Vigiar Sem Delirar: o Que Fazer Com Tudo Isso

Entre o sentinela que dorme e o que vê inimigo em cada sombra, a Bíblia pede vigília sóbria. Fecho da série sobre Lilly, IA e Apocalipse.
Vigiar Sem Delirar: o Que Fazer Com Tudo Isso

Foto por Evgeni Tcherkasski no Unsplash

Existem dois tipos de sentinela que não servem para nada. O primeiro dorme no posto. Quando o inimigo chega, a cidade acorda com o barulho das portas. O segundo vê inimigo em cada sombra. Grita, aciona o alarme, acorda a cidade toda a cada rajada de vento, e em pouco tempo ninguém mais presta atenção nele. O que a cidade precisa é de um terceiro tipo: alguém acordado, atento e calmo, capaz de distinguir o vulto de um ladrão do vulto de uma árvore.

Esta série passou sete posts perto do segundo tipo. Lilly, cientista de talento, leu o mundo como uma rede de sinais e acabou preso dentro dela. Os cristãos que leem o Apocalipse como mapa do noticiário têm o mesmo risco. A Bíblia pede outra postura, e o último post da série é para dizer qual é.

O que Lilly viu e o que isso lhe custou

Vale resumir o percurso com justiça. John Lilly fez perguntas importantes antes de quase todo mundo: o que é uma mente, o que acontece quando construímos máquinas que pensam, o que um sistema que escapa ao nosso controle poderia fazer (O Homem Que Flutuou no Escuro, A Mente Como Computador). Algumas dessas perguntas viraram pauta da ciência séria de hoje (O Que a SSI de Lilly Acertou e Errou).

Mas o caminho que escolheu para respondê-las, o de se usar como instrumento, sob drogas, dentro de um tanque, cobrou um preço. Segundo o artigo de Charlie Williams, da Queen Mary, Universidade de Londres, a fase em que ele concebeu a SSI reflete o abuso de cetamina e se insere num “estilo paranoico” de pensar, no qual tudo tem um autor oculto.1 Nos escritos dessa época, os acasos viram ordens e desconhecidos viram agentes.1 Uma mente que só vigia acaba perdendo a capacidade de descansar, e uma mente que não descansa perde a de discernir.

O alarme de Lilly não era inteiramente falso, e o modo como ele o interpretou o afastou de qualquer verificação. Os dois fatos convivem.

Vigiar não é adivinhar

O Novo Testamento usa a palavra “vigiar” sem parar, e nunca no sentido de decifrar a hora. Quando os discípulos perguntam a Jesus quando as coisas vão acontecer e qual será o sinal, a primeira resposta é uma advertência:

Tenham cuidado para que ninguém os engane.

E, mais adiante, a recusa de fornecer data:

Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai.

Logo depois, vem a instrução prática, no mesmo capítulo:

Portanto, vigiem, porque vocês não sabem em que dia virá o Senhor de vocês.

Repare na lógica. Vigiar é a consequência de não saber. Se o tempo fosse conhecido, bastaria marcar no calendário. Como não é, o que sobra é uma disposição permanente de fidelidade. Antes de subir ao céu, Jesus repetiu a mesma linha aos apóstolos:

Não cabe a vocês conhecer tempos ou épocas que o Pai fixou pela sua própria autoridade.

Quem passa os dias calculando datas e identificando figuras está fazendo exatamente o que Jesus disse que não cabe. E quem faz isso tem pouco tempo para o que cabe: servir, perdoar, trabalhar, orar.

Sóbrios, não assustados

Paulo, escrevendo aos tessalonicenses, diz que não é preciso escrever sobre “tempos e épocas” (1Ts 5:1), e em seguida descreve o estado de espírito certo:

Assim, pois, não durmamos como os demais; pelo contrário, vigiemos e sejamos sóbrios.

Vigiar e ser sóbrio vêm juntos. O contrário de dormir não é pânico. É lucidez. O texto fala ainda de filhos “da luz e do dia”, gente que não é pega de surpresa porque não vive no escuro, e não porque tenha informação privilegiada.

Jesus diz algo parecido quando fala de guerras e rumores de guerras:

E vocês ouvirão falar de guerras e rumores de guerras. Fiquem atentos e não se assustem, porque é necessário que isso aconteça, mas ainda não é o fim.

“Fiquem atentos e não se assustem.” As duas coisas na mesma frase. A fé cristã não pede que o crente ignore as notícias, mas que as receba de pé. E Paulo, num outro ponto, dá a razão:

Porque Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação.

Moderação, aqui, é a palavra para o equilíbrio que Lilly perdeu: a capacidade de encarar o que é grave sem entregar o juízo.

O que fazer no início da semana

Diante de tudo o que a série mostrou, a pergunta prática é simples: e agora? Algumas respostas, sem pretensão de serem completas.

Usar as ferramentas sem entregar o discernimento. A inteligência artificial é uma ferramenta poderosa, e condenar tudo seria tão ingênuo quanto adorá-la. O teste do oráculo de A Imagem Que Fala continua válido: quem fez, posso conferir, posso recusar, estou perguntando para decidir ou para não decidir?

Reconhecer os padrões em vez de caçar nomes. O Apocalipse treina o leitor a perceber quando um poder pede o que só é devido a Deus e condiciona o pão à lealdade (Comprar, Vender e Controlar). Aprende-se a perceber isso em qualquer época, sem precisar de data.

Planejar sem presunção. Tiago tem uma frase que serve de regra de vida:

Em vez disso, deveriam dizer: “Se Deus quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo.”

Aceitar que o dia tem tamanho. Jesus diz que o amanhã traz os seus cuidados e que basta ao dia o seu próprio mal (Mt 6:34). Isso não proíbe pensar no futuro. Proíbe viver nele antes da hora.

Levar a ansiedade para a oração. Paulo prescreve algo concreto para quem se sente cercado:

Não fiquem preocupados com coisa alguma, mas, em tudo, sejam conhecidos diante de Deus os pedidos de vocês, pela oração e pela súplica, com ações de graças.

E o resultado prometido não é informação, é paz:

E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.

O fim do livro é uma promessa, não um alarme

O Apocalipse não termina em bestas, termina em casa. As últimas visões não são de destruição, são de restauração:

Então ouvi uma voz forte que vinha do trono e dizia: — Eis o tabernáculo de Deus com os seres humanos. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles e será o Deus deles.

E lhes enxugará dos olhos toda lágrima. E já não existirá mais morte, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.

Todo o aparato de selos, bestas, marcas e cidades caídas existe a serviço dessa cena. O livro foi escrito para que cristãos sob pressão continuassem fiéis, sabendo como a história termina. A última fala é uma oração:

Aquele que dá testemunho destas coisas diz: — Certamente venho sem demora. Amém! Vem, Senhor Jesus!

Esse é o tom correto para tudo o que esta série tratou. A pergunta sobre máquinas, controle e fim dos tempos pode ser feita com seriedade, porque é séria. Mas quem a faz de joelhos já sabe a resposta final, e por isso pode olhar o resto com a calma de quem vigia sem delirar. O Salmo 46 diz o que o sentinela do terceiro tipo pode sussurrar quando a cidade treme:

Aquietem-se e saibam que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra.

Para refletir

  1. Você se reconhece mais no sentinela que dorme ou no que vê inimigo em cada sombra? O que ajudaria a se aproximar do terceiro tipo?
  2. Se o Apocalipse termina com Deus habitando com as pessoas e enxugando lágrimas, o que isso muda na maneira como você lê o noticiário?

Referências

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