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Em poucas palavras
- Marx apostou que mudar quem é dono da fábrica mudaria, quase automaticamente, o jeito de pensar do povo. Bastava trocar a base econômica.
- A aposta não se confirmou nos países mais industrializados. Gramsci, escrevendo numa cela fascista, teve que explicar por quê.
- A resposta dele ficou conhecida como “hegemonia cultural”: antes (ou mesmo sem) tomar o Estado, é preciso conquistar as instituições que formam a cabeça das pessoas (escola, imprensa, família, igreja).
- É um termo do próprio Gramsci, documentado nos seus escritos, não uma teoria da conspiração inventada depois. Entender isso ajuda o cristão a enxergar onde a disputa pelas ideias realmente acontece hoje.
Um general que precisa tomar uma cidade murada tem duas opções. Pode lançar a infantaria contra o portão principal, apostando tudo num só golpe. Ou pode cercar a cidade, cortar a água e o suprimento, e esperar que ela ceda por dentro, sem gastar uma única flecha a mais. A segunda opção é mais lenta. Também é mais segura, porque ataca exatamente o que sustenta os muros por dentro.
O marxismo do século XIX apostou na primeira estratégia. O marxismo do século XX, por meio de um italiano trancado numa cela do regime de Mussolini, migrou para a segunda. Entender essa virada ajuda o cristão a enxergar onde a disputa pelas ideias realmente acontece hoje, raramente na urna, quase sempre antes dela.
O erro de cálculo de Marx
Karl Marx apostou que a consciência das pessoas era, no fundo, um reflexo de quem controlava a produção material. Ele resumiu a tese sem rodeios no prefácio de 1859 a Para a Crítica da Economia Política:
Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina a sua consciência.1
A ideia, em termos simples: mude quem é dono da fábrica, e a religião, a moral e a política das pessoas mudam atrás, como sombra que segue o corpo. Por isso Marx esperava a revolução justamente nos países mais industrializados da Europa (Alemanha, Inglaterra), onde a classe operária era maior e mais organizada.
A aposta não se confirmou. Em novembro de 1918, marinheiros amotinados em Kiel acenderam uma revolta que varreu a Alemanha e derrubou o Kaiser, mas o levante espartaquista que tentou instalar um regime nos moldes soviéticos foi esmagado em Berlim já em janeiro de 1919, com os fundadores da Liga Espartaquista, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, mortos pelas tropas que o próprio governo chamou para conter a revolta.2 Na Itália, entre 1919 e 1920, os operários de Turim ocuparam as fábricas sob a liderança de conselhos operários, e Gramsci, ainda jovem, defendeu essa tática nas páginas do jornal que ajudava a editar, o L’Ordine Nuovo.3 A direção do Partido Socialista hesitou, os sindicatos negociaram a retirada com o governo, e as fábricas foram devolvidas aos donos em setembro de 1920, sem que o poder mudasse de mãos.3 Dois anos depois, Mussolini marchava sobre Roma.
A classe operária mais organizada da Europa teve a fábrica na mão e não tomou o poder. Pelas contas de Marx, isso não deveria ter acontecido.
Um prisioneiro repensa a estratégia
Gramsci tinha motivo pessoal para levar essa pergunta a sério. Cofundador do Partido Comunista Italiano e deputado eleito, foi preso em 8 de novembro de 1926, apesar da imunidade parlamentar, assim que o regime fascista declarou ilegal qualquer atividade de oposição.4 Julgado em 1928 por um tribunal especial, ouviu do promotor a frase que ficaria famosa: “Por vinte anos, devemos impedir a este cérebro de funcionar.”5 A sentença foi de vinte anos, quatro meses e cinco dias.
O cérebro não parou. Entre 1929 e 1935, antes de ser transferido para clínicas sob vigilância médica por causa da saúde que piorava, Gramsci encheu 32 cadernos escolares (cerca de três mil páginas) tentando entender por que a revolução previsível não tinha acontecido.6 Esses Cadernos do Cárcere só seriam publicados depois da sua morte, em 1937.
