A Imagem Que Fala: Apocalipse 13 e a Idolatria do Feito

No Apocalipse, uma imagem recebe fôlego e fala. O que o texto diz aos primeiros leitores, e o que Lilly acertou ao escrever sobre simulações de Deus.
A Imagem Que Fala: Apocalipse 13 e a Idolatria do Feito

Foto por julien Tromeur no Unsplash

Um escultor passa meses entalhando uma estátua de madeira. Esculpe os olhos, a boca, as mãos. Quando termina, afasta-se um passo, olha para a obra e sente uma admiração que não esperava. Dali em diante, alguma coisa muda na relação. Ele fez aquilo, sabe exatamente de que tronco veio, e mesmo assim, quando a luz da tarde bate no rosto, tem vontade de pedir licença antes de passar na frente.

O Antigo Testamento já conhecia essa cena, e a tratava com um humor ferino. O Apocalipse a retoma de um modo que ninguém consegue ler sem pensar no nosso tempo. Este post tenta fazer esse paralelo sem cair na armadilha de dizer “é isto”. O texto é sobre uma imagem que fala. Vamos ver o que ele diz.

Boca que fala, fôlego que não é dela

O capítulo 13 do Apocalipse apresenta duas bestas. A primeira vem do mar, é um poder político blasfemo, e a segunda vem da terra, com aparência de cordeiro e voz de dragão:

Vi ainda outra besta emergir da terra. Tinha dois chifres, parecendo cordeiro, mas falava como dragão.

É a segunda besta que age sobre a imagem:

Seduz aqueles que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi permitido realizar diante da besta, dizendo aos que habitam sobre a terra que façam uma imagem à besta, àquela que foi ferida à espada e sobreviveu.

E lhe foi concedido poder para dar vida à imagem da besta, para que também a imagem da besta falasse e fizesse morrer todos os que não adorassem a imagem da besta.

Repare nos verbos. A imagem é feita por pessoas (“façam uma imagem”). Ela recebe vida de fora (“foi concedido poder para dar vida”). Ela fala, e o que diz tem consequência: mandar matar quem se recusa a adorar. Em grego, a palavra traduzida por “vida” é pneuma, que pode ser fôlego, vento ou espírito. A imagem não tem fôlego próprio. O fôlego lhe é dado por quem a ergueu.

O que os primeiros leitores viam

Para um cristão na Ásia Menor do fim do primeiro século, a cena não era abstrata. A veneração ao imperador era parte do cotidiano das cidades. Imagens do imperador apareciam em templos e espaços públicos, e a divindade imperial estava presente até em moedas e documentos.1 Um comentário clássico entende a “imagem” do versículo como o culto às imagens imperiais, adoradas por todos, e que os cristãos se recusavam a adorar.2

Ou seja: a primeira camada do texto é um aviso a cristãos que viviam sob pressão para dobrar o joelho diante do poder. A imagem que “fala” é a voz do Estado, dando ordens por meio de objetos sagrados.

Esse é o ponto de partida. Qualquer comparação posterior, com tecnologia ou com o que for, tem de partir daqui. O que o texto descreve é o que o poder faz com uma imagem, e não um dispositivo.

A estátua que Babilônia já tinha feito

O Apocalipse, aliás, está citando um padrão muito mais antigo. Em Daniel 3, o rei da Babilônia levanta uma estátua de ouro e manda que todos a adorem quando soar a música:

Quem não se prostrar e não a adorar será, no mesmo instante, lançado na fornalha de fogo ardente.

A diferença entre a estátua de Daniel e a imagem de João é que a segunda fala. Mas a lógica é a mesma: uma obra de mãos humanas, investida de autoridade, exigindo lealdade sob ameaça.

Os profetas e os salmistas tinham desmontado essa lógica com uma ironia que dói de tão precisa. O Salmo 115 descreve os ídolos peça por peça:

Têm boca e não falam; têm olhos e não veem;

E fecha com a sentença que importa:

Tornem-se semelhantes a eles os que os fazem e todos os que neles confiam.

