Foto por Vitaly Gariev no Unsplash
Em poucas palavras
- Para Marx, o homem não tem natureza fixa: ele é produto das relações sociais, então mudar a estrutura muda o homem.
- A Bíblia concorda que algo está profundamente errado no coração humano, mas nega que a origem do problema seja só o ambiente, e nega que o Estado tenha o poder de consertá-lo.
- Toda tentativa de fabricar um “homem novo” por decreto, da Rússia soviética em diante, esbarrou na mesma parede: a natureza humana resiste à engenharia.
- O único homem novo de verdade não nasce de uma reforma de estruturas. Nasce de um novo nascimento, que restaura a imagem que já estava lá.
Toda marcenaria séria começa com uma pergunta sobre o material. Pinheiro empena com a umidade. Carvalho resiste ao tempo, mas racha se for dobrado contra a fibra. Um bom marceneiro não briga com o grão da madeira; aprende a trabalhar com ele, porque sabe que, não importa quanta força aplique, a madeira vai continuar sendo madeira.
Immanuel Kant usou essa mesma imagem para falar do homem. “De um lenho tão retorcido, de que o homem é feito, nada de inteiramente direito se pode fazer”, escreveu em 1784.1 Kant não era cristão ortodoxo, mas percebeu algo que a Bíblia já dizia havia muito: existe um grão na natureza humana, e nenhum projeto político o ignora sem pagar um preço.
Karl Marx discordou. Para ele, esse “grão” não existe; ou, mais exatamente, o grão é fabricado pela própria marcenaria. Essa diferença, que parece filosófica e distante, é o eixo que separa toda a proposta cristã de toda a proposta marxista sobre como consertar o mundo. É sobre essa diferença que este texto trata.
Uma espécie sem natureza
Para Karl Marx, perguntar “qual é a natureza humana” já é fazer a pergunta errada. Não existe uma natureza humana fixa, anterior à sociedade, esperando para ser descoberta. Existe apenas o que cada arranjo social produz.
Marx escreveu isso sem rodeios numa de suas notas mais citadas, de 1845: “a essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto das relações sociais.”2 Troque as relações sociais (a propriedade, a família, a religião, o trabalho) e você troca o próprio homem. Não há um “eu” essencial por baixo das roupas sociais. As roupas são o eu.
W. Cleon Skousen, em O Comunista Exposto (1958), resumiu um raciocínio parecido em linguagem mais direta, ao condensar em quatro premissas o que considerava os alicerces filosóficos do comunismo. A segunda: o homem é apenas um animal mais desenvolvido, sem valor superior ao de qualquer outro bicho. A terceira: não existe algo como certo ou errado inato; a moral é só um produto, tão mutável quanto a estrutura econômica que a gerou.3 (Vale registrar: Skousen é mórmon, como a própria edição brasileira informa; isso não invalida a observação histórica, mas o leitor merece saber de onde vem a lente.)
Veja a coerência interna dessas duas ideias. Se o homem é só produto das relações, e se não existe certo e errado anterior a essas relações, a engenharia social deixa de ser uma intervenção arriscada sobre uma natureza dada. Vira a única ferramenta disponível. Se não há grão na madeira, qualquer forma é legítima, e qualquer um que resista à forma está, por definição, contaminado pela estrutura antiga.
A fábrica do homem novo
Toda ideia tem uma data de nascimento e, mais cedo ou mais tarde, uma data de aplicação prática. A ideia de que o homem é infinitamente moldável nasceu nos cadernos de Marx, mas cresceu e virou política de Estado na Rússia depois de 1917.
Leon Trotsky, um dos líderes da revolução, descreveu o projeto em termos quase religiosos num livro de 1924: “O tipo humano médio vai se elevar às alturas de um Aristóteles, um Goethe, um Marx. E, acima dessa crista, surgirão novos picos.”4 Não era retórica vazia. Escola, propaganda e reeducação foram mobilizadas para fabricar o que a União Soviética chamou de “novo homem soviético”: disciplinado, coletivista, sem religião, pronto para sacrificar a própria vida pela causa.5
A tentativa durou décadas. O resultado, segundo o escritor e dissidente soviético Aleksandr Zinoviev, não foi o homem superior que Trotsky previu. Foi o Homo sovieticus (um tipo humano moldado pelo sistema, mas praticamente o oposto do ideal original): não o coletivista entusiasmado, mas o cínico que aprendeu a fingir entusiasmo para sobreviver.5 A fábrica funcionou. Só não produziu o que prometeu.
Isso não é um acidente de execução, corrigível com mais esforço na próxima tentativa. É a mesma lição que o marceneiro já conhecia. Quando você ignora o grão da madeira, ele não desaparece. A madeira racha na direção que sempre quis seguir.
A imagem que não se apaga
A Bíblia também acha que algo está profundamente errado com o homem; nisso, cristianismo e marxismo concordam mais do que muitos cristãos gostariam de admitir. “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto. Quem poderá entendê-lo?” (Jr 17.9), escreveu Jeremias. Paulo descreve a mesma ferida como herança, não como escolha isolada de cada um:
Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado veio a morte, assim também a morte passou a toda a humanidade, porque todos pecaram.
Repare que o problema não começa em cada indivíduo isolado, reagindo a uma estrutura social ruim. Começa antes de qualquer estrutura, num só homem (Adão) e se espalha para todos. Isso é mais radical do que o diagnóstico de Marx, não menos: para a Bíblia, trocar as relações de produção não toca a raiz do problema, porque a raiz não está nas relações. Está em cada coração.