A resposta a que ele chegou reformula a pergunta sobre o poder. Num dos cadernos, ele escreve:
Um grupo social pode, e de fato deve, já exercer “liderança” antes de conquistar o poder governamental; isso, aliás, é uma das principais condições para a conquista desse poder.7
Traduzindo: antes de tomar o Estado, é preciso já ter conquistado os corações e as cabeças. Quem só pensa em vencer eleições ou revoluções, e nunca em formar o modo de pensar do povo, está, nos termos do próprio Gramsci, fazendo a coisa na ordem errada.
A trincheira chamada sociedade civil
Por que a fábrica bastou para derrubar o czar na Rússia, em 1917, e não bastou para derrubar o governo em Turim, em 1920? Gramsci responde comparando os dois cenários:
Na Rússia, o Estado era tudo, a sociedade civil era primitiva e gelatinosa; no Ocidente, havia uma relação adequada entre Estado e sociedade civil, e quando o Estado tremia, aparecia logo uma estrutura robusta de sociedade civil. O Estado era só um fosso externo, atrás do qual se erguia um sistema poderoso de fortalezas e trincheiras.8
Na Rússia czarista, a imprensa livre, os sindicatos independentes e as associações civis eram fracos ou inexistentes; por isso um ataque direto ao Palácio de Inverno funcionou. No Ocidente, família, igrejas, sindicatos, universidades, jornais e partidos formam uma rede densa, capaz de absorver o choque de qualquer ataque frontal ao Estado. É essa rede que Gramsci chama de sociedade civil, e é nela que ele enxerga o verdadeiro sistema de defesa.
Daí a mudança de tática que ele batiza de “guerra de posição”, em contraste com a “guerra de manobra” de 1917: em vez do assalto direto, um cerco lento e paciente às próprias fortalezas (a escola, a imprensa, a universidade, o entretenimento) até que elas mudem de dono por dentro, sem que seja preciso um só tiro contra o portão do Estado.
Quem fala, pensa; quem pensa, age
Quem ocupa essas fortalezas? Gramsci tem uma resposta para isso também:
Todo grupo social, ao nascer no terreno de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria junto com ele, organicamente, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não só no campo econômico, mas também no social e no político.9
Esses “intelectuais orgânicos” não administram fábricas. Administram ideias: escrevem nos jornais, ensinam nas universidades, roteirizam filmes, formam professores. É um trabalho mais lento que uma revolução, mas também mais profundo, porque não muda só quem manda; muda o que as pessoas consideram normal, bom e pensável antes mesmo de qualquer debate começar.
O pastor e professor brasileiro Tassos Lycurgo resume essa herança de um ponto de vista cristão: “a intelectualidade comunista evoluiu das bases marxistas para a influência das ideias de Antonio Gramsci”, e conclui que, por isso, “a guerra a ser travada não se dá no campo econômico, mas sim no da educação e cultura.”10 A formulação mais direta dele é também a mais fácil de lembrar: “Da forma que você fala, você pensa; e, da forma que você pensa, você age.”10 A linguagem não é só uma ferramenta neutra para descrever o mundo. Ela já chega carregada de um jeito de ver as coisas, e molda quem a usa antes de qualquer argumento formal.
Vale uma ressalva de honestidade. Não existe um porão secreto onde essa estratégia é tramada escondida do público. Gramsci escreveu em cadernos de prisioneiro, não em memorandos confidenciais, e seus textos são discutidos abertamente há um século em universidades do mundo inteiro, de esquerda e de direita. O termo correto para essa disputa pela cultura é o do próprio Gramsci (“hegemonia cultural”), e não o rótulo mais vago e conspiratório de “marxismo cultural” que circula hoje nas redes. Chamar a coisa pelo nome certo é condição para discordar dela com honestidade.
O que isso muda para o cristão
Se a disputa real passa pela escola, pela família, pela imprensa e pela linguagem (e não só pela cabine de votação), então o primeiro texto desta série já estava certo ao dizer que muitos jovens cristãos perdem a fé na universidade porque nunca aprenderam que o cristianismo também é uma visão de mundo completa. Um cristão que vota certo, mas nunca pensou no que forma a cabeça dos próprios filhos, venceu uma batalha pequena e abriu mão da guerra.
