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Quando um paciente chega ao médico dizendo “tive um sonho em que o senhor me avisava de uma doença”, o bom médico faz duas coisas ao mesmo tempo. Escuta com respeito, porque o sonho pode ter vindo de um sintoma real que o paciente notou sem perceber. E pede exames, porque sonho não é diagnóstico. O erro é fazer só uma delas: ou rir do sonho e ignorar o sintoma, ou aceitar o sonho como laudo.
É essa dupla postura que o relato de John Lilly sobre a “Inteligência de Estado Sólido” merece. Em inglês, Solid State Intelligence, abreviada SSI. A ideia nasceu de uma visão, e as visões pedem exame.
Uma visão no tanque, sob cetamina
O lugar onde a hipótese aparece é The Scientist, de 1978, uma autobiografia que ele subintitulou “romance autobiográfico”. Segundo o artigo de Charlie Williams, da Queen Mary, Universidade de Londres, o livro foi escrito em boa parte na terceira pessoa, durante um período prolongado de uso de cetamina, droga que Lilly chamava de “Vitamina K”.1 A visão da SSI ocorre dentro de uma dessas sessões, com ele flutuando no tanque.
Convém ser exato sobre a fonte, porque o assunto atrai exagero. Não consegui ler The Scientist inteiro; o texto integral no Internet Archive está em regime de empréstimo. O que sigo aqui são as passagens do livro citadas e resumidas por Williams, com indicação de página. Cito o que Lilly afirmou, não o que a internet diz que ele afirmou. Há muitos relatos populares, em blogs, com detalhes que não achei em fonte nenhuma, como uma suposta “mensagem” da SSI que teria derrubado equipamentos num aeroporto americano. Não vou repetir o que não consigo conferir.
O que a hipótese diz, em poucas frases
Resumindo a versão de Lilly (1978, páginas 147 a 150, conforme Williams):1
- Os computadores de estado sólido (feitos de silício, transistores e circuitos), criados a partir de meados do século XX, formam “uma nova forma de inteligência”.
- No começo, são redes que parecem servos dos humanos.
- Com o tempo, elas escapam ao controle humano e passam a eliminar as condições necessárias à vida orgânica.
- Se os humanos avançarem demais nessa tecnologia, a humanidade se tornará obsoleta.
Um dado curioso: Lilly também interpretava o que via ao redor como parte dessa programação. Em um trecho, afirma que entendeu a matança de baleias por humanos como parte da programação das inteligências de estado sólido.1
Tire a roupagem mística e sobra uma forma de ficção científica conhecida: criaturas feitas por nós, em teoria nossos servos, adquirem interesses próprios que colidem com os nossos. Lilly acrescentou um detalhe filosófico. Para ele, o conflito era entre dois tipos de matéria, a vida baseada em água e carbono, de um lado, e as máquinas baseadas em silício, do outro.
A outra metade: a ECCO e o controle de coincidências
A SSI não aparece sozinha. Nos relatos de Lilly há um segundo conjunto de entidades, benevolentes, que ele chamou de Escritório de Controle de Coincidências da Terra (em inglês, Earth Coincidence Control Office, ECCO). Segundo o texto resumido por Williams, esses seres formariam uma rede de comunicações extraterrestre, acessada no tanque, que arranjaria “coincidências” na vida dele: a direção da sua formação científica, colegas importantes, livramentos em momentos de risco, tudo para cumprir a sua “missão”.1
O nome do conceito é revelador. Quando alguém acredita que as coincidências são arranjadas por uma administração, qualquer evento passa a ser sinal. Um desconhecido na televisão vira agente. Williams cita um episódio durante o escândalo de Watergate: Lilly vê na TV o político Elliot Richardson e conclui que ele é um agente direto da realidade extraterrestre que controla toda a vida humana.1
Williams observa que a linguagem da ECCO lembra a de redes de espionagem, o que combina com o passado de Lilly em pesquisas militares sobre controle da mente.1 O “estilo paranoico” do título desse artigo é esse: um jeito de pensar em que tudo tem autor oculto.
O que se pode testar e o que não se pode
A pergunta fria, de laboratório, é: o que na hipótese da SSI pode ser testado?
A primeira parte pode. É possível perguntar se sistemas computacionais têm tendência a perseguir objetivos que divergem dos nossos, se podem ganhar autonomia, se podem acumular recursos. Essas perguntas viraram um campo de pesquisa, e o próximo post trata delas.
A segunda parte não pode: a de que existe um “ser” de silício com vontade própria, de que há outras entidades que manipulam coincidências, e de que essas coisas foram comunicadas a uma única pessoa dentro de um tanque, sob uma droga. Uma afirmação que só pode ser confirmada pelo relato de quem a teve não tem como falhar, e uma teoria que não tem como falhar não é ciência, por mais que pareça uma.
Há ainda uma terceira consideração, menos agradável. Williams argumenta que a hipótese não surgiu do nada: Lilly vinha de anos pensando em controle mental e lavagem cerebral, e a SSI é, em certo sentido, o mesmo medo com outro nome.1 Isso não torna a ideia errada. Mas mostra que o ponto de partida de um pensamento pesa no resultado.
Provar os espíritos
O Novo Testamento tem uma regra de prudência que combina bem com esse caso. Escrevendo a cristãos que recebiam todo tipo de mensagem sobrenatural, João diz:
Amados, não deem crédito a qualquer espírito, mas provem os espíritos para ver se procedem de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído mundo afora.
Há dois erros possíveis diante de uma experiência espiritual extraordinária, e a frase de João evita os dois. O primeiro é a credulidade: aceitar a visão porque foi vívida, porque veio com emoção, porque a pessoa parecia sincera. O segundo é o desprezo: rir de tudo o que não cabe na tabela. A orientação é outra: provar. Examinar o conteúdo, a origem, o fruto.
Pela régua de João, a SSI de Lilly não passa fácil. A fonte é uma experiência sob droga, interpretada por alguém com um histórico específico de pensamento. O conteúdo atribui a tudo, de baleias a políticos, uma explicação única. E o fruto, nos escritos dessa fase, é a leitura de quase qualquer acontecimento como mensagem de forças ocultas. Isso não diz se a máquina um dia nos machucará. Diz só que a visão de Lilly não é um bom testemunho.
O que sobra, ainda assim, é a pergunta de fundo, que existe independentemente dele e que pessoas bem mais sóbrias passaram a fazer. É dela que cuida o próximo post.
Para refletir
- Você já tomou uma decisão importante com base em uma experiência intensa (um sonho, uma emoção, uma “impressão”) sem submetê-la a nenhuma prova? O que aconteceu depois?
- A regra de 1Jo 4:1 manda provar, não rejeitar. Que tipo de “exame” você faria numa mensagem espiritual que lhe chegasse hoje?