Foto por engin akyurt no Unsplash
Em poucas palavras
- Uma ideia só revela sua forma verdadeira quando é posta em prática em escala. O século XX ofereceu ao marxismo o teste de carga mais completo que uma teoria política já recebeu.
- Em todo lugar onde regimes comunistas tomaram o poder, o mesmo padrão apareceu: a violência não foi desvio de um ou outro líder, foi método previsto desde o início.
- Os números são enormes, mas a cifra exata é discutida até pelos próprios historiadores que escreveram o livro mais citado sobre o tema, e honestidade aqui pesa mais que impacto retórico.
- Perseguir a fé não foi efeito colateral de alguns regimes mais radicais: aconteceu em praticamente todos, porque o projeto exigia que Deus saísse do caminho.
Um engenheiro pode garantir, com toda a matemática a seu favor, que uma ponte aguenta o peso previsto. Mas só o teste de carga real (o aço sob tráfego de verdade, não sob fórmula) mostra se o cálculo estava certo. Uma ideia política passa pelo mesmo teste. No papel, qualquer teoria pode prometer justiça, igualdade, um homem novo. O século XX deu ao marxismo o teste de carga mais completo que uma ideia política já recebeu: poder de Estado, em dezenas de países, por décadas seguidas. Dá para medir o que aconteceu quando o peso real passou por cima.
Onde a teoria virou poder
A lista não é pequena. URSS, China, Camboja, Coreia do Norte, Vietnã, Cuba, quase toda a Europa Oriental, Etiópia, Afeganistão, partes da América Latina; em cada um desses lugares, um partido que se dizia marxista chegou ao poder central e permaneceu nele por anos, às vezes gerações. O Livro Negro do Comunismo, de Stéphane Courtois e uma equipe de historiadores franceses, é hoje a tentativa mais abrangente de reunir esse histórico num só lugar.1 A pergunta que abre o livro é a que este post tenta responder:
Por que Lenin, Trotski, Stalin e os outros julgaram necessário exterminar todos aqueles que eram designados como “inimigos”? Por que eles se autorizaram a infringir o código não escrito que rege a vida da Humanidade: “Não matarás”?1
A pergunta que o próprio livro faz
O código que o livro cita não precisa de nota de rodapé; é o sexto dos Dez Mandamentos, dado a Israel no Sinai:
Não mate.
Duas palavras secas, sem adorno. A explicação que o livro dá para essa violação em tamanha escala é direta, e é o ponto que esta série vem construindo desde o início: as ideias têm consequências, e a violência não chegou como acidente de percurso.
É exatamente em nome de uma doutrina, fundamento lógico e necessário do sistema, que foram massacrados dezenas de milhões de inocentes.1
As premissas discutidas em partes anteriores desta série (um homem sem natureza fixa, moldável pela força do Estado;2 quatro pressupostos que começam negando Deus e terminam exigindo que toda religião seja derrubada3) não ficaram só no papel. Produziram fruto, e o fruto está documentado.
A fé como alvo, não acidente
Em nenhum lugar esse padrão aparece de forma mais nítida do que na perseguição religiosa soviética, reconstruída por Nicolas Werth a partir de arquivos abertos depois de 1991.1 Ela veio em três ondas.
A primeira começou em 1918, mas ganhou força em 1922: sob o pretexto de socorrer as vítimas da fome, um decreto mandou confiscar os objetos preciosos das igrejas. Em Chuia, em março daquele ano, tropas atiraram contra fiéis que resistiam. Lênin, sem poder comparecer à reunião do Politburo, escreveu de próprio punho:
É agora e somente agora o momento em que podemos (e, por conseguinte, devemos) confiscar os bens da Igreja com uma energia feroz, impiedosa […] é o momento de esmagarmos o clero da maneira mais decisiva e mais impiedosa, com uma brutalidade tal que seja lembrada por décadas a fio.4
O documento sobreviveu em arquivo e foi usado, no mesmo ano, para justificar a prisão de milhares de padres, monges e freiras.1 A segunda onda veio entre 1929 e 1930: o domingo foi abolido por uma semana contínua de cinco dias, sinos de igreja foram confiscados sob a justificativa de que seu som “infringia o direito ao repouso das massas ateias”, e mais de treze mil religiosos foram tratados como inimigos de classe num único ano.1 A terceira, entre 1937 e 1941, foi a mais completa: das vinte mil igrejas e mesquitas ainda ativas em 1936, menos de mil seguiam abertas ao culto em 1941.1
O padrão não ficou restrito à Rússia. Na Hungria, o cardeal Mindszenty foi preso no fim de 1948. Na Romênia, a Igreja greco-católica teve seus bens confiscados e dezenas de padres católicos presos no mesmo ano. Na Polônia, o padre Jerzy Popiełuszko foi assassinado em 1984. Na China, a Revolução Cultural impôs o que o próprio livro chama de quase-proibição das práticas cristãs. No Camboja, a catedral de Phnom Penh foi desmontada pedra por pedra.1 Perseguir a fé não foi um excesso local de um regime mais fanático. Foi recorrente o bastante para parecer parte do projeto.