E aqui vale uma surpresa: o apóstolo Paulo já usava a mesma imagem de cerco, quase dois mil anos antes de Gramsci nascer.
Porque as armas da nossa luta não são carnais, mas poderosas em Deus, para destruir fortalezas.
E continua:
Destruímos raciocínios falaciosos e toda arrogância que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento à obediência de Cristo.
Paulo também fala de uma guerra que se vence na cabeça, não só no campo de batalha físico. Mas repare na diferença decisiva. O alvo de Gramsci é o poder: ocupar as instituições para redistribuir quem manda. O alvo de Paulo é a verdade: libertar a mente de raciocínios falsos para que ela sirva a Cristo, não a uma nova elite. Um quer conquistar a fortaleza para si. O outro quer derrubar os muros que impedem a pessoa de ver com clareza. Por isso o chamado cristão não é vencer a guerra cultural com as mesmas armas do adversário (propaganda, ocupação de cargos, controle da narrativa), mas com a renovação que Paulo descreve em outro lugar:
E não vivam conforme os padrões deste mundo, mas deixem que Deus os transforme pela renovação da mente, para que possam experimentar qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
Marx apostou que mudar a fábrica mudaria a cabeça do povo, e a aposta falhou. Gramsci, da prisão, corrigiu a estratégia: primeiro a cabeça; o Estado vem depois, quando vem, e deu a essa disputa cultural um nome que vale conhecer: hegemonia. O cristão que leva isso a sério não troca de lado nessa guerra. Entende que a dele é outra guerra, mais antiga, travada com outras armas, por um Reino que não se conquista ocupando cargo nenhum.
No próximo texto da série, viramos a página para o lado oposto dessa moeda: o que acontece quando é o próprio Estado, e não só a cultura, que decide que quer ser tudo.
Para refletir
- Você já percebeu como a forma de nomear um assunto muda, antes de qualquer debate, a forma como você pensa sobre ele?
- Que instituição moldou mais a sua visão de mundo antes dos dezoito anos (a família, a escola, a igreja, a televisão)? Você escolheu isso, ou só aconteceu?
- Se a disputa real é cultural, o voto certo ainda é suficiente, ou falta alguma coisa na forma como você investe seu tempo?
- Qual a diferença entre “ocupar uma fortaleza para mandar nela” e “derrubar um muro para que a verdade apareça”? Por que essa diferença importa?
Referências
-
Marx, K. “Para a Crítica da Economia Política”, Prefácio. (1859) ↩
-
Infoescola. “Revolução Alemã de 1918-1919.” ↩
-
Lúcio de Carvalho, K. “Gramsci e o biennio rosso (1919-1920): a experiência dos conselhos de fábrica na Itália.” O Social em Questão, PUC-Rio. ↩ ↩2
-
Infopédia. “António Gramsci.” ↩
-
Togliatti, P. “Antônio Gramsci, Chefe da Classe Operária Italiana.” Problemas. (1950) ↩
-
Coutinho, C. N. “Entrevista a Maurício Santana Dias.” ↩
-
Gramsci, A. Cadernos do Cárcere (ed. bras.: trad. Carlos Nelson Coutinho, Civilização Brasileira), citado aqui em tradução livre a partir de Selections from the Prison Notebooks, ed. Quintin Hoare e Geoffrey Nowell Smith (1971), p. 57. ↩
-
Gramsci, A. Cadernos do Cárcere, tradução livre a partir de Selections from the Prison Notebooks, ed. Hoare e Nowell Smith (1971), p. 238. ↩
-
Gramsci, A. “The Intellectuals.” Prison Notebooks, tradução livre do inglês. ↩
-
Lycurgo, T. “O inimigo do comunismo não é o capitalismo, mas sim o cristianismo.” Fábrica EBD. (2022) ↩ ↩2