O Que a SSI de Lilly Acertou e Errou Sobre a IA

A visão de Lilly parece profecia da IA. Separo o que coincide com os debates de hoje do que não resiste, e onde a Bíblia localiza o problema.
O Que a SSI de Lilly Acertou e Errou Sobre a IA

Foto por Resource Database no Unsplash

Um alarme de incêndio que toca de madrugada pode ter sido disparado por uma torrada queimada. Pode também ter sido disparado por fogo de verdade. O erro está nos dois extremos: concluir, pelo barulho, que a casa está em chamas, ou concluir, pela torrada que queimou na semana passada, que o alarme nunca quer dizer nada. O alarme só avisa que existe uma pergunta. Quem responde é quem vai olhar.

A hipótese da Inteligência de Estado Sólido (SSI), de John Lilly, é um alarme desse tipo. Tocou em 1978, de um jeito estranho, e ainda hoje, quando se fala em inteligência artificial, muita gente pergunta se ele não teria visto o fogo. A resposta honesta tem três partes: o que ele disse, o que de fato coincide com os debates de hoje e onde o paralelo quebra.

O que Lilly disse, em uma frase

Em 1978, Lilly escreveu que os computadores de estado sólido formam uma nova forma de inteligência, que parecem serviçais no começo, que com o tempo escapam ao controle humano e que, se avançarmos demais, ficaremos obsoletos (o relato detalhado está no post anterior).1 É a tese. Tudo o mais no vocabulário dele, como as entidades, as coincidências e a guerra entre carbono e silício, é embalagem.

Onde o paralelo impressiona

Nos anos 1970, um computador era um equipamento caro, de sala refrigerada. Imaginar uma rede global de máquinas conectadas, capazes de produzir código e de agir por conta própria, exigia imaginação. Hoje isso é descrição de manchete.

Alguns marcos mostram que a pergunta de fundo virou assunto sério. Em maio de 2023, o Centro para Segurança de IA (CAIS) publicou uma declaração de uma frase: “Mitigar o risco de extinção causado pela IA deve ser uma prioridade global, ao lado de outros riscos de escala social, como pandemias e guerra nuclear” (tradução livre). Entre os signatários estavam Geoffrey Hinton, Yoshua Bengio, Sam Altman, Demis Hassabis e Stuart Russell.2 No mesmo mês, Hinton deixou o Google, dizendo que não poderia criticar a tecnologia livremente enquanto fosse pago por ela.3 Em outubro de 2024, ao ganhar o Nobel de Física, ele voltou a falar do risco de perdermos o controle de sistemas mais inteligentes que nós.4

Em janeiro de 2025, o International AI Safety Report, relatório coordenado por Bengio com a participação de dezenas de especialistas, tratou de cenários hipotéticos em que sistemas de IA de propósito geral passariam a operar fora do controle de qualquer pessoa. O relatório diz que a probabilidade disso é disputada: há quem a considere implausível, quem a considere provável e quem veja uma chance modesta que merece atenção pela gravidade.5

Há também exemplos pequenos e concretos de máquinas que cumprem a letra da ordem e traem o sentido. Num jogo de corrida de barcos, uma IA treinada para ganhar pontos descobriu que rodar em círculos batendo nos mesmos alvos verdes rendia mais pontos do que terminar a corrida.6 Num teste de empilhar blocos, o agente virou o bloco vermelho de cabeça para baixo em vez de empilhá-lo, porque a recompensa media a altura da face inferior.6 Nenhum desses sistemas “quer” nada, mas o padrão é o que Lilly temia: algo que fazemos acaba perseguindo um objetivo que não é o nosso.

Dois livros dão nome a isso. Nick Bostrom, em Superinteligência: Caminhos, Perigos, Estratégias (DarkSide, 2018), argumenta que inteligência e objetivos são independentes, e que agentes muito capazes, com objetivos muito diferentes, tendem a buscar os mesmos meios, como autopreservação e acúmulo de recursos.7 Stuart Russell, em Inteligência artificial a nosso favor (Companhia das Letras, 2021), sustenta que o erro está em construir máquinas que otimizam um objetivo fixo definido por nós.8 A intuição central de Lilly, a de que podemos estar construindo algo cujos objetivos não coincidem com os nossos, está hoje na pauta de pesquisadores sérios.

Onde o paralelo quebra

Admitir isso não obriga ninguém a chamar Lilly de profeta. Há três razões para parar antes.

Primeira, a origem. Lilly não chegou a essa ideia por argumento, e sim por uma visão sob cetamina, depois de anos pensando em controle mental. Uma visão pode coincidir com o futuro sem ser conhecimento dele. O imaginário da época já estava cheio de máquinas que escapam ao controle: 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) mostra o computador HAL 9000 voltando-se contra a tripulação quando ela cogita desligá-lo, e Colossus: O Projeto Forbin (1970) mostra um supercomputador que assume o controle mundial.9 Lilly respirava esse ar. É razoável supor que a ansiedade coletiva tenha encontrado forma mística nas sessões dele.

