Os Primeiros Cristãos Eram Comunistas?

Atos 2 diz que os cristãos tinham tudo em comum. Foi comunismo de verdade ou outra coisa? O caso de Ananias e Safira revela a diferença. Parte 3.
Os Primeiros Cristãos Eram Comunistas?

Foto por Marie Rouilly no Unsplash

Em poucas palavras

  • Atos 2 e 4 dizem que os primeiros cristãos “tinham tudo em comum” — mas o próprio texto, alguns versículos depois, mostra que ninguém era obrigado a vender nada.
  • Pedro diz a Ananias, sem rodeios, que o campo e o dinheiro continuavam sendo dele mesmo depois de vendidos. O pecado foi mentir, não guardar.
  • A prática durou pouco e ficou restrita a Jerusalém — a própria igreja de Jerusalém, depois, passou a receber ajuda financeira de fora.
  • Não foi comunismo. Também não foi capitalismo com verniz religioso. Foi outra coisa, e entender qual ajuda a examinar os dois rótulos modernos.

Imagine um grupo de amigos que decide, de uma vez, bancar junto a viagem de formatura de um deles que ficou sem dinheiro. Ninguém assina contrato, ninguém funde a conta bancária com a dos outros, ninguém perde o direito de guardar parte do salário no mês seguinte. É generosidade concentrada num momento, movida por afeto, não uma nova lei de propriedade. Quem lê Atos 2 e 4 rápido demais costuma confundir esse tipo de gesto com uma reforma econômica permanente. O texto não permite essa leitura — nem a de quem quer provar que os cristãos inventaram o comunismo, nem a de quem quer apagar o episódio porque soa radical demais.

O verso que todo mundo cita pela metade

Logo depois do Pentecostes, Lucas registra uma cena que incomoda os dois lados do debate político moderno:

Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum.

E completa:

Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade.

Alguns capítulos depois, a mesma cena se repete com outras palavras:

Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum.

Quem procura uma bandeira socialista na Bíblia termina a leitura ali, satisfeito. O problema é que Lucas não terminou o relato ali. O capítulo seguinte conta a história de um casal que vendeu uma propriedade, reteve parte do dinheiro por conta própria, e mentiu dizendo que tinha entregado o total. É esse episódio, não os versículos de abertura, que revela o que “tinham tudo em comum” realmente significava na prática.

O que Ananias e Safira realmente provam

Pedro confronta Ananias com uma pergunta que, sozinha, resolve o debate:

Não é verdade que, conservando a propriedade, seria sua? E, depois de vendida, o dinheiro não estaria em seu poder? Por que você decidiu fazer uma coisa dessas? Você não mentiu para os homens, mas para Deus.

Repare na estrutura da pergunta: o campo continuava sendo propriedade de Ananias antes da venda, e o dinheiro continuava em seu poder depois dela. Ele tinha autoridade total sobre os dois, do início ao fim. Ninguém o obrigou a vender. Ninguém o obrigaria a entregar um centavo do que recebesse.

O pecado de Ananias não foi guardar parte do dinheiro — isso era um direito dele, segundo o próprio Pedro. O pecado foi fingir que tinha dado tudo, para parecer tão generoso quanto os outros sem pagar o preço real dessa generosidade. Sobre o que esse mesmo episódio revela a respeito da pessoa do Espírito Santo, já tratamos em outro post; aqui, o que interessa é o que ele prova sobre propriedade: um sistema de comunismo de verdade não teria do que acusar Ananias, porque não existiria propriedade privada para reter.

Um clube de amigos generosos, não um partido

A prática também não durou, nem se espalhou. Era limitada a Jerusalém, movida por devoção compartilhada mais do que por qualquer programa econômico, e as vendas aconteciam aos poucos, conforme a necessidade aparecia — não houve confisco nem fundo único permanente.1 O detalhe mais revelador vem depois: anos mais tarde, a própria igreja de Jerusalém passou a depender de uma coleta organizada por Paulo entre igrejas de outras regiões, recolhida justamente para socorrer os cristãos pobres de lá.2 Uma comunidade verdadeiramente autossuficiente, com bens de fato comuns, não precisaria de ajuda externa uma geração depois.

Os pais da igreja pensavam parecido

A geração seguinte de cristãos entendeu o episódio do mesmo jeito. Tertuliano, escrevendo por volta do ano 197, descreveu a prática da igreja do seu tempo com uma frase que ficou famosa: “um em mente e alma, não hesitamos em compartilhar nossos bens terrenos uns com os outros”; o compartilhamento ia tão longe que “tudo é comum entre nós, menos nossas esposas”.3 Repare que a frase pressupõe, o tempo todo, que existem “nossos bens” para compartilhar — bens que continuam sendo de alguém antes de serem generosamente oferecidos. Tertuliano descreve fraternidade radical, não abolição de propriedade.

O que Skousen acerta e onde erra

O ex-agente do FBI W. Cleon Skousen chega à mesma conclusão sobre o caráter voluntário da partilha em Atos — e aqui ele está certo: não havia fundo comum compulsório, e Ananias podia, sim, ficar com o campo e com o dinheiro.4 Mas Skousen dá um passo a mais que o texto não sustenta: ele chama o episódio de “capitalismo de livre-iniciativa com um coração”. Isso é usar categorias do século vinte para descrever uma comunidade do primeiro século que não operava com nenhuma das duas — nem mercado capitalista organizado, nem Estado comunista. Jerusalém, no ano 33, não tinha bolsa de valores nem partido único para servir de comparação.

O que Atos 2, 4 e 5 descrevem não é um sistema econômico, de direita ou de esquerda. É uma família espiritual nova, unida por algo mais forte que contrato ou lei, administrando bens reais com liberdade real. Rotular isso de “comunismo” ou de “capitalismo com coração” resolve pouco — e esconde a pergunta mais interessante, que volta mais adiante nesta série: que tipo de comunidade a ressurreição cria, se não é nenhuma das duas que já conhecemos?

Atos 2 e 4 descrevem cristãos que partilhavam bens por devoção, não por lei; o episódio de Ananias e Safira prova isso, já que o campo e o dinheiro continuavam sob autoridade total do casal, antes e depois da venda. A prática foi local, voluntária e de curta duração, e os pais da igreja, como Tertuliano, descreveram o mesmo tipo de generosidade fraterna, não abolição de propriedade. Chamar isso de comunismo ou de capitalismo força categorias modernas sobre um texto antigo que não conhecia nenhuma das duas.

Para refletir

  1. Por que o pecado de Ananias foi a mentira, e não a retenção do dinheiro?
  2. O que muda, na sua forma de dar, saber que a generosidade cristã do primeiro século era voluntária, não imposta?
  3. Por que você acha que essa prática específica não se espalhou nem durou para além de Jerusalém?
  4. Existe algum rótulo político moderno que você aplica, sem perceber, a situações bíblicas que não tinham esse rótulo disponível?

Referências

  1. Encyclopedia of the Bible. “Community Goods.” ↩

  2. A coleta é descrita em 1Cor 16.1 e detalhada em 2Cor 8–9. ↩

  3. Tertuliano. Apologia, cap. 39. Tradução de S. Thelwall, em Ante-Nicene Fathers (1885). ↩

  4. Skousen, W. C. O Comunista Exposto, “quarta pergunta vital”, p. 375–462. Vide Editorial, 2018. ↩

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