Mas aqui está a virada que separa as duas visões. A Bíblia nunca diz que o homem é só corrupção, um material sem forma à espera de qualquer escultor. Antes de qualquer pecado, antes de qualquer Adão caído, já havia isto:
Assim Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
A imagem não foi apagada pela Queda; foi distorcida, manchada, mas não extinta. É por isso que a Bíblia pode, na mesma respiração, chamar o coração humano de enganoso e ainda assim tratar toda vida humana como sagrada, porque carrega essa imagem. O homem bíblico não é nem o bom selvagem que a sociedade corrompe, nem a folha em branco que a sociedade escreve. É uma imagem real, gravada por Deus, hoje distorcida por dentro (um grão genuíno, só que torto).
C. S. Lewis notou o ponto cego de quem tenta remodelar o homem a partir de fora: quem assume o papel de condicionador da humanidade continua sendo, ele mesmo, um homem, sujeito ao mesmo material torto que pretende consertar nos outros.6 Não existe um escultor que esteja do lado de fora da escultura. Todo reformador também é matéria-prima.
O velho Adão, o novo Adão
Paulo via a humanidade dividida em duas linhagens, cada uma chefiada por um só homem (muito antes de qualquer teoria da revolução imaginar algo parecido em termos políticos):
Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo.
E completa, poucos versículos depois:
Pois assim está escrito: “O primeiro homem, Adão, se tornou um ser vivente.” Mas o último Adão é espírito vivificante.
Repare na estrutura: existem dois Adões, dois pontos de origem para a espécie humana. O primeiro gera uma linhagem marcada pela morte, porque gera segundo a sua própria natureza caída, “pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores” (Rm 5.19), como Paulo resume em outro lugar. O segundo gera uma linhagem nova, “vivificante”, e essa é a peça que o projeto marxista nunca teve: uma fonte de vida genuinamente nova, não apenas uma reorganização da vida velha.
É aqui que a distância entre os dois “homens novos” fica mais clara. O homem novo soviético devia nascer de uma reorganização das relações de produção (a mesma matéria-prima, rearranjada por decreto). O homem novo paulino nasce de uma fonte externa à própria linhagem caída: não uma reforma de Adão, mas um Adão inteiramente diferente, enxertado na história humana.
O único homem novo que funciona
Paulo descreve a conversão com um vocabulário de troca de roupa, não de reforma de estrutura:
Quanto à maneira antiga de viver, vocês foram instruídos a deixar de lado a velha natureza, que se corrompe segundo desejos enganosos, a se deixar renovar no espírito do entendimento de vocês, e a se revestir da nova natureza, criada segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade.
E, em outra carta, acrescenta o detalhe que fecha o argumento deste texto:
Não mintam uns aos outros, uma vez que vocês se despiram da velha natureza com as suas práticas e se revestiram da nova natureza que se renova para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que a criou.
“Segundo a imagem daquele que a criou.” A nova natureza não é uma invenção sem precedente, fabricada do zero por um engenheiro social. É uma restauração (a imagem de Gênesis 1, manchada pelo pecado de Adão, sendo devolvida ao seu desenho original). Paulo chama isso de nova criatura: “se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (2Cor 5.17)
A diferença entre os dois projetos, no fim, não é sobre quem quer um mundo melhor. Os dois querem. A diferença é sobre onde cada um acha que mora o problema e, por consequência, onde mora a solução. Marx olhou para fora (para a propriedade, a classe, a estrutura) e concluiu que mudar o lado de fora bastaria para mudar o homem. A Bíblia olha para dentro, vê um coração enganoso e desesperadamente corrupto, e por isso insiste que nenhuma reforma externa chega lá. Mas a Bíblia também recusa o desespero: o mesmo Deus que gravou a imagem original no homem é quem promete restaurá-la, não por decreto de um comitê, mas por um novo nascimento, pessoa por pessoa. Essa é uma revolução que nenhum Estado pode decretar e nenhuma polícia pode impor, e é justamente por isso que é a única que já funcionou.
Para refletir
- Você já viu alguém tentar “consertar” uma pessoa mudando só as circunstâncias ao redor dela, sem tocar no coração? O que aconteceu?
- Por que a ideia de uma natureza humana fixa incomoda tanto os projetos políticos utópicos (de esquerda ou de direita)?
- Em que sentido a doutrina da imagem de Deus no homem é, ao mesmo tempo, mais dura com o pecado e mais esperançosa sobre o homem do que a visão marxista?
- O que muda na sua forma de buscar mudança pessoal, ao saber que o homem novo bíblico nasce de dentro para fora, e não de fora para dentro?
Referências
-
Kant, I. “Ideia de uma História Universal com um Propósito Cosmopolita”, Sexta Proposição. Tradução de Artur Morão. (1784) ↩
-
Marx, K. “Teses sobre Feuerbach”, tese VI. (1845) ↩
-
Skousen, W. C. O Comunista Exposto, “quinta pergunta vital” (as quatro premissas do comunismo), p. 375–462. Vide Editorial, 2018. ↩
-
Trotsky, L. “Literature and Revolution”, cap. 8. (1924) ↩
-
Wikipedia. “New Soviet man.” ↩ ↩2
-
Lewis, C. S. A Abolição do Homem. Tradução de Remo Mannarino Filho. São Paulo: Martins Fontes, 2005. ↩