Comprar, Vender e Controlar: Apocalipse 13 e 18

A marca da besta e a queda de Babilônia falam de um poder que condiciona o pão à lealdade. O que isso significava em Roma e o que ensina hoje.
Comprar, Vender e Controlar: Apocalipse 13 e 18

Foto por Florian Wehde no Unsplash

Imagine uma cidade pequena com um único padeiro. Um dia, o padeiro avisa que só venderá pão a quem jurar fidelidade ao prefeito. Ninguém foi preso, ninguém foi ameaçado de morte, e mesmo assim todo mundo sabe o que está acontecendo. Quem jurar come. Quem recusar passa fome com a dignidade que conseguir sustentar.

É essa a lógica de um dos versículos mais citados e mais mal lidos do Apocalipse. Quando se ouve falar em “marca da besta”, a imaginação pula para chips, códigos de barras e cartões. O texto, porém, fala de pão e de moedas, e de um poder que descobriu que o jeito mais eficiente de controlar gente é decidir quem pode comprar.

O tema conversa com a série inteira. Lilly escreveu que as máquinas de estado sólido começariam como serviçais e, com o tempo, escapariam ao controle humano (veja o resumo). Num mundo em que o crédito, o emprego e o acesso passam por sistemas automatizados, a pergunta de Lilly sobre quem controla o quê deixa de ser ficção e vira conta bancária. É exatamente aí que o Apocalipse tem algo a dizer, e que o cuidado com a leitura mais importa.

Comprar e vender: o que o texto exige e o que não diz

A passagem é curta e enfática:

A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz com que lhes seja dada certa marca na mão direita ou na testa,

para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome.

Três observações antes de qualquer interpretação. A primeira: a marca é universal, atinge “pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos”, ou seja, todas as classes. A segunda: ela é visível, “na mão direita ou na testa”, lugares que lembram a ordem dada a Israel de amarrar a Lei “como sinal na sua mão” e “por frontal entre os olhos” (Dt 6:8). É uma paródia de lealdade. A terceira: o que a marca faz é regular o acesso ao comércio, e não perseguir diretamente. O castigo não vem como golpe, vem como exclusão.

Há ainda um contraponto no próprio livro. Antes do capítulo 13, o capítulo 7 mostra um outro tipo de marca, que protege:

dizendo: — Não danifiquem nem a terra, nem o mar, nem as árvores, até marcarmos com um selo a testa dos servos do nosso Deus.

O texto, portanto, opõe dois selos. Um pertence a Deus e protege. O outro pertence à besta e condiciona. A pergunta do livro não é “quem tem tecnologia”, é “a quem você pertence”.

Moedas, guildas e certificados

O que isso significava no mundo de João? O estudioso Craig Keener lembra que a divindade imperial aparecia em moedas e até em documentos de embarque e em outros papéis do cotidiano, de modo que pouco comércio era possível sem entrar no sistema imperial.1 Além disso, sair das guildas, as associações de ofício cujas reuniões incluíam carne oferecida a ídolos, era, em muitas cidades, um suicídio econômico.1 Nos séculos seguintes, a prática se formalizou: um imperador do meio do século 3 chegou a exigir certificados de sacrifício para que as pessoas pudessem comercializar.1

Para um cristão que se recusava a participar do culto, o resultado era concreto: perder clientela, perder acesso a mercados, perder o sustento. A “marca” é a imagem exata disso, um selo de pertencimento ao sistema que abre as portas do comércio.

Keener resume a posição da maioria dos comentaristas: o número 666 provavelmente codifica o nome de Nero César, e o texto não deve ser lido como descrição de um sistema bancário moderno. Ele admite, ao mesmo tempo, que um poder futuro possa usar uma marca literal, mas como possibilidade, não como certeza.1 É a postura que adoto aqui: não afirmo que isto ou aquilo seja a marca. Aprendo com o padrão.