E havia uma lógica clara por trás disso. Karl Marx tinha escrito, décadas antes da revolução, que a religião é “o ópio do povo”; “uma espécie de má aguardente espiritual na qual os escravos do capital afogam a sua imagem humana”.5 Lênin repetiu a mesma imagem em 1905, treze anos antes de tomar o poder.6 Quando o Estado que seguia essa doutrina finalmente teve o poder de agir sobre ela, agiu. A religião não foi perseguida apesar da teoria. Foi perseguida por causa dela.
Quantos? A honestidade sobre os números
Courtois, no prefácio do livro que organizou, chegou a um total: cerca de cem milhões de mortos pelo comunismo no século XX, contra cerca de vinte e cinco milhões pelo nazismo.7 É uma cifra enorme, e tentadora de repetir sem mais explicação.
Mas vale parar exatamente aqui, porque a honestidade importa mais do que o impacto do número. Dois dos principais coautores do próprio livro, Nicolas Werth e Jean-Louis Margolin (justamente os responsáveis pelos capítulos sobre a URSS e a Ásia, os mais elogiados academicamente), discordaram publicamente da introdução de Courtois e da soma de cem milhões de mortes que ele apresentou.8 Não discordaram de que o número de vítimas foi imenso. Discordaram do método de somar, da comparação direta com o nazismo, e do tom de quem parecia mais interessado em bater um recorde estatístico do que em registrar cada morte com precisão.8
Por isso, o termo mais honesto para este post não é “cem milhões”; é “dezenas de milhões”, com a divergência explicada, não escondida. Um livro pode estar certo na reconstrução dos fatos (o capítulo de Werth sobre a URSS, baseado em arquivo, é hoje referência) e ainda assim ter uma introdução discutível. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e esconder a segunda para proteger o impacto da primeira seria o tipo de desonestidade que esta série se propôs a evitar desde o post 1.
Por que isso quase não se ensina
Se os números são tão grandes, por que o assunto ocupa tão pouco espaço na memória pública, comparado ao nazismo? O historiador britânico Timothy Garton Ash, resenhando o próprio Livro Negro, usa uma expressão emprestada do jornalista Ferdinand Mount para nomear o fenômeno: uma “assimetria de indulgência” entre como o Ocidente trata as duas ideologias.9 O filósofo francês Alain Besançon descreve o contraste como uma “hiperamnésia” do nazismo ao lado de uma “amnésia” do comunismo.9
As razões que Garton Ash propõe não são teoria da conspiração. O Holocausto foi exposto pelos próprios vencedores da guerra, que entraram nos campos; os crimes soviéticos, ao contrário, foram mantidos em negação sistemática por um regime que durou setenta anos, tempo suficiente para a maioria das testemunhas morrer antes de falar.9 Some a isso décadas de gratidão ocidental pelo papel soviético na derrota de Hitler, e partidos comunistas fortes em países como França e Itália, com interesse direto em manter o tema desconfortável.9 Nada disso é acaso teórico. É o tipo de coisa que esta série já discutiu: quem controla a escola, a imprensa e a universidade controla, em boa medida, o que uma geração inteira considera digno de lembrança.10
A história não é só uma lista de números para arquivar. É testemunha de que ideias levadas ao poder produzem frutos previsíveis, e o primeiro passo para julgar essa história com justiça é contá-la sem exagero e sem esquecimento, nas duas direções.
Esta série já mostrou que o homem não tem a natureza que Marx imaginou, e que os quatro pressupostos do materialismo levam a um lugar específico. Este post mostrou onde esse lugar fica na prática: um padrão de violência contra quem resistia, perseguição sistemática à fé, e uma cifra sobre a qual os próprios autores discordam entre si, mas que, em qualquer contagem honesta, soma dezenas de milhões de vidas. A próxima pergunta é inevitável, e esta série não vai fugir dela: qual é a melhor defesa que o outro lado tem a oferecer?
Para refletir
- Por que faz diferença, para a credibilidade de um argumento, admitir que uma fonte favorável à própria posição também erra em alguma coisa?
- Perseguir a fé em praticamente todo regime comunista do século XX foi coincidência, ou consequência previsível das premissas discutidas nos posts anteriores desta série?
- Existe algum crime histórico que você já minimizou, ou já viu minimizarem, por vir do “lado” político que você considera mais próximo do seu?
- O que significa, para a forma como você lê notícias e livros de história hoje, saber que a mesma mentira geralmente se apoia sobre elementos verdadeiros?
Referências
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Courtois, S. et al. O Livro Negro do Comunismo: crimes, terror e repressão. Rio de Janeiro: BCD União de Editoras (Grupo Record), 1999. ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8
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Ver o post anterior desta série, “O Homem Novo e o Velho Adão”. ↩
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Ver “A Arma Secreta: Marx, Deus e a Sala de Aula”, nesta mesma série. ↩
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Lenin, V. I. “Letter to Molotov for the Politburo Members, 19 March 1922.” Tradução livre a partir do inglês; conferir também a citação no Livro Negro do Comunismo (nota 1 acima). ↩
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Marx, K. “Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel.” (1844) ↩
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Lenin, V. I. “O Socialismo e a Religião.” (1905) ↩
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Reportado em: Times Higher Education. “Red, the Colour of Stars and Blood.” ↩
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History Cooperative. “The Black Book of Communism.” ↩ ↩2
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Garton Ash, T. “The Black and the Red.” Prospect Magazine. ↩ ↩2 ↩3 ↩4
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Ver “De Marx a Gramsci: a Revolução que Mudou de Campo”, nesta mesma série. ↩