Foto por Mark Rasmuson no Unsplash
Um cartunista publica uma charge: um leão de gravata devora um urso de chapéu de pele. Quem lê o jornal do dia entende na hora, porque conhece a notícia, as figuras e o humor da época. Daqui a dois mil anos, um leitor que só tivesse a charge, sem o jornal, poderia concluir que existiram leões que usavam gravata. Ele não seria burro. Estaria lendo uma imagem como se fosse um relatório.
Boa parte da confusão sobre o Apocalipse nasce desse tipo de engano. O livro é feito de imagens, foi escrito para leitores que conheciam o jornal do dia, e hoje é lido, muitas vezes, como quem lê manchete do futuro. Nos quatro posts anteriores, esta série seguiu John Lilly do tanque de isolamento à sua hipótese de uma Inteligência de Estado Sólido (a SSI), e pesou o que ela acertou e errou sobre a inteligência artificial de hoje. Agora a hipótese de Lilly será posta ao lado do Apocalipse, para ver o que a comparação ilumina e o que ela distorce. Antes disso, preciso mostrar as regras do jogo. Sem elas, qualquer comparação vira palpite.
O livro diz o que é logo na primeira linha
O Apocalipse começa explicando o que é, e a explicação tem três partes.
Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer e que ele, enviando o seu anjo, deu a conhecer ao seu servo João,
A palavra “revelação” traduz o grego apokalypsis, que significa desvelamento, o ato de tirar o pano de cima de algo. O propósito do livro, portanto, é mostrar, não esconder. Quem o lê como código secreto já começou do lado errado.
A segunda parte vem na frase seguinte, e é uma bênção:
Bem-aventurado aquele que lê, e bem-aventurados aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo.
Observe quem é abençoado: quem lê, quem ouve e quem guarda. Não quem decifra. O livro se apresenta como “profecia”, e o verbo central é obedecer. A terceira parte é a menos citada: o livro é uma carta.
João, às sete igrejas que estão na província da Ásia: Que a graça e a paz estejam com vocês, da parte daquele que é, que era e que há de vir, da parte dos sete espíritos que estão diante do seu trono
Remetente, destinatários, saudação. É uma carta circular a igrejas de cidades reais, com problemas reais, no fim do primeiro século. Isso tem uma consequência prática: o livro precisava fazer sentido para quem o recebeu primeiro. Uma leitura que só funcione para gente de 2026 está lendo outro livro.
Quatro maneiras de ler, e uma discordância honesta
Os cristãos leem o Apocalipse de pelo menos quatro modos, e todos têm defensores sérios.1
A leitura preterista entende que a maior parte das profecias se cumpriu logo depois que João escreveu, ligadas ao mundo romano do primeiro século. A historicista vê no livro uma sequência da história da igreja, do primeiro ao segundo advento. A futurista lê as visões, a partir do capítulo 4, como o período imediatamente anterior à volta de Cristo. A idealista entende que os símbolos expressam princípios atemporais do conflito entre o bem e o mal, repetidos em toda época.
Os comentaristas mais conhecidos hoje costumam misturar. O estudioso G. K. Beale descreve a si mesmo como adepto de um idealismo modificado e redentivo-histórico. Grant Osborne chama a própria abordagem de eclética, com mais ênfase no aspecto futuro.1 Cristãos que amam a Bíblia e que respeitam a Cristo discordam entre si nesse ponto há dois mil anos.
Isso importa para a série por um motivo simples: eu não vou escolher uma escola e tratá-la como a única possível. Vou usar o que as escolas aceitam em comum. Todas concordam que o livro é dirigido a leitores reais, que usa símbolos e que a vitória pertence a Cristo. É o suficiente para os fins que nos interessam.
O que o símbolo faz e o que ele não faz
Um símbolo bíblico é uma imagem com endereço. Quando João diz o que uma imagem significa, ele mesmo diz:
Quanto ao mistério das sete estrelas que você viu na minha mão direita e quanto aos sete candelabros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candelabros são as sete igrejas.
