Em poucas palavras
- O voto não é neutro: ele entrega a alguém o poder de mandar na vida do próximo. Por isso é uma decisão moral e, para o cristão, espiritual.
- Socialismo, marxismo e social-democracia não são a mesma coisa. O problema central para o cristão está no marxismo, que é uma visão de mundo completa, com explicação própria do homem, do mal e da religião.
- Muitos jovens cristãos perdem a fé na universidade porque nunca aprenderam que o cristianismo também é uma visão de mundo.
- Esta série vai mostrar, em 11 partes, por que cristianismo e socialismo marxista partem de respostas opostas, para que você vote de olhos abertos.
Ninguém assina um contrato de aluguel sem ler as cláusulas. Pelo menos ninguém que já tenha alugado um imóvel duas vezes. A gente lê o valor, o prazo, a multa, quem paga o conserto do telhado. E, no entanto, a cada dois anos, milhões de cristãos assinam um contrato bem maior, com cláusulas sobre a escola dos filhos, a liberdade da igreja e o que o Estado pode ou não tomar de cada um, e assinam pela capa. Pelo nome do partido, pela simpatia do candidato, pela cor da camisa do vizinho.
Esta série é um convite para ler as cláusulas. A pergunta é simples de enunciar e difícil de responder: um cristão pode votar, em boa consciência, num partido de cunho socialista?
Vou adiantar onde quero chegar, para que você não tenha a sensação de estar sendo levado por um corredor escuro. Minha tese é que o cristianismo e o socialismo partem de respostas diferentes para as perguntas mais antigas que existem: quem é o homem, de onde vem o mal, a quem pertencem as coisas e até onde vai o poder de César. Por isso, votar num partido socialista não é um gesto neutro. É um juízo moral. Pode até ser feito, como veremos ao longo da série, mas precisa ser feito de olhos abertos.
“Religião e política não se misturam”
Você já ouviu essa frase. Talvez já a tenha dito. Ela costuma vir com boa intenção: ninguém quer ver o púlpito virar palanque, nem a Ceia virar comício.
O problema é que a frase prova demais. Se fé e política não se misturam, então a fé não tem nada a dizer sobre o aborto, sobre a corrupção, sobre o juiz que vende sentença ou sobre o patrão que retém o salário do trabalhador. Os profetas de Israel discordariam. Amós não fazia campanha, mas também não ficava calado diante de quem vendia “o justo por dinheiro” (Am 2.6).
Jesus deu a fórmula mais citada e menos lida sobre o assunto: Mateus 22.21. Repare que a frase não diz que César não existe, nem que Deus fica fora da moeda. Ela traça uma fronteira. E toda fronteira supõe dois territórios reais. O cristão não foge da política; ele a coloca no seu devido lugar, que é abaixo de Deus.
Abraham Kuyper, teólogo e primeiro-ministro da Holanda, disse isso de forma memorável na inauguração da Universidade Livre de Amsterdã, em 20 de outubro de 1880: não há um centímetro quadrado em todo o domínio da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: “É meu!”1. A cabine de votação está dentro desse território.
O professor e pastor Tassos Lycurgo vai além: “Toda decisão política em última instância é uma decisão espiritual.”2 Você pode achar a frase exagerada. Mas pense no que um voto realmente faz. Ele entrega a alguém o poder de coagir: de cobrar, de proibir, de educar os filhos dos outros. Entregar poder a alguém sobre o próximo é um ato moral. E tudo o que é moral, para o cristão, acaba diante do trono de Deus.
De que estamos falando, afinal
Metade das brigas sobre esse tema acontece porque as pessoas usam a mesma palavra para coisas diferentes. Então vamos limpar o terreno.
Socialismo, no sentido amplo, é a família de ideias que pretende substituir a propriedade privada dos meios de produção (fábricas, terras, bancos) pela propriedade coletiva, geralmente administrada pelo Estado. A versão mais influente dessa família é o marxismo, formulado por Karl Marx e Friedrich Engels. No Manifesto do Partido Comunista, de 1848, eles resumiram o projeto sem rodeios: “os comunistas podem condensar a sua teoria numa única expressão: supressão da propriedade privada.”3
O marxismo, porém, não é só uma teoria econômica. É uma cosmovisão completa. Traz uma explicação da história (a luta de classes), uma explicação do homem (produto das relações materiais) e uma explicação da religião (um sintoma da opressão, destinado a desaparecer). É aqui que a conversa com o cristianismo fica séria, e é para cá que boa parte desta série vai olhar.