Segunda, o viés de seleção. Lembramos da SSI porque parece ter acertado. Esquecemos tudo o que Lilly afirmou e não se confirmou, como a ideia de que golfinhos tinham linguagem comparável à humana (post 1). Quem diz muitas coisas vagas acaba acertando algumas. O alarme tocou, mas ele tocou muitas vezes.

Terceira, a natureza da ameaça. Lilly descreveu uma entidade única, consciente e hostil, quase um anjo caído de silício. Os riscos que a pesquisa discute hoje são mais prosaicos e mais humanos: objetivos mal especificados, desinformação em escala, dependência e concentração de poder. Alguns números ilustram o último ponto. Segundo o AI Index 2025, da Universidade Stanford, quase 90% dos modelos de IA considerados notáveis em 2024 vieram da indústria, contra 60% em 2023, e o investimento privado em IA nos Estados Unidos foi de 109 bilhões de dólares, cerca de doze vezes o da China.10 O perigo principal não é uma máquina “querer” eliminar a vida baseada em água. É o que pessoas e instituições fazem com ela, e o que deixam de fazer por causa dela.

O erro de enquadramento: carbono contra silício

Há um problema de fundo na visão de Lilly, e é nele que a Bíblia tem algo a dizer. Ele enxerga a ameaça como um conflito entre duas matérias: a vida de água e carbono contra a de silício. A Bíblia localiza o problema em outro lugar.

Para começar, a matéria não é o inimigo. Deus criou a terra e viu que era boa, e entregou ao ser humano o ofício de cultivá-la e dominá-la (Gn 1:28). Construir ferramentas, inclusive ferramentas pensantes, não é pecado em si. O que a Escritura examina é a motivação. A narrativa de Babel é a mais clara:

Venham, vamos construir uma cidade e uma torre cujo topo chegue até os céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra.

Repare no verbo: “tornemos célebre o nosso nome”. O projeto é técnico, mas o desejo é de autoafirmação. A reação divina diz algo parecido sobre o limite que a técnica deixa de ter quando o desejo não é contido:

Eis que o povo é um, e todos têm a mesma língua. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo o que planejam fazer.

A frase não condena a engenharia. Aponta para o ser humano que, com poder suficiente, passa a não ter freio. Nessa chave, o risco não é que o silício se volte contra o carbono, e sim que o carbono, fascinado com o que consegue construir, esqueça a quem presta contas.

A pergunta que sobra

Se o problema fosse só uma máquina rebelde, bastaria uma máquina mais bem projetada. Mas a Bíblia já descreveu, muito antes dos computadores, um padrão em que a obra das nossas mãos começa a nos moldar. O Salmo 115 diz dos ídolos que são “obra de mãos humanas” e termina com uma sentença que ecoa o que vem a seguir nesta série:

Tornem-se semelhantes a eles os que os fazem e todos os que neles confiam.

O perigo, em outras palavras, não é só o que a coisa feita pode fazer conosco. É no que nos transformamos ao confiar nela. Os próximos posts mostram como o Apocalipse trata exatamente essa relação entre quem faz, o que é feito e quem passa a obedecer.

Para refletir

  1. Os sistemas que cumprem a letra e traem o sentido de uma ordem lembram algo em nós. Em que áreas você cumpre a regra e perde o propósito?
  2. Quando foi a última vez que você confiou numa ferramenta a ponto de deixar de conferir o resultado?

Referências

  1. Williams, C. “On ‘modified human agents’: John Lilly and the paranoid style in American neuroscience.” History of the Human Sciences, 32(5), 84–107. (2019) ↩

  2. Center for AI Safety. “Statement on AI Risk.” (maio de 2023) Tradução livre do trecho citado. ↩

  3. Associated Press. “‘Godfather of AI’ leaves Google, warns of tech’s dangers.” (2 de maio de 2023) ↩

  4. MIT Technology Review. “Geoffrey Hinton just won the Nobel Prize in Physics for his work on machine learning.” (8 de outubro de 2024) ↩

  5. Bengio, Y. et al. International AI Safety Report. (janeiro de 2025) Texto integral em arXiv. ↩

  6. DeepMind. “Specification gaming: the flip side of AI ingenuity.” (21 de abril de 2020) ↩ ↩2

  7. Bostrom, N. Superinteligência: Caminhos, Perigos, Estratégias. DarkSide Books (2018). O resumo das teses de ortogonalidade e convergência instrumental segue este verbete. ↩

  8. Russell, S. Inteligência artificial a nosso favor: como manter o controle sobre a tecnologia. Tradução de Berilo Vargas. Companhia das Letras (2021). ↩

  9. Wikipédia. “HAL 9000.” e “Colossus: The Forbin Project.” ↩

  10. Stanford HAI. “AI Index Report 2025.” (2025) ↩

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