Em poucas palavras
- Skousen tem razão ao dizer que o livre mercado leva a sério uma parte real da natureza humana que o marxismo nega.
- Mas a própria tradição cristã, inclusive Roma, diz “não” ao capitalismo sempre que o mercado deixa de ser ferramenta e vira fim em si mesmo.
- A direita também tem seu bezerro de ouro: o mercado, a nação ou o líder carismático podem ocupar o lugar de Deus com a mesma facilidade que o Estado.
- Uma crítica que só funciona num sentido político não é teologia. É propaganda com verniz bíblico.
Um espelho que mostra só a metade do rosto não está mentindo. Está, só por omissão, fazendo você acreditar que o rosto inteiro é aquela metade. É mais perigoso que um espelho quebrado, porque ninguém desconfia dele. Esta série passou nove textos olhando para a metade esquerda do rosto político: o Estado que quer ser tudo, a arma secreta na sala de aula, a história que a utopia deixou para trás. Chegou a hora de olhar para a outra metade.
A defesa que a direita também merece ouvir
W. Cleon Skousen não escreveu O Comunista Exposto só para acusar o adversário. Boa parte do livro é uma defesa deliberada do capitalismo de livre-iniciativa, montada sobre uma observação que esta série já discutiu: Marx projetou o comunismo para um ser humano que nunca existiu, movido só por solidariedade de classe, sem ambição própria nem interesse pessoal.1 Skousen vira a mesa: se o homem é mesmo um ser que busca seu próprio bem (e a Bíblia também diz isso, sem fingir que é vergonha), então um sistema que organiza a produção em torno da liberdade de iniciativa e do direito à propriedade não é uma concessão ao pecado. É realismo.
Há verdade real aí, e esta série já disse isso antes: a propriedade privada é protegida pela Lei de Moisés, não abolida por ela. Quem defende o mercado livre está, nesse ponto específico, mais perto da Escritura do que quem quer entregar toda a produção ao Estado. Mas esta mesma série já mostrou, no texto sobre os primeiros cristãos, o que acontece quando Skousen força demais essa defesa, chamando até a partilha voluntária dos primeiros cristãos em Atos de “capitalismo de livre-iniciativa com um coração”, um rótulo do século vinte colado numa comunidade que não operava com nenhuma das categorias econômicas modernas. Uma defesa correta num ponto não é uma licença em branco para todos os outros. E é aqui que a conversa precisa continuar, não parar.
Quando Roma diz sim
Em 1991, dois anos depois da queda do Muro de Berlim, o papa João Paulo II publicou a encíclica Centesimus Annus, perguntando sem rodeios se o capitalismo deveria ser declarado vencedor depois do colapso do comunismo soviético. A resposta, segundo o próprio texto, depende do que a palavra significa.
Se “capitalismo” quer dizer uma economia de empresa, de mercado, de propriedade privada, com liberdade de iniciativa, a resposta é positiva, embora o documento prefira falar em “economia de mercado” ou “economia livre” para evitar a confusão.2 Isso é um “sim” vindo de dentro da tradição cristã, não um elogio emprestado da revista de negócios: o mesmo documento que condena o materialismo marxista reconhece que a liberdade de empreender, trocar e possuir tem lugar legítimo na ordem moral criada por Deus.
Quando Roma diz não
Mas o mesmo parágrafo que diz sim também fecha a porta para o outro lado da pergunta. Se “capitalismo” significa um sistema em que a liberdade econômica não está enquadrada por nenhum arcabouço jurídico nem subordinada a nenhum valor ético ou religioso, a resposta muda de figura.2 Nesse caso, a queda do marxismo não resolve nada; só troca um tipo de miséria por outro.
A encíclica chama esse outro tipo de miséria pelo nome: alienação. Marx limitava a alienação às relações de produção, como se bastasse trocar o dono da fábrica para o problema desaparecer. João Paulo II discorda, e aponta que o Ocidente, livre do comunismo, continua produzindo alienação em larga escala, sobretudo no consumo, quando a pessoa fica presa a satisfações superficiais que nunca chegam a saciar nada.3 Existem necessidades humanas que simplesmente não têm endereço no mercado (bens que não são, e não deveriam ser, mercadoria).4 Um sistema econômico, sozinho, não tem como distinguir uma necessidade legítima de um apetite fabricado pela propaganda. Isso exige um critério que vem de fora do próprio mercado.