Social-democracia é outra coisa. Nasceu dentro do movimento socialista, mas foi abandonando a revolução e a abolição da propriedade. O caso clássico é o Partido Social-Democrata alemão, que no Programa de Bad Godesberg, em 1959,4 deixou o marxismo de lado e aceitou a economia de mercado. Um social-democrata quer impostos mais altos, rede de proteção ampla e serviços públicos fortes. Pode-se discordar dele em muita coisa, mas ele não está propondo o fim da propriedade nem o fim de Deus.
E o que é um partido de cunho socialista? Para os fins desta série, é aquele cujo programa, cuja formação de quadros ou cuja tradição intelectual se apoia nas premissas do marxismo, mesmo que o nome do partido não diga isso e mesmo que o candidato nunca tenha lido Marx. O que nos interessa não é o rótulo na fachada. É o que está na planta da casa.
Essa distinção vai nos poupar de dois erros simétricos. O primeiro é chamar de comunista qualquer pessoa que defenda um posto de saúde. O segundo é achar que, como ninguém mais fala em “ditadura do proletariado”, as ideias de fundo desapareceram. Ideias raramente desaparecem. Elas trocam de roupa.
Por que a pergunta é urgente
Há um fenômeno que muitos pais cristãos conhecem por dentro. O filho cresce na igreja, faz a escola dominical, canta no grupo de jovens. Entra na universidade. Dois anos depois, a fé virou uma lembrança de infância, um pouco constrangedora, como o pijama de super-herói.
Eu vi isso acontecer de perto, mais de uma vez.
E não é só impressão. Uma pesquisa da Lifeway Research, feita nos Estados Unidos em 2017 com mais de dois mil jovens adultos, mostrou que dois terços dos que frequentavam igreja protestante na adolescência pararam de frequentar por pelo menos um ano entre os 18 e os 22 anos.5 A razão mais citada foi justamente a mudança para a faculdade. É um dado americano, e o Brasil tem sua própria realidade, mas o padrão é reconhecível para quem acompanha jovens nas nossas igrejas.
Por que isso importa para uma série sobre voto? Porque, na maior parte das vezes, o jovem não abandona a fé por causa de um argumento contra a ressurreição. Ele a abandona porque encontra uma visão de mundo inteira, coerente, apaixonada, que promete justiça para os pobres e explica todos os males do mundo, e descobre que a sua fé nunca tinha sido apresentada a ele como uma visão de mundo. Era só um conjunto de hábitos de domingo. Contra um sistema, hábitos perdem.
Lycurgo resume a tese de forma dura: para ele, “o cristianismo e o comunismo são inconciliáveis”.6 Um cristão que se diz comunista, segundo ele, ainda não entendeu um dos dois. Não vou pedir que você aceite isso agora. Vou pedir que você acompanhe a série e julgue no fim.
A regra do jogo
O apóstolo Paulo deu duas instruções que vão guiar todos os textos daqui para frente.
A primeira é de abertura: 1 Tessalonicenses 5.21. Examinar tudo significa ouvir o socialismo nos seus melhores argumentos, não nas suas caricaturas. Há uma série inteira de cristãos sérios que defenderam ideias socialistas, e eles terão um post só para eles. Quem só conhece a versão fraca do adversário não conhece o adversário.
A segunda é de vigilância: Colossenses 2.8. Examinar não é engolir. Toda filosofia política carrega uma ideia de salvação: de onde vem o mal e quem vai nos livrar dele. Quando essa ideia compete com Cristo, o cristão precisa perceber.
E há uma terceira regra, que é minha: a crítica vale para todos os lados. A idolatria política não tem cor. Um cristão pode transformar o mercado, a nação ou um líder carismático num ídolo com a mesma facilidade com que outro transforma o Estado. Um post desta série vai tratar exatamente disso. Se o texto virar panfleto, ele falhou.
O roteiro
Para examinar a questão com algum método, vou usar duas fontes de apoio além da Bíblia e da teologia cristã. A primeira é o livro O Comunista Exposto, de W. Cleon Skousen, publicado em 1958 e lançado no Brasil pela Vide Editorial, especialmente as suas “cinco perguntas vitais”. A segunda são as reflexões de Tassos Lycurgo sobre a passagem do marxismo econômico para a batalha cultural. Nenhum dos dois é infalível, e em alguns pontos vou discordar deles. Mas os dois fazem as perguntas certas.
A série terá onze partes:
- A pergunta certa (este texto)
- O que a Bíblia diz sobre propriedade, pobreza e poder
- Os primeiros cristãos eram comunistas?
