cosmovisão bíblica.4 O pastor romeno Richard Wurmbrand, sobrevivente de catorze anos de prisão comunista, escreveu um livro inteiro sobre o tema (publicado aqui como Marx & Satã) explorando os textos de juventude de Marx em busca da raiz da sua rejeição de Deus.5 Um desses textos é o prefácio da tese de doutorado de Marx, de 1841, onde ele cita a fala de Prometeu no drama de Ésquilo, “odeio todos os deuses”, e a chama de seu próprio lema contra qualquer divindade que não reconheça a autoconsciência humana como a mais alta.6
É preciso pôr essa tese no lugar certo. Não existe documento, carta ou testemunho que prove Marx participando de algum culto ou rito satânico; quem afirma isso como fato histórico está além do que as fontes sustentam. O que existe é um juízo teológico, bem diferente de uma acusação histórica: a recusa categórica de Deus tem, para a Bíblia, uma raiz mais funda do que um erro de lógica. A serpente, no Éden, não vendeu ao homem um argumento filosófico. Vendeu uma promessa de autonomia:
Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerem, os olhos de vocês se abrirão e, como Deus, vocês serão conhecedores do bem e do mal.
“Serão como Deus” é a oferta mais antiga que existe, e um sistema que declara a autoconsciência humana como a divindade mais alta (como o jovem Marx fez, literalmente, no prefácio citado acima) está repetindo essa oferta com vocabulário filosófico do século dezenove. Paulo lembra que esse tipo de batalha nunca foi só uma disputa de ideias entre professores:
Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestiais.
Isso não torna Marx um vilão de filme nem dispensa a necessidade de responder aos seus argumentos com argumentos. Torna o assunto mais sério do que um desacordo acadêmico, e mais sério também do que um rótulo fácil.
A citação errada e a carta que não precisa de retoque
Skousen, e muitos depois dele, costumam citar uma frase do Manifesto Comunista como prova de que Marx declarava guerra aberta a Deus: “o comunismo abole as verdades eternas, abole a religião, a moral”. A frase existe, mas o contexto muda o que ela prova. No texto original, um crítico burguês imaginário levanta a objeção: “existem verdades eternas, como Liberdade, Justiça, etc., que são comuns a todos os estádios sociais.”7 É essa objeção que recebe a resposta sobre abolir “as verdades eternas”. Marx não está anunciando um programa antirreligioso como meta em si; está respondendo que, já que toda moral e toda religião são produtos das relações de classe de cada época, elas mudam quando essas relações mudam. É um argumento sobre história e sociedade, não uma declaração de guerra espiritual. Citar a frase como se fosse um lema isolado, fora dessa troca, distorce o que o texto diz.
A ironia é que existe uma evidência muito mais forte do que essa frase isolada sobre o que o materialismo faz quando sai da sala de aula e chega ao poder, e essa evidência não precisa de distorção nenhuma. Em 19 de março de 1922, Lênin escreveu uma carta ao Politburo sobre os confrontos na cidade de Shuya, onde fiéis tinham resistido à confiscação de objetos sagrados das igrejas. Na carta, Lênin manda prender pelo menos várias dezenas de representantes do clero e da burguesia local, e diz, sem meias palavras, que quanto maior o número de clérigos e burgueses reacionários fuzilados naquela ocasião, melhor.8 A carta ficou fora das obras completas de Lênin por décadas, até ser publicada por historiadores que tiveram acesso aos arquivos soviéticos.
Não é preciso inventar nem exagerar nada aqui. Um sistema construído sobre a premissa de que toda religião precisa cair, quando ganha poder de Estado, trata essa premissa como política pública. Paulo descreve o efeito de rejeitar o que se conhece sobre Deus:
Porque, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Pelo contrário, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, e o coração insensato deles se obscureceu.
O raciocínio não desaparece. Ele continua funcionando, produzindo justificativas sofisticadas, relatórios, cartas de Politburo com linguagem administrativa, só que a serviço de um coração que já decidiu, antes de qualquer argumento, que essa conclusão específica era inegociável.
O antídoto não é medo, é alfabetização
A primeira parte desta série contou a estatística da Lifeway Research: dois terços dos jovens que frequentavam igreja na adolescência pararam de ir por pelo menos um ano depois de entrar na faculdade. A explicação mais comum não é um argumento filosófico irrefutável contra a fé. É o encontro com uma visão de mundo inteira, coerente, que se apresenta como o pano de fundo neutro de toda disciplina séria, enquanto a fé, para aquele jovem, nunca tinha sido apresentada como uma visão de mundo, só como um hábito de domingo.
A resposta a isso não é tirar o filho da escola nem desconfiar de cada professor de biologia. É ensinar, bem antes da faculdade, que “a ciência não fala de Deus” e “não existe Deus” são frases diferentes, que a segunda é filosofia disfarçada de conclusão científica, e que ela também precisa de argumento, não só de repetição. A arma secreta de Skousen só funciona enquanto ninguém percebe que ela está carregada. Mostrar a munição já é metade da defesa.
Para refletir
- Você consegue lembrar de uma vez em que ouviu “a ciência diz” para uma afirmação que, na verdade, era filosofia, não ciência?
- Por que alguém bem-intencionado, como o cientista que espionou achando que ajudava a humanidade, é mais perigoso do que alguém que sabe que está fazendo o mal?
- O que muda, na sua forma de avaliar essa tese, saber a diferença entre um juízo teológico e uma acusação histórica provada?
- Como você responderia a um jovem que volta da faculdade dizendo que “a fé é só uma crença, mas a ciência é fato”?
Referências
-
Wikipedia. “W. Cleon Skousen.” ↩
-
Skousen, W. C. O Comunista Exposto, “quinta pergunta vital”, p. 375–462. Vide Editorial, 2018. ↩
-
Legion Magazine. “Agents of Influence.” ↩ ↩2
-
Pleno.News. “Tassos Lycurgo explica sobre bases espirituais e ideológicas do comunismo.” ↩
-
Wurmbrand, R. Marx & Satã. Monergismo, 2020. Sobre os catorze anos de prisão comunista do autor: Voice of the Martyrs. “Our Founders.” ↩
-
Marx, K. A Diferença entre a Filosofia da Natureza em Demócrito e em Epicuro, prefácio. Boitempo, 2018. Tradução livre do trecho sobre Prometeu. ↩
-
Marx, K.; Engels, F. “Manifesto do Partido Comunista”, cap. II. (1848) ↩
-
Decommunization.org. “Letter from Lenin to Molotov for the Members of the Politburo, March 19, 1922.” ↩