O apóstolo Paulo já havia nomeado essa armadilha específica muito antes de existir supermercado ou cartão de crédito:
Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e atormentaram a si mesmos com muitas dores.
Repare no que o texto não diz. Não diz que o dinheiro é a raiz do mal; diz que o amor ao dinheiro é. A crítica bíblica nunca foi contra a propriedade ou a troca. É contra o coração que faz da riqueza seu porto seguro, o lugar de onde tira a segurança que só Deus deveria dar.
O bezerro de ouro tem várias ligas
Jesus foi mais direto ainda sobre o que acontece quando esse amor cresce demais:
Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou irá odiar um e amar o outro, ou irá se dedicar a um e desprezar o outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas.
“Riquezas” aqui não é só dinheiro no bolso. É qualquer coisa que uma pessoa trata como a fonte última de segurança e sentido, e o mercado está longe de ser a única candidata disponível à direita do espectro. A nação e o líder carismático competem pelo mesmo trono.
O caso mais documentado do século vinte é o dos “Cristãos Alemães”, o movimento que, em 1933 e 1934, tentou refundir toda a igreja protestante alemã em torno de raça, nacionalismo e lealdade pessoal a Hitler, chegando a chamá-lo de “profeta alemão” e a tratar a consciência racial como fonte de revelação ao lado da própria Bíblia.5 A resposta veio do Sínodo Confessante, reunido em Barmen em maio de 1934 (com o texto redigido principalmente por Karl Barth, e o apoio à distância de Dietrich Bonhoeffer, então pastor em Londres), e foi afirmar que Jesus Cristo é a única Palavra de Deus que a igreja deve ouvir e obedecer, o que relativiza qualquer outra lealdade, inclusive ao Estado e à nação.5 Repare na estrutura do erro: é exatamente a mesma do bezerro de ouro no deserto, só que com a bandeira errada embaixo do braço.
Esta série prometeu, lá no primeiro texto, que trataria da idolatria política que não tem cor. É esse o momento. O cristão que só enxerga ídolo do lado estatal (e fecha os olhos quando o mesmo mecanismo aparece vestido de mercado livre, orgulho nacional ou devoção a uma liderança) não está fazendo teologia. Está fazendo propaganda com verniz bíblico, e o Deus que condena um bezerro de ouro feito de Estado não vai aceitar um feito de outra liga qualquer.
Uma cruz que não tem partido
João fecha sua primeira carta com um aviso curto, quase abrupto depois de páginas inteiras sobre amor e verdade:
Filhinhos, cuidado com os ídolos!
Nenhum adjetivo depois de “ídolos”. Nenhuma lista de quais ídolos são permitidos e quais não são. O aviso vale tanto para quem põe o Estado no trono quanto para quem põe lá o mercado, a nação ou um rosto carismático. Esta série criticou o marxismo com dureza, e vai continuar fazendo isso até o fim, porque o marxismo erra de um jeito específico e grave na pergunta sobre o homem e sobre Deus. Mas uma crítica que só sabe apontar para a esquerda não é fidelidade; é tribalismo com Bíblia debaixo do braço. A cruz não carrega a bandeira de nenhum partido. Ela julga todos eles, inclusive o nosso.
Para refletir
- Você consegue nomear, na sua própria vida, algo do mercado ou do consumo que já ocupou um lugar maior do que deveria?
- Centesimus Annus diz “sim” e “não” ao capitalismo, dependendo da definição. Você já tinha ouvido essa distinção antes, ou só conhecia elogios ou condenações sem matiz?
- O caso dos “Cristãos Alemães” parece distante no tempo. Que formas mais sutis de misturar fé com nacionalismo ou devoção a uma liderança existem hoje?
- Depois de nove textos criticando a esquerda e um criticando a direita, qual lado você suspeita que seu próprio coração defenderia com menos espírito crítico?
Referências
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Skousen, W. C. O Comunista Exposto, terceira das “cinco perguntas vitais”. Vide Editorial, 2018 (original de 1958). Os autores da edição são declaradamente mórmons, conforme nota da própria editora. ↩
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João Paulo II. “Centesimus Annus”, n. 42. (1991) ↩ ↩2
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João Paulo II. “Centesimus Annus”, n. 41. (1991) ↩
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João Paulo II. “Centesimus Annus”, n. 34 e 40. (1991) ↩
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Ligonier Ministries. “5 Minutes in Church History: The Barmen Declaration.” ↩ ↩2