- O homem novo e o velho Adão
- A arma secreta: Marx, Deus e a sala de aula
- De Marx a Gramsci: a revolução que mudou de campo
- O Estado que quer ser tudo
- A história como testemunha
- A melhor defesa do outro lado
- A crítica que vale para todos
- Então, como o cristão vota?
O livro de Provérbios observa que Provérbios 29.2. É uma constatação, não uma estratégia eleitoral. Mas ela lembra que quem governa importa, e que o gemido ou a alegria de um povo passam, entre outras coisas, pelas escolhas que fazemos numa cabine de votação.
No próximo texto, abrimos a Bíblia. Antes de perguntar o que Marx pensava sobre a propriedade, vale perguntar o que Deus pensa sobre ela.
Em termos simples
- Socialismo: família de ideias que quer trocar a propriedade privada das fábricas, terras e bancos pela propriedade coletiva, geralmente nas mãos do Estado.
- Marxismo: a versão do socialismo criada por Marx e Engels. Vai além da economia: explica a história pela luta de classes, o homem pelas condições materiais e a religião como fruto da opressão.
- Comunismo: no marxismo, a etapa final prometida, uma sociedade sem classes, sem propriedade privada e, no fim, sem Estado. Na prática, o nome dos regimes que tentaram chegar lá.
- Social-democracia: corrente que nasceu do socialismo, mas abandonou a revolução e aceitou o mercado. Defende impostos altos e um Estado de bem-estar amplo.
- Cosmovisão: o conjunto de respostas que uma pessoa dá às grandes perguntas: de onde viemos, o que deu errado, como consertar, para onde vamos.
Como reconhecer isso hoje
Na hora de avaliar um partido ou um discurso, preste atenção a estes sinais:
- Todo problema social é explicado como luta entre opressores e oprimidos, ricos e pobres, um grupo contra outro.
- A solução proposta passa quase sempre por aumentar o poder do Estado sobre a economia, a escola e a família.
- A fé é tolerada enquanto serve à causa, mas tratada como atraso quando discorda dela.
- O discurso promete um mundo novo e justo, mas fala pouco do mal que existe dentro de cada pessoa.
Nenhum desses sinais, sozinho, prova nada. Juntos, mostram de que fonte uma ideia está bebendo.
Para refletir
- Você já votou em alguém sem conhecer as ideias de fundo do partido dele? O que pesou na sua decisão?
- Por que a frase “religião e política não se misturam” é ao mesmo tempo verdadeira e falsa?
- Na sua igreja, os jovens aprendem o cristianismo como uma visão de mundo ou como um conjunto de hábitos de domingo?
- Qual a diferença entre defender um Estado que cuida dos pobres e aceitar uma filosofia que nega Deus?
Resumo
Votar é entregar poder sobre o próximo, e isso é um ato moral. Socialismo é um termo amplo, mas o seu núcleo mais influente, o marxismo, é uma visão de mundo que responde de forma oposta ao cristianismo às perguntas sobre Deus, o homem e o mal. Muitos cristãos, sobretudo jovens, nunca foram ensinados a enxergar essa diferença. Esta série existe para isso.
Para se aprofundar
Livros-base da série
- Skousen, W. C. O Comunista Exposto. Vide Editorial, 2018. Escrito em 1958 por um ex-agente do FBI. A parte final, “Cinco perguntas vitais”, será usada ao longo da série.
- Courtois, S. (org.) et al. O Livro Negro do Comunismo: crimes, terror e repressão. Record, 1999. Levantamento histórico dos crimes dos regimes comunistas, feito por historiadores europeus.
- Lycurgo, T. As Bases Satânicas do Comunismo. A dimensão espiritual do comunismo, na leitura de um professor da UFRN e pastor.
- Cristianismo e Comunismo: uma guerra de mundos — a cosmovisão bíblica contra a utopia vermelha.
Referências
-
Kuyper, A. Sphere Sovereignty, discurso inaugural da Universidade Livre de Amsterdã. Citado em: “Not One Square Inch.” (1880) ↩
-
Portal de Prefeitura. “Pastor Tassos Lycurgo diz que a esquerda quer calar a igreja.” (2026) ↩
-
Marx, K.; Engels, F. “Manifesto do Partido Comunista”, cap. II. (1848) ↩
-
Partido Social-Democrata da Alemanha. “Godesberg Program.” (1959) ↩
-
Lifeway Research. “Most Teenagers Drop Out of Church as Young Adults.” (2019) ↩
-
Lycurgo, T. “O inimigo do comunismo não é o capitalismo, mas sim o cristianismo.” Fábrica EBD. (2022) ↩