Foto por Joel Muniz no Unsplash
Em poucas palavras
- A teologia da libertação nasceu de uma pergunta que a própria Bíblia faz: por que Deus parece tomar partido a favor do pobre?
- Gustavo Gutiérrez não inventou essa preocupação; deu nome teológico a algo que os profetas de Israel já diziam havia quase três mil anos.
- O movimento evangélico da “missão integral”, de René Padilla, chegou a uma preocupação parecida sem adotar as ferramentas do marxismo.
- A honestidade exige reconhecer o que os dois acertam antes de apontar, com precisão, onde um deles tropeça.
Nenhum tribunal sério condena um réu sem ouvir a defesa primeiro. Isso vale até quando o juiz já desconfia, antes da sessão começar, de que o veredito será condenação. Ouvir a defesa não é concordar com ela; é garantir que a condenação, se vier, seja justa, e não o reflexo da antipatia de quem julga. Esta série já passou quatro textos seguidos criticando o marxismo e suas ramificações culturais. Chegou a hora de fazer o que um bom tribunal faria: ouvir a melhor defesa que o outro lado tem a oferecer, nas palavras dos próprios autores, antes de qualquer veredito final.
Uma pergunta que a Bíblia também faz
Gustavo Gutiérrez não começou com Marx. Começou com uma pergunta pastoral, feita em meio à pobreza extrema do Peru dos anos 1960: por que tanta gente fiel, batizada, que reza todo domingo, vive e morre na miséria mais dura, enquanto parte da igreja fala de salvação só para a alma?
Gutiérrez era padre dominicano e professor de teologia. Em 1971 publicou Teologia da Libertação: Perspectivas, lançado no Brasil pela editora Vozes.1 Ali definiu teologia não como um exercício de gabinete, mas como “reflexão crítica da práxis histórica à luz da Palavra revelada”2, ou seja, pensar a fé a partir do que a igreja está realmente fazendo (ou deixando de fazer) diante do sofrimento concreto do povo, e não só a partir de livros. Dessa reflexão nasceu a expressão que ficou associada ao seu nome: a “opção preferencial pelos pobres”.3
A ideia, em si, não é nova. Isaías já cobrava de Israel:
Aprendam a fazer o bem; busquem a justiça, repreendam o opressor; garantam o direito dos órfãos, defendam a causa das viúvas.
Deus, no Antigo Testamento, não trata todos os grupos sociais da mesma forma quando um oprime o outro. Ele cobra mais de quem tem mais poder para oprimir. Gutiérrez não inventou esse viés; ele deu um nome teológico a um padrão que já estava na Lei e nos Profetas, que esta série já examinou em detalhe.
A opção que incomoda dois lados
Dez anos depois do livro de Gutiérrez, a “opção preferencial pelos pobres” deixou de ser linguagem de teólogo isolado e virou documento oficial: o episcopado católico latino-americano reunido em Puebla, no México, em 1979, incorporou a expressão à sua conclusão final. Não foi um grupo de radicais marginais que adotou a frase; foram os bispos, em assembleia formal, representando a instituição mais conservadora que existe em matéria de hierarquia.
Isso já deveria bastar para complicar a caricatura mais preguiçosa sobre o tema, a de que “preocupação com o pobre” é sinônimo de “marxismo disfarçado de religião”. Tiago, escrevendo no primeiro século, sem jamais ter ouvido falar de luta de classes, tinha deixado o princípio registrado muito antes:
Se um irmão ou uma irmã estiverem com falta de roupa e necessitando do alimento diário, e um de vocês lhes disser: Vão em paz! Tratem de se aquecer e de se alimentar bem, mas não lhes dão o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.
Uma fé que só fala de céu e nunca de pão não é mais espiritual; é, nas palavras do próprio Tiago, uma fé morta. Quem leva isso a sério, católico ou protestante, de esquerda ou de direita, está lendo o texto corretamente.
As duas asas do avião
Enquanto Gutiérrez escrevia no Peru, um movimento paralelo nascia entre evangélicos latino-americanos, sem nenhuma dívida com o marxismo. C. René Padilla, teólogo equatoriano e cofundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana, batizou a ideia de “missão integral”: uma compreensão da fé cristã que relaciona a revelação de Deus com a totalidade da vida humana, e não só com a alma do indivíduo.4
Padilla levou o conceito ao Congresso Internacional de Evangelização Mundial, em Lausanne, na Suíça, em 1974. O documento final do encontro, assinado por mais de 2.300 líderes evangélicos de todo o mundo, afirmou que a salvação professada deve transformar a totalidade das responsabilidades pessoais e sociais do cristão, e fechou o parágrafo com uma frase que resume o Novo Testamento inteiro: “a fé sem obras é morta”.5 O lema que ficou associado a Lausanne resume o mesmo ponto: o evangelho todo, para todo homem, e para o homem todo.