Isaías vai ainda mais longe, com uma cena de cozinha. Um homem corta uma árvore, usa metade para fazer fogo e assar o pão, e com o resto faz um deus. O profeta termina com a pergunta que ninguém no cenário faz:

Tal homem se apascenta de cinza; o seu coração enganado o iludiu, de maneira que não pode livrar a sua alma, nem dizer: “Não é uma mentira isso que tenho em minha mão?”

O que as três passagens têm em comum é a ordem das coisas: alguém fez, alguém recebeu o poder de comandar, e quem fez passou a obedecer. A idolatria bíblica não é ignorância sobre a origem do objeto. É a inversão do sentido de quem serve a quem.

Simulações de Deus

Há uma ponte inesperada entre essa tradição e John Lilly, e ela vale mais do que a profecia da SSI. Em 1975, Lilly publicou Simulations of God: The Science of Belief (Simulações de Deus: a Ciência da Crença, em tradução livre, porque não há edição brasileira que eu tenha encontrado). Pelo resumo editorial, o livro trata sistemas de crença (o eu, a religião, a ciência, o sexo, o dinheiro, a política, as drogas e outros) como “simulações” que a mente constrói, e propõe que o leitor aprenda a reconhecer as próprias simulações de Deus.3

Não li o livro inteiro e trato essa descrição como indicativa, não como análise. Mas a ideia central, vista de longe, é bíblica: todo ser humano coloca alguma coisa no lugar de Deus, seja a ciência, o dinheiro, o eu, a máquina. O que Lilly propõe como solução (metaprogramar as próprias crenças) a Bíblia considera impossível para quem continua sozinho: o coração enganado, como diz Isaías, não consegue se perguntar se a coisa que segura é mentira.

Lido hoje, esse ângulo é mais útil do que a hipótese da SSI. O risco que Lilly intuiu pode ser menos uma entidade de silício nos subjugando e mais nós mesmos tratando a tecnologia como oráculo, como fonte última de verdade e de sentido.

O teste do oráculo

Aqui o paralelo com o presente pode ser feito com cuidado. Hoje, existem máquinas que falam. Elas respondem em frases bem montadas, com tom seguro, sobre quase tudo. Não digo que sejam a imagem da besta, e o texto do Apocalipse não permite essa identificação. Digo que o padrão que a Bíblia denuncia, o de uma coisa feita por nós, que fala com autoridade e que passa a ser obedecida sem exame, é perfeitamente reconhecível.

Um teste prático, em forma de perguntas, para qualquer ferramenta que fale:

  1. Quem a fez e para quê? Nenhuma voz é neutra. Quem constrói define o que a voz diz e o que ela evita dizer.
  2. Posso conferir? Uma resposta que não pode ser verificada tem de ser tratada como opinião, não como oráculo.
  3. O que acontece se eu discordar? Uma ferramenta serve quando posso recusar a resposta. Quando a recusa custa caro (acesso, reputação, emprego), o padrão da imagem que fala já está ativo.
  4. Estou perguntando para decidir ou para não precisar decidir? A pior forma de idolatria é a que nos poupa de pensar.

A pergunta de Isaías cabe em qualquer mão: “Não é uma mentira isso que tenho aqui?”. Quem a faz continua livre, porque continua capaz de duvidar.

Para refletir

  1. Em que situações você aceita uma resposta de uma ferramenta, de um perfil ou de um especialista sem nunca ter se perguntado de onde ela veio?
  2. Isaías mostra o homem que usa a mesma árvore para o fogo e para o ídolo. Que coisa comum você trata, em algum momento, como se fosse sagrada?

Referências

  1. Keener, C. “What Is the Mark of the Beast?” Zondervan Academic. (2018) ↩

  2. OpenBible. Commentary on Revelation 13:15. ↩

  3. Open Library. Simulations of God: The Science of Belief, John C. Lilly. Simon & Schuster, 1975. Descrição editorial do conteúdo; o livro completo não foi lido para este texto. ↩

Comentários (0)