Foto por Dragon White Munthe no Unsplash
Imagine um árbitro com acesso ao VAR para rever cada lance da partida, menos os próprios. Ele marca faltas dos dois times, anula gols, expulsa jogadores; e, quando alguém aponta que ele mesmo errou, a resposta vem pronta: árbitro não se revisa. Em pouco tempo esse homem já não está apitando o jogo. Está acima dele. O curioso é que ninguém lhe entregou esse poder. Bastou que ele se recusasse a ser examinado e que os outros aceitassem a recusa.
O homem que examina tudo e nunca é examinado
Quem se nomeia crítico de tudo acaba, sem perceber, sentado acima de tudo. Essa é a ideia central de uma palestra do filósofo Olavo de Carvalho (1947-2022) que voltou a circular neste mês.1 O ponto de partida é uma frase de Karl Marx, numa carta de 1843 ao amigo Arnold Ruge, propondo a “crítica implacável de tudo o que existe”.2 Não da economia, nem de um governo: de tudo. Casamento, escola, amizade, trabalho, lei, moral.
O raciocínio é simples e incômodo. Se toda a realidade é suspeita e eu sou quem a examina, eu mesmo fiquei fora do exame. Sou o olho que vê tudo e nunca é visto. Olavo chama esse personagem de super-humano, não porque seja melhor que os outros, mas porque se dispensou das obrigações que valem para os outros. Os velhos revolucionários ainda faziam autocrítica de vez em quando. O crítico absoluto não erra, porque o critério do erro é ele.
A história ofereceu um exemplo quase cômico. Em 1969, quando estudantes ocuparam o Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, Theodor Adorno, um dos pensadores que mais ensinaram uma geração a desconfiar de toda autoridade, chamou a polícia.3 A crítica de tudo tinha chegado à sala dele. Olavo dá a esse tipo de descompasso o nome de paralaxe cognitiva: a distância entre o que a teoria de alguém afirma e o que a vida dessa mesma pessoa demonstra.1 Não é exatamente hipocrisia. É mais grave: quem sofre dela nem percebe.
“Você não tem o direito de me ver como me vê”
O super-humano não se contenta em escapar do julgamento; ele quer decidir como você vai enxergá-lo. Não basta que ninguém o critique. É preciso que todos o vejam do jeito que ele escolheu ser visto, e quem enxergar outra coisa passa a ser o problema.
Os irmãos Marx (os do cinema, não o do Capital) têm uma cena que resume isso. Em Diabo a Quatro, de 1933, Chico Marx, disfarçado de Groucho, é flagrado pela personagem de Margaret Dumont e se defende com uma pergunta: “Em quem você vai acreditar, em mim ou nos seus próprios olhos?”4 Em 1933 era piada. Olavo observa, com razão, que virou método.
E o método não tem dono. Está no chefe que transforma qualquer observação sobre o próprio trabalho em insubordinação. Está no perfil de rede social montado com cuidado, cujo dono trata como ataque pessoal todo comentário que não confirme a imagem. Está no marido ou na esposa que, numa discussão, aceita falar de tudo, menos do próprio comportamento. Está no líder de igreja que se cerca de quem só concorda e chama de rebeldia qualquer pergunta. Em cada caso, a mesma exigência silenciosa: veja-me como eu me apresento, e não como eu sou.
“Vocês serão como Deus”: a tentação mais antiga
A vontade de ocupar esse lugar não nasceu em Frankfurt; nasceu no Éden. A primeira proposta que a serpente fez à humanidade não foi de prazer nem de riqueza. Foi de posição:
Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerem, os olhos de vocês se abrirão e, como Deus, vocês serão conhecedores do bem e do mal.
Conhecer o bem e o mal, ali, não é ter mais informação. É decidir por conta própria o que é bom e o que é mau, sem prestar contas a ninguém. É o super-humano em estado puro, milênios antes de Marx.
Só que esse lugar, quando o homem o ocupa, não transforma o homem em Deus. Olavo chega a essa conclusão na palestra, e o Novo Testamento a confirma. Deus, que de fato está acima de tudo, não usa essa posição para condenar o mundo:
Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.
Quem se põe acima de tudo para condenar tudo está ocupando outra cadeira, e a Bíblia dá nome a quem se senta nela. Em hebraico, satan quer dizer “o adversário”. O biblista Valmor da Silva levanta uma hipótese curiosa sobre a origem dessa figura: ela teria se inspirado num cargo da corte persa conhecido como “olho do rei”, o espião que vigiava e acusava os súditos.5 O olho que vê tudo e nunca é visto, de novo. O super-humano não inventou nada; só se candidatou a uma vaga muito antiga.
O acusador que enxerga o mal em tudo
O retrato mais completo do grande acusador está no começo do livro de Jó, e esse acusador se parece muito com o super-humano. Quando Deus pergunta de onde ele vem, a resposta é de quem vigia o mundo inteiro:
De rodear a terra e passear por ela.