Padilla costumava ilustrar essa integralidade com uma imagem simples: evangelização e ação social são como as duas asas de um avião. Tire uma, e o voo inteiro despenca; não sobra “meio avião” voando torto, sobra um avião que não decola.6 Repare no que esse movimento conseguiu: chegou a uma preocupação social tão séria quanto a de Gutiérrez, sem precisar importar a luta de classes nem a leitura materialista da história. A honestidade exige dizer: dá pra levar o pobre a sério sem precisar de Marx para isso.
O que os dois acertam
Gutiérrez e Padilla discordam em método e em filiação eclesiástica, mas concordam num diagnóstico: parte da igreja, em algum momento, aprendeu a tratar o evangelho como um assunto só de alma, e deixou o corpo do pobre para a política cuidar sozinha. Os dois tinham razão em apontar isso. Cristo multiplicou pão antes de pregar sobre o Pão da Vida; curou corpos antes (e junto) de perdoar pecados. Um evangelho que separa essas duas coisas não é mais puro. É incompleto.
Há também uma verdade histórica desconfortável por trás dos dois movimentos: em vários momentos da América Latina do século vinte, igrejas cristãs (católicas e protestantes) ficaram caladas diante de regimes que exploravam e matavam gente pobre, porque calar garantia paz com o poder estabelecido. Gutiérrez e Padilla nasceram, cada um a seu modo, como uma recusa a essa cumplicidade silenciosa. Isso merece reconhecimento, não só ressalva.
Onde até Roma faz a ressalva
A crítica mais séria à teologia da libertação não veio de evangélicos conservadores de fora; veio de dentro da própria Igreja Católica, da autoridade doutrinária mais alta que ela tem. Em 1984, a Congregação para a Doutrina da Fé, então presidida pelo cardeal Joseph Ratzinger, publicou a instrução Libertatis Nuntius. O documento não condena a preocupação com os pobres, nem a teologia da libertação como um todo; ele mesmo declara que seu alvo é mais estreito.7 O alvo é o empréstimo acrítico de conceitos da análise marxista, em especial a “luta de classes” tratada como motor da história, e não como simples descrição de um conflito social real.
A distinção importa, e vale a pena repeti-la com clareza: reconhecer que existe conflito entre opressores e oprimidos é observação bíblica; os profetas fazem isso o tempo todo. Adotar a luta de classes como chave explicativa última da história humana é outra coisa: é importar, junto com a ferramenta, uma metafísica que não tem lugar para um Deus soberano agindo por trás dos acontecimentos. A missão integral de Padilla, ao nunca ter adotado essa chave interpretativa, escapou dessa armadilha específica sem precisar abrir mão do cuidado com o pobre.
Gutiérrez e Padilla, cada um à sua maneira, levaram a sério algo que o texto bíblico também leva: a fé que não produz cuidado concreto pelo necessitado está morta. Onde a teologia da libertação tropeça não é em se importar com o pobre; é em tomar emprestada, sem o crivo crítico necessário, uma lente que enxerga a história só como conflito de classes, apagando o lugar de Deus na equação. A missão integral mostra que dá para fazer a primeira coisa sem cair na segunda. Esse é o padrão que o resto desta série assume a partir daqui: cuidado real com o pobre, sem o empréstimo acrítico de uma cosmovisão que nega a Deus o trono da história.
Para refletir
- Antes deste texto, você já tinha ouvido a teologia da libertação nas palavras de um dos seus próprios autores, ou só na versão resumida pelos seus críticos?
- Existe uma diferença real entre “ter uma preocupação preferencial pelos pobres” e “usar a luta de classes como chave de interpretação da história”? Por quê?
- Sua igreja pratica as duas asas do avião (evangelho anunciado e evangelho vivido em cuidado concreto) ou só uma delas?
- Que parte da crítica de Roma à teologia da libertação você acha que vale também para a sua própria tradição cristã?
Referências
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Instituto Humanitas Unisinos. “Gustavo Gutiérrez, o pai da teologia da libertação.” ↩
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Silva, R. “Raiz espiritual da Teologia da Libertação: método e escopo em diálogo com Gustavo Gutiérrez.” Revista Eletrônica Correlatio, citando Gutiérrez (1971, p. 38). ↩
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Vatican News. “Morre Gustavo Gutiérrez, defensor dos pobres e teólogo da libertação.” (2024) ↩
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Ultimato. “O Que É Missão Integral.” ↩
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Monergismo. “Pacto de Lausanne.” (1974) ↩
-
Coletivo Bereia. “René Padilla: teólogo da missão integral, em memória.” ↩
-
Congregação para a Doutrina da Fé. “Instrução Libertatis Nuntius sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação.” (1984) ↩