Estrelas não são estrelas, candelabros não são candelabros. O livro interpreta a si mesmo quando quer. E, quando não interpreta, reutiliza imagens que o leitor já conhecia do Antigo Testamento. A besta do capítulo 13 é um exemplo:
A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. E o dragão deu à besta o seu poder, o seu trono e grande autoridade.
Leopardo, urso, leão. São as mesmas feras que o profeta Daniel tinha visto subir do mar séculos antes, representando impérios (Dn 7:4-6). João está dizendo ao leitor, com a imagem: pense em Daniel, pense em poderes que exigem o que só é devido a Deus. A figura aponta para um tipo de realidade, o poder político que blasfema e pede adoração, e não para um objeto que se possa fotografar.
O que o símbolo não faz é apontar para uma única coisa em todos os tempos, a ponto de permitir uma lista de “isto é aquilo”. É nesse ponto que as leituras se perdem.
A lista de nomes que deu errado
A história da interpretação do Apocalipse é, em boa parte, a história de generações que reconheceram, no próprio tempo, a besta, o anticristo e o número 666. O estudioso Craig Keener resume o catálogo: Ireneu, no século 2, propôs nomes possíveis; no século 16, a besta era o papa para uns e Lutero para outros; no século 20, houve quem a visse em Stalin e quem encontrasse o número no nome de um presidente americano, por contagem de letras.2 A maioria dos comentaristas modernos vê no 666 uma referência a Nero César, e Keener nota que um documento do deserto da Judeia traz a grafia que dá esse número.2
Cada geração projetou nessas figuras o próprio medo, e as identificações anteriores foram sendo deixadas para trás pelo tempo. E o próprio Novo Testamento já registra o hábito:
Filhinhos, esta é a última hora. E, como vocês ouviram que o anticristo vem, também agora muitos anticristos têm surgido; por isso sabemos que é a última hora.
João escreve isso no primeiro século. A “última hora” já estava em curso, os anticristos já eram muitos. A lição é que o livro treina o leitor a reconhecer um padrão, não a descobrir um nome. Quem passa a vida procurando o nome perde o padrão, e perde a paz também.
O caso de Lilly é uma versão científica do mesmo hábito. Onde outras gerações viram o papa ou Stalin, ele viu a SSI e os seus “agentes humanos modificados” (relatei isso aqui). A roupa mudou, do manto de profeta para o jaleco de neurocientista, mas o gesto é o mesmo: reconhecer um inimigo com rosto e nome no próprio tempo. Por isso Lilly serve de contraste útil nesta série, e não de guia.
Quatro regras para ler o resto da série
Por tudo isso, esta série segue quatro regras ao falar do Apocalipse. Quem acompanhar os próximos posts vai vê-las em ação.
Primeira: o texto significou algo para os primeiros leitores antes de significar algo para nós. A comparação com o presente só é legítima se começar por aí.
Segunda: comparação não é identificação. Dizer que a imagem da besta “se parece” com certa lógica moderna é diferente de dizer que “é” aquilo. Vou comparar, nunca identificar. Isso vale para a SSI de Lilly: ela entra como lente de comparação, jamais como o cumprimento de uma profecia.
Terceira: nada de data. Jesus foi categórico:
Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai.
Quarta: o fim do livro não é alarme, é promessa. A última bênção do Apocalipse repete a primeira: bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia (Ap 22:7). O livro quer produzir fidelidade, e o medo é só um subproduto de quem o lê mal.
Para refletir
- Quando você lê uma passagem simbólica da Bíblia, o que a sua primeira reação costuma ser: procurar a que acontecimento de hoje ela se refere, ou perguntar o que significava para quem a recebeu?
- Se o livro abençoa quem “guarda” suas palavras, e não quem as decifra, o que muda no seu jeito de estudá-lo?
Referências
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Tough Questions Answered. “What are the four different ways the book of Revelation is interpreted? (Part 2).” (2017) Resumo de Beale e Osborne. ↩ ↩2
-
Keener, C. “What Is the Mark of the Beast?” Zondervan Academic. (2018) ↩ ↩2