O que Babilônia vendia

O capítulo 18 faz o mesmo movimento do ponto de vista dos comerciantes. A cidade que simboliza o poder opressor cai, e quem chora a queda não é o povo, são os mercadores:

E, por causa dela, choram e pranteiam os mercadores da terra, porque ninguém mais compra a sua mercadoria,

A lista de mercadorias vem a seguir, e é longa: ouro, prata, pedras preciosas, linho fino, seda, madeira cara, especiarias, vinho, azeite, trigo, gado. Termina com uma sequência que muda o tom:

e canela de cheiro, especiarias, incenso, perfume, mirra, vinho, azeite, boa farinha, trigo, gado e ovelhas; e de cavalos, de carruagens, de escravos e até almas humanas.

O último item, “escravos e até almas humanas” (literalmente, “corpos e almas de homens”), é lido por comentaristas como uma denúncia do tráfico de escravos. O estudioso Murray Vasser publicou, em 2018, um artigo defendendo essa leitura com argumentos mais sólidos do que se costumava apresentar.2 A tradução da expressão também é discutida: o manual de tradução das Sociedades Bíblicas Unidas lembra que “corpos” costuma ser entendido como escravos e que “almas” aparece em Ezequiel 27 com o mesmo sentido.3

A lição é desconfortável: a lista termina com gente. Um sistema de comércio que se organiza em torno do luxo acaba transformando pessoas em mercadoria. E o chamado que vem em seguida não é de reforma, é de saída:

Ouvi outra voz do céu, dizendo: “Saiam dela, povo meu, para que vocês não sejam cúmplices em seus pecados e para que os seus flagelos não caiam sobre vocês.

Controle de coincidências ou providência?

Aqui entra o outro lado do pensamento de Lilly. O Escritório de Controle de Coincidências da Terra (ECCO), como vimos, seria uma administração benevolente que “arranja” acontecimentos na vida das pessoas. A ideia tem um atrativo humano evidente: quem não gostaria de saber que os acasos têm autor e finalidade?

A Bíblia afirma algo parecido, e faz isso sem o vocabulário de espionagem:

O coração do ser humano traça o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos.

Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.

A diferença é de natureza. A providência bíblica não exige que o crente decifre cada coincidência como mensagem. Ela diz que, no conjunto, há um propósito e que ele é bom, e deixa a pessoa livre para viver sem montar um mapa de sinais. A ECCO de Lilly pede o contrário: um estado de atenção permanente, em que cada acaso é uma ordem a decodificar. Um é descanso, o outro é vigília sem trégua.

Há um ponto prático. Em sistemas que decidem o que enxergamos, o que compramos e o que nos é oferecido, a pergunta “isto é acaso ou foi arranjado?” faz sentido. Algoritmos de fato arranjam parte do que nos chega. Mas a resposta bíblica é não confundir o arranjo de uma empresa com o governo de Deus, nem aceitar o primeiro como se fosse o segundo.

Como viver num sistema que cobra lealdade

O que um cristão faz diante de um poder que condiciona o pão à fidelidade? O próprio capítulo 13 dá a resposta mais austera do livro:

“Se alguém tiver de ir para o cativeiro, para o cativeiro irá. Se alguém tiver de ser morto pela espada, pela espada morto será.” Aqui está a perseverança e a fidelidade dos santos.

A palavra é perseverança. Não é fuga, não é violência, não é conspiração. É um jeito de continuar fiel quando o custo sobe.

Dá para traduzir isso em hábitos simples, sem especular sobre o futuro:

  • Conhecer o preço do sistema em que se vive. Todo sistema cobra alguma coisa. Quem não sabe o que paga já está pagando.
  • Não entregar o discernimento. O que decide por você quando você não decide, decide por você.
  • Manter uma economia paralela de confiança. Igreja, vizinhança, amigos que sobrevivem ao que o sistema oferece ou retira.
  • Lembrar a quem se pertence. O selo de Ap 7 é anterior e mais forte do que qualquer marca que apareça depois.

Para refletir

  1. Em que áreas da sua vida o acesso a algo (emprego, reputação, círculo social, serviço) depende de você concordar com algo com que não concorda por inteiro?
  2. A providência bíblica descansa; a ECCO de Lilly vigia. Que sinais você percebe em você mesmo de que está lendo cada acaso como mensagem?

Referências

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