Deus aponta Jó, um homem íntegro, e o acusador não discute os fatos. Discute os motivos:
Será que é sem motivo que Jó teme a Deus?
Repare no método. O acusador não nega que Jó seja bom; insinua que por trás do bem existe um interesse escondido. É o que Olavo descreve na palestra: olhar para tudo pelo lado do mal, inclusive para as melhores coisas que existem.1 Nenhuma virtude passa no exame, porque o exame já começa supondo a sujeira. E o examinador, claro, nunca é examinado; ninguém pergunta ao acusador por que ele vive rodeando a terra.
Séculos depois, o profeta Zacarias vê a mesma figura num tribunal:
Deus me mostrou o sumo sacerdote Josué, que estava diante do Anjo do Senhor; mostrou também Satanás, que estava à direita de Josué, para o acusar.
Josué está vestido de roupas sujas, e a acusação tem material de sobra. Mas Deus não responde discutindo as roupas. Repreende o acusador e chama Josué de “um toco de lenha tirado do fogo” (Zc 3.2). O Apocalipse descreve o desfecho dessa cena:
Agora veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite diante do nosso Deus.
De dia e de noite. O acusador não tem folga, e também não tem tribunal acima dele. Ele não constrói nada; só aponta. E aí está a sedução: apontar é fácil, rápido, e dá a sensação imediata de estar do lado certo, sem o trabalho de erguer coisa alguma.
O mais desconfortável é que a cadeira dele não exige carteirinha de militante. Jesus contou uma parábola, diz Lucas, para gente religiosa que confiava em si mesma e desprezava os outros:
O fariseu ficou em pé e orava de si para si mesmo, desta forma: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano.”
O fariseu jejuava e dava o dízimo. E, mesmo de pé no templo, estava sentado na cadeira do acusador.
Descer em vez de subir
O único que tinha direito à cadeira mais alta fez o caminho contrário. Paulo descreve esse movimento assim:
Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus, que, mesmo existindo na forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus algo que deveria ser retido a qualquer custo. Pelo contrário, ele se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos seres humanos. E, reconhecido em figura humana, ele se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.
Leia isso ao lado do Éden. Adão, que era homem, quis ser como Deus. Cristo, que era Deus, se fez homem. O super-humano sobe para não ser visto; Cristo desce e se deixa ver, exposto numa cruz, diante de quem quisesse olhar. E onde o acusador aponta de dia e de noite, João apresenta Cristo em outro papel diante do Pai:
Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Mas, se alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo.
E repare como o Apocalipse diz que o acusador foi vencido. Não por uma acusação mais forte que a dele:
Eles o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo diante da morte, não amaram a própria vida.
O acusador só perde para quem não precisa mais se defender, porque já foi defendido.
C. S. Lewis observou, em Cristianismo puro e simples, que o orgulhoso vive olhando as coisas e as pessoas de cima para baixo, e quem só olha para baixo não consegue ver o que está acima dele.6 A cadeira do super-humano tem esse defeito de fábrica: dela o super-humano vê o mundo inteiro, menos Deus e menos a si mesmo.
Sair dela não exige um grande gesto. Começa por deixar alguém examinar você: ter pelo menos uma pessoa com liberdade de dizer onde você está errado, como discutimos em outro texto. Continua quando você olha primeiro para “a trave que está no seu próprio” olho (Mt 7.3), antes de apontar o cisco do outro. E se aprofunda quando alguém enxerga em você algo de que você não gosta, e a sua primeira pergunta deixa de ser “como ele ousa?” e passa a ser “será que ele tem razão?”.
O árbitro que aceita rever os próprios lances perde um pouco da pose. Em troca, volta a fazer parte do jogo. A cadeira mais alta do estádio está vazia, e ainda bem: quem tinha direito a ela preferiu descer ao campo.
Referências
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Carvalho, O. de. Palestra sobre a Escola de Frankfurt, a dialética negativa e a paralaxe cognitiva, republicada no YouTube. (republicada em 2026) ↩ ↩2 ↩3
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Marx, K. “Letters from the Deutsch-Französische Jahrbücher”, carta a Arnold Ruge, setembro de 1843. Tradução livre do inglês. ↩
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Gordon, P. E. “The Utopian Promise of Adorno’s ‘Open Thinking,’ Fifty Years On.” The New York Review of Books. (2019) ↩
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Quote Investigator. “Who Ya Gonna Believe, Me or Your Own Eyes?” Tradução livre do inglês. (2018) ↩
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Silva, V. da. “Satã espião e acusador, do imperialismo persa para a Bíblia Hebraica.” Revista Pistis & Praxis, v. 17, n. 3, p. 476-486. (2025) ↩
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Lewis, C. S. Cristianismo puro e simples. Thomas Nelson Brasil. (